II. Culture, récolte et production du cassis
II.2. Récolte du cassis
Assim como a cultura indígena foi o elemento predominante no sincretismo encontrado nos estados da região norte do Brasil, pois ali a sua presença era maciça, talvez possamos usar o mesmo argumento para concluir o mesmo na região Contestada. Embora o quadro religioso brasileiro sempre tenha paisagem católica, as faces que compõem a tela, geralmente, tem traços étnicos dominantes. Segundo Bastide, tal não apenas é possível, como se torna uma necessidade especificar qual o “tronco” cultural principal no qual são enxertados elementos de outra cultura, ramificando o sincretismo. Assim, por exemplo, destaca a importância de saber distinguir entre a religião popular de origem indígena e a religião popular de origem africana (BASTIDE, 1985, p. 243). Por ter sido o negro, como já dissemos, o grande condutor interculturas, deixou sua marca em tudo o que tocou. Sua participação no teatro religioso não se deu como expectador, mas como ator e assistente de produção. Em outras palavras, mesmo nas expressões religiosas de prevalência indígena, há toques de contribuição africana.
Aparentemente, o negro foi o grande fator de unidade nacional. É indiscutível que o catolicismo introduzido em todas as culturas encontradas no Brasil colonial (portugueses, índios e negros) funcionou como ponto de contato entre elas. No entanto, os índios livres estavam nas matas. Quanto àqueles que foram escravizados, seu número foi muito menor do que os africanos. Portanto, havia um abismo cultural entre ameríndios e portugueses, que encontrou como principal ponte a cultura negra, isto é, a cultura brasileira teve o preto como contorno. Usando o espectro do colorido das raças, era o preto que transitava, com certa facilidade, entre brancos e “marrons”. Era ele que estava presente na cidade, no campo, nas matas, e, até mesmo, em muitas aldeias. Essa “onipresença” negra fez de sua cultura o veículo do catolicismo aberto e sincrético, ao mesmo tempo sugando e disseminando crenças e práticas religiosas por onde passava. Conquanto haja muitas e grandes diferenças entre as mitologias do índio e do negro, a interação entre elas se deu, especialmente, pelo fato de ambas serem religiões de possessão, caracterizadas pela descida do deus ao corpo. (PEREIRA, 1981, p. 198; BASTIDE, 1985, p. 253). Tomando esse argumento, pode-se perceber que, além do catolicismo, como ambiente que une a religiosidade negra e índia em seus sincretismos, na Religião Contestada ambas encontram respaldo na atividade “profética” das virgens e dos meninos-deus, em seus transes e possessões.
No ano provável do desaparecimento de João Maria de Jesus, 1908, ocorreu no município de Palmas, um exemplo de fanatismo que ilustra o ambiente religioso da época. Dois curandeiros, Custódio Machado e Manuel Preto acreditaram que uma negra, chamada Eugênia Matungo, estava possuída por Satanás. Determinados a exorcizá-la, usaram como método surras diárias e, por vezes, colocaram-na em um estrado sobre uma fogueira. Como era de se esperar, a mulher veio a óbito, e ambos foram presos e responderam criminalmente pela atitude. A partir de 1913, estabelece-se um pequeno movimento messiânico em Lages, encabeçado por Paulo Daniel de Liz. Era assessorado por um negro “especialista em feitiços e curas com raízes” (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 54, 55). Muito interessante é o uso inteligente que o Frei Neuhaus faz do seu contexto, como autêntico missionário. Afeito à medicina alternativa, percebendo o quanto o povo que lhe foi confiado cria no curandeirismo, clara influência do xamanismo, pediu que lhe enviassem uma pequena farmácia portátil de ervas, passando a atender a gente simples do sertão da forma como estavam acostumados. Tal fato chegou a gerar no povo a crença de que ele fosse, também, uma espécie de monge, levando alguns a tratá-lo como “paizinho”. Assim, assumindo um formato “curandeiro”, informal e direto, conquistou a atenção e a admiração do povo. Adquirindo sua confiança pela estratégia da cura informal, tentou conduzi-los à ortodoxia católica. A disputa entre o catolicismo oficial e o rústico se vê com clareza na tentativa de Neuhaus “ganhar” o sertão. Empreendeu uma verdadeira “cruzada”, dedicando-
se incansavelmente em seu ofício: batizava, pregava, assistia os necessitados, ameaçava com o inferno os casais que não haviam se unido no religioso e exorcizava. Na opinião de Mauricio Vinhas de Queiroz, por considerável tempo o frei conseguiu fazer frente a João Maria. Todavia, acabou por perder a disputa de influência, devido, especialmente, à desconfiança da população geral por causa da cobrança pelos serviços religiosos, prática comum no catolicismo oficial, o que distinguia João Maria como santo, homem não apegado a dinheiro (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 57, 58). Assim, o povo não se via em dívida com os padres, pois compravam os seus serviços.
IV.2.2 Rezas e Amuletos
O caboclo, ainda peão nas fazendas, além de ervateiro tolerado pelo fazendeiro, morava em alojamentos conhecidos como “casa de peões” e utilizavam os galpões para, em seus momentos de folga, mormente à noite e ao redor da fogueira, algo quase ritualístico, falar dos feitos de outrora, seus “causos”, submerso no quente e amargo mate. Esse também era o momento da composição de cantos e dos repentes em forma de trova. Inspiravam-lhe os riscos naturais, as causas mal-resolvidas que explodiam em violência e os temores do além, legado cultural indígena, português e africano. O universo do campesino habitante das terras altas catarinenses era um mundo mágico, permeado de mistério, e até mesmo, idéias européias medievais. Ainda em nossos dias, ruídos no telhado são identificados como a presença da alma do “compadre bugre”, a quem se reza para se evitar problemas. O compadrio aí é utilizado como forma de conquistar-lhe o agrado, uma ferramenta de aproximação. Nitidamente, assimilaram o conceito ameríndio do retorno da alma dos mortos para causar problemas aos vivos. Além disso, utilizavam rezas fortes que poderiam ser enunciadas ou carregadas escritas em patuás, como amuletos junto ao peito. Nisso, percebe-se uma influência da religiosidade negra, de onde vem o tradicional uso das fórmulas para “fechar o corpo”. As ações de Deus e do diabo se confundem na religiosidade rústica. O acesso ao sobrenatural era, às vezes, visto como uma dádiva divina, outras, como uma concessão do diabo. Assim, uma mulher, respeitada por uns, reconhecida como uma benzedeira ou uma beata a serviço de Deus, poderia ser vista por outros como uma mandraqueira, bruxa, pactuada com Satanás. O fato de ser associada ao maligno não diminuía a sua clientela. Tal fato nos faz avançar no entendimento das crenças do homem simples do Contestado. Sua religiosidade incluía tudo o que fosse mágico, não importando, nem mesmo, que entidade usaria para concretizar seu intento. É certo que nem todos buscariam o “favor” do diabo com uma bruxa, por temer o mal. Pressionados pelas necessidades, buscavam no sobrenatural a estrutura, se não real, imaginária, para conviver com o abandono e a miséria (PEREIRA DE QUEIROZ, 1977, p. 97; THOMÉ, 2007, p. 63;
MONTEIRO, 1974, pp. 83, 95 – nota 13; VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 53, 54, 56; MOURA, 2003, pp. 33, 34).
Muitos se apresentavam como competentes para produzir, através de alguma prática sobrenatural, o benefício pessoal buscado pelo caboclo, através do controle dos fenômenos naturais, capazes até de interferir diretamente no subjetivo do ser humano. É interessante notar que esse tipo de crença, diferente do messianismo, tende a ser individual e egoísta, uma vez que, não raro, aquilo que se busca resulta o dano de alguém do próprio grupo social. Destarte, tal contingente de especialistas do mundo mágico era composto de: a) Benzedores: especialistas na cura de animais, utilizando quase sempre de fórmulas mágicas. b) Benzedeiras: tinha método semelhante ao dos seus pares masculinos, com a diferença que tratava de humanos. c) Curandeiros ou curadores: uniam o místico ao medicinal, fazendo uso de rituais, conjugados à aplicação de ervas medicinais. d) Carimbambas: eram vistos como médicos, por disporem de algum conhecimento homeopático. e) Entendidos: pessoas que não eram dedicadas exclusivamente às rezas e aos rituais, mas que, procuradas, sempre sabiam indicar e orientar o que fazer. f) Intendentes: acumulavam a função de parteiras ou comadres e a de benzedeiras, indicando rezas para esconjurar enfermidades e atrair a sorte. g) Mandraqueiras: mulheres reconhecidas como praticantes de ocultismo ou magia negra, que procuradas, utilizavam bruxaria para alcançar o desejo daquele que a elas recorriam. h) Capelães leigos e puxadores de terço: mais próximos do catolicismo, detinham-se mais em rezas conhecidas, celebrando batismos e casamentos (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 53). A influência de crenças ameríndias e negra é evidente em praticamente todas essas “especialidades”.
Considerando que os santos venerados no catolicismo popular são os mesmos da Santa Religião que trataremos mais à frente, limitar-nos-emos apenas a indicar que, para o campesino habitante do Contestado, à época da iminente eclosão da Guerra, tinha como santos mais populares São Sebastião, São Jorge e São Miguel, que se somavam aos personagens centrais do catolicismo, que são Deus ou o Pai, Jesus Cristo e Maria.
IV.2.3 Ascetismo
Analisando o surto messiânico-milenarista do Catulé, Renato Queiroz lança mão do pensamento de Eunice T. Ribeiro, que reconhece como característica do catolicismo rústico certo rigorismo ético, uma espécie de puritanismo sertanejo modelado pelos antigos costumes do catolicismo. Além disso, tal disposição forjava um rijo caráter, apegado à honra, disposto a defendê-la mesmo pelo uso da violência. É assim que se explica a existência de tantos dignos valentes. Segundo o autor, esse foi um dos motivos que facilitou a acolhida do Adventismo em comunidade tão simples do agreste mineiro, local onde ocorreu o surto messiânico. Tal disposição, embora parte integrante do catolicismo popular,
era incompatível com a nova fé, sendo necessária a renúncia da valentia, do ímpeto e da agressividade (QUEIROZ, 1995, p. 69). Certamente, o mesmo tipo de vida caracterizava o Contestado. Contudo, é necessário observarmos alguma dualidade comportamental no povo dos rincões brasileiros. Se considerarmos o ambiente descrito por Gilberto Freyre, sobre o que já nos referimos, a gênese do nosso povo aconteceu em meio a grande promiscuidade. Talvez possamos dizer que o contexto ético e moral do campesino nacional era marcado por fortes padrões éticos e morais, legado do catolicismo. Todavia, esses eram os preceitos, o ideal, praticado, contudo, à medida das situações, sujeitos a várias pressões de ordem social e psicológica. O ocorrido no Catulé é um exemplo disso. Em meio ao rigorismo, surgiram comportamentos diametralmente opostos não apenas à antiga fé católica, mas à nova fé Adventista.
Não eram poucos os que levavam os ritos católicos a sério na sociedade brasileira. Observa-se, por exemplo, que o abuso de jejuns por motivação religiosa chegou a ser uma das causas da deficiente condição nutricional de indivíduos que dispunham de recursos. Ainda no tempo da escravidão, por serem os braços da produção, certamente, aos negros não faltava a comida. Embora sem nenhum primor culinário, o “menu” incluía milho, toucinho e feijão, alimentos abundantes e apropriados para o esforço diário. É provável que o negro, ainda que submetido a um cardápio deficiente, tenha sido aquele que melhor foi nutrido nos períodos colonial e imperial da História do Brasil (FREYRE, 2008, p. 104, 107). Certamente, expulsos das terras que habitavam, jejum passou a ser a necessidade não religiosa do habitante do Contestado.
O solo Contestado se mostrou extremamente fértil culturalmente. Possuindo elementos culturais indígenas, posteriormente recebeu o incremento das culturas negra e portuguesa. Muitos dos caboclos sertanejos eram mamelucos, mulatos e subprodutos de suas misturas. O velho João Maria surge como anacoreta despretensioso, mas em época de grande expectativa social. Substituído por João Maria II, o personagem começa assimilar os contornos da principal causa social, a saber, a questão da posse da terra. Quando comparamos a religiosidade negra à Santa Religião, são perceptíveis suas influências, especialmente, nos patuás e na cerimônia de iniciação. De forma geral, a crença em “espíritos intermediários” e a “possessão” também compuseram a religiosidade Contestada, como legados das religiões negras. Falando-se da religiosidade indígena, vê-se a “santidade” da terra, como “casa verde” e habitação do monge em provável continuidade com a crença indígena. Além disso, as possessões e o curandeirismo ameríndios mostram- se heranças para os caboclos da Santa Religião. Foi neste “solo sagrado” que germinaram as sementes da esperança Contestada, verdadeira “árvore da vida” que almejavam.