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Chapitre 1 : Etude bibliographique

II. Détection des substances cibles

II.2. Méthodes alternatives : Les biocapteurs

II.2.2. Eléments pour la conception de biocapteurs

II.2.2.1. Récepteurs

No desenvolvimento de uma epistemologia para o reconhecimento, Honneth (2011, p. 165-181) escolhe a invisibilidade como categoria central de análise, inspirado no testemunho do personagem principal da novela Invisible man (ELLISON, 2001), a respeito do martírio psíquico vivenciado por ele por sentir-se ignorado socialmente. Na abertura do prólogo da novela, o personagem em questão fala em primeira pessoa declarando-se um homem invisível. Ele conta que essa condição decorre não do fato de sua existência corpórea não ser detectada pelas pessoas que a ele se dirigem, mas porque há uma particular disposição do olhar das pessoas com quem ele tem contato, há certa construção do olhar interior das pessoas que as faz olharem através de seus olhos físicos para tudo ao redor, menos para ele (ibidem, p. 3). Esta experiência, confessa o personagem, o faz duvidar de que ele próprio realmente existe (ibidem, p. 4).

A novela de Ellison foi publicada nos Estados Unidos em 1952, no contexto da segregação social e violência racial contra a população negra do país. O personagem principal da obra literária, portanto, é um negro e a invisibilidade em questão refere-se ao modo como as pessoas brancas relacionam-se com ele, mediadas pelo preconceito racial. Com base nessa caracterização da condição de invisibilidade social, Honneth (2011, p. 165- 181) desenvolve sua epistemologia do reconhecimento, moldada no exercício comparativo entre visibilidade e invisibilidade e entre conhecimento e reconhecimento.

A primeira distinção conceitual recai sobre o entendimento de visibilidade. Trata-se de experiência compreendida de dois modos diferentes por Honneth: [1] uma pessoa é visível porque se encontra no campo de visão daquele que a vê e, por esta razão, pressupõe- se que este está apto, do ponto de vista fisiológico, a enxergar aquilo que está em seu campo visual; [2] uma pessoa é visível porque é socialmente valorada, no sentido de ser considerada por outrem como digna de receber atenção. Essa distinção leva ao entendimento de que há situações em que uma pessoa é invisível mesmo estando disponível no campo visual de outrem. Honneth (ibidem, p. 166) denomina essa situação como “ver através”, caracterizada pela demonstração de desprezo em relação a alguém presente e disponível para a percepção, mas tratado como se não estivesse fisicamente no mesmo espaço do percipiente. A configuração dessa experiência indica que a condição de invisibilidade é assentada em um comportamento performativo daquele que expressa o desprezo pelo outro (ibidem, p. 166-167). Neste caso, não importa, para Honneth, se a expressão do desprezo é

fomentada por situações fortuitas – quando, distraidamente, alguém deixa de cumprimentar outro conhecido – ou se é motivada pela atribuição a alguém de uma condição de insignificância – como o sujeito que assume a posição de superioridade e ignora a presença de uma pessoa que lhe presta serviços de limpeza e arrumação, por exemplo. Trata-se, sempre, segundo Honneth, de uma experiência de invisibilidade que significa um estado de coisas social e não uma dificuldade cognitiva daquele que ocupa a posição de percipiente.

Com base na diferenciação conceitual entre visibilidade e invisibilidade, Honneth (2011) caminha para a distinção entre conhecimento e reconhecimento. Para o autor, o ato de conhecer equivale à experiência de alguém ser visível para outrem, no sentido de ser identificado como presente no campo visual e reconhecível em relação às suas características para o contexto social. É o caso, por exemplo, do sujeito que distingue outrem por suas características físicas e sabe, por processo cognitivo, que a pessoa percebida é um colega de trabalho e não seu irmão. A “visibilidade ótica”, como denomina Honneth (ibidem, p. 168), implica uma forma elementar de identificação individual e equivale ao ato de conhecer aquilo ou aquele que se vê. A essa experiência cognitiva correspondem reações automáticas como a gesticulação ou fala dirigida a outrem a quem se conhece, similar ao ato de cumprimentar mecanicamente alguém.

Segundo Honneth (ibidem, p. 171-172), conhecer é distinto de reconhecer. Esta última experiência requer uma atuação simbolicamente identificada como expressão de aceitação e acolhimento de outrem em sua demanda por atenção. Para exemplificar seu entendimento, o autor recorre aos estudos de Stern (1978)6 sobre as características da interação entre mãe e filho na socialização primária, quando a regulação da afetividade entre

6 Em contexto de pesquisa empírica, Stern (1978) analisa as características das interações entre as mães e seus

filhos na socialização primária (considerada por ele como aquela processada nos primeiros seis meses de vida), e alerta para a importância do modo como o adulto se expressa, exagerando na gesticulação e na entonação da voz, quando se dirige à criança. Stern (ibidem, p. 28-29) encontrou formas performáticas de interação que, segundo ele, significam disposição ou convite à interação, manutenção e modulação de uma interação já em curso, finalização da interação e rejeição à interação. Nessas modalidades interativas, a função das expressões faciais e vocais é crucial para a identificação, pelos interagentes, das intenções ou disposições interativas de uma e outra parte. Nessas formas de interação, o olhar mútuo e persistente acompanhado da fala significa uma disposição firme e um convite à interação (ibidem, p. 37-39). Nessa circunstância, a face, em seu aparecimento e performance, cumpre papel fundamental nas formas de relação. A face atua como saliência do corpo que aparece e se apresenta ao outro na forma de demanda, como será visto na Subseção 3.1.3, neste capítulo, com base na filosofia de Lévinas (1988a, 1988b, 2010). Essa significação da face, segundo Stern (ibidem, p. 42-43), é válida tanto para a experiência interativa da criança com o adulto quanto para a interação entre adultos. A face é o que pode ameaçar o espaço interpessoal, definido como espécie de “bolha psicológica que envolve o corpo” (ibidem, p. 42). Na interação, a face é o que se põe em direção a esse espaço interpessoal, é a protuberância do corpo que se aproxima desse espaço, em determinadas situações, para adentrá-lo e/ou atravessá-lo. Essas possibilidades de significação fundamental da expressividade da face influenciam a compreensão do reconhecimento como experiência plástica e simbolicamente modulada.

os interagentes processa-se na expressão gestual mútua (HONNETH, 2011, p. 171). Honneth explica que a expressividade pré-linguística na fase da relação primária constrói regras de reciprocidade gestual que matizam a significação dos gestos, das expressões faciais e linguísticas7, como sendo sinais de aceitação, interesse e atenção da mãe para com o filho (ibidem, p. 171). Nessa experiência, a criança reage em resposta ao estímulo da mãe, desenvolvendo as primeiras formas de comportamento social.

Honneth não se refere, em seu estudo, ao trato prático dispensado pela mãe à criança, conforme conceituado por Lorenzer (2001), como experiência pré-linguística na qual o reconhecimento também se processaria. Se o reconhecimento, para se caracterizar, depende de expressões gestuais, posturais e linguísticas que sinalizem aceitação e admissão de outrem como alguém explicitamente valorado, depreende-se disso que o trato prático não se constituiria como experiência de reconhecimento quando configurado como tarefa ou procedimento automático do corpo.8 Significa dizer que o reconhecimento é compreendido como experiência dependente da performance gestual e linguística dirigida ao sujeito, e que deve ser enfática para caracterizar-se como expressão valorativa.

Conforme Honneth (2011, p. 171-172), no conjunto das manifestações de afeto na socialização primária, aquelas que significam a expressão do amor, do interesse e da simpatia, como o sorriso, a disposição corporal ao acolhimento, à ajuda e à aprovação de outrem, desempenham papel fundamental na performance do reconhecimento. A esse rol de atos expressivos deve ser acrescentada a linguagem, à qual o autor, na construção de sua epistemologia do reconhecimento, não se refere como objeto de análise. A linguagem comparece subliminarmente no trabalho em que interpreta a luta por reconhecimento como conflito moral, por meio do qual o sujeito adulto expressa demanda pela aceitação, por parte de outrem, da legitimidade de seus direitos (HONNETH, 2003). Assim, se na socialização primária a significação da linguagem circunscreve-se às condições da criança para atribuir sentido aos pronunciamentos vocais da mãe e de outras pessoas – não compreendidos racionalmente por ela pelo fato de ainda não ter sido introduzida no mundo da linguagem –,

7 Considera-se que a criança associa a expressividade gestual (do corpo) e facial com a tonalidade da voz da

mãe, conforme analisa Stern (1978). Esse conjunto de manifestações deve perfazer uma totalidade coerente sobre a qual a criança impregna o sentido de sua aceitação e acolhimento pelo outro.

8 Por outra perspectiva, há possibilidade de as experiências constituintes do trato prático modularem o

reconhecimento, facilitando ou dificultando sua concretização, na medida em que podem ser transformadas em “clichês” mentais, qualificados por Lorenzer (2001, p. 117) como espécie de formas cristalizadas de interação, pré-linguísticas e inconscientes, que ficam à disposição do sujeito para serem liberadas, a depender das tensões presentes nas relações intersubjetivas.

na fase adulta o reconhecimento processa-se não apenas ancorado no desempenho gestual, mas também na expressão linguística.

A polaridade entre invisibilidade social e reconhecimento envolve, portanto, uma série de propriedades comunicativas, linguísticas ou não, e pode circunscrever a existência do sujeito. Um exemplo nesse sentido, extraído da literatura, está no personagem Lionel Asbo, construído pelo escritor britânico Martin Amis (2014) como um jovem arruaceiro e marginal, que depois de várias passagens pela prisão, ganha £ 140 milhões na loteria e vê sua vida transformar-se radicalmente, em relação ao seu padrão econômico e social, mas não quanto à índole e à sua necessidade de reconhecimento. Lionel Asbo é o último dos sete filhos de Grace Pepperdine, cinco deles de pais diferentes. A história se passa com o personagem levando a vida como um delinquente, às voltas com brigas e comercialização de mercadorias roubadas. Mesmo com essa “natureza” destrutiva – porque, segundo ele e a própria mãe dizem, essa predisposição para a violência se manifestava desde a infância – Lionel cria o sobrinho, Desmond Pepperdine, filho de sua irmã Cilla, que faleceu quando o menino tinha 12 anos. Para Desmond, Lionel é como um pai, sugerindo que, muito embora o tio fosse agressivo, ruidoso, briguento e um indivíduo do mundo do crime, algo nele subsistia na forma de afeto profundo, canalizado para a relação com o sobrinho, como se vê na passagem abaixo, na qual Desmond revive, em memória, os sentimentos que mantêm a ligação entre ele e o tio:

Durante a noitada com Lionel, Des se viu indefesamente impregnado por lembranças somáticas. Seu corpo não parava de se lembrar. A coroa sobre sua cabeça e os densos cachos de seu cabelo se lembravam de como era, ele um menino de cinco anos, sentir o peso daquela palma da mão toda vez que seu tio de onze anos o preparava para atravessar a rua. Toda a sua estrutura corporal se lembrava de como era, mais tarde, caminhar pelas sibilantes ruas de Diston com Lionel ao lado, a garantia de sua proximidade, como uma carapaça. E quando se despediram no Bela Adormecida e se abraçaram, o corpo de Des se lembrou de si mesmo com doze, treze, catorze anos, na época do torpor e da ausência de Cilla: mais ou menos uma vez por mês, Lionel olhava para ele com um carinho fora do comum e havia uma paciente elevação do queixo na ponta de seu dedo e ele dizia:

ela foi embora, Desi, e não vai voltar. Ou: tá legal, garoto. Eu sei. Mas você não pode ficar parado aí a vida toda até mofar; e lhe dava um abraço (mas não muito

– nunca muito) e murmurava: pronto, pronto, filho. Pronto, pronto... Portanto, no pátio, quando Lionel disse Tá legal, filho, ele sentiu os braços grandes e o tronco açambarcador, Des (quando pensou sobre aquilo, deitado ao lado de Dawn, de olhos abertos) descobriu que o amor irrompia dentro dele. (AMIS, 2014, p. 269, grifos do autor).

Esses sentimentos, no entanto, foram insuficientes para fazer Lionel beneficiar financeiramente Desmond quando ganhou na loteria. Este fato extraordinário ocorreu

quando Lionel estava preso e pediu ao sobrinho que preenchesse o bilhete, depois premiado. Desmond, de alguma forma, esperava, embora não admitisse isso, que o tio desse a ele uma parte do prêmio como recompensa.

A vida de Lionel mudou em termos financeiros e sociais; ele transformou-se em empresário, passou a morar em um hotel de luxo, a consumir produtos caros e extravagantes e a se relacionar com jornalistas e celebridades. Mas “pertencer” ao círculo daqueles que são percebidos socialmente não resolveu seu sentimento de ser alguém invisível. Ele sabia que era conhecido, no sentido de ser identificado como Lionel Asbo, figura mediaticamente projetada, mas isso ocorria apenas nos contextos mediados pelo poder do dinheiro. “Com roupas informais em Diston [nome da cidade em que nasceu e viveu], Lionel conservaria anonimato genérico: seria um homem invisível” (AMIS, 2014, p. 240). Essa invisibilidade também ficava evidente nos momentos em que tinha consciência de que as pessoas que o bajulavam, inclusive jornalistas, consideravam-no, na verdade, alguém grotesco e intelectualmente inferior.

A visibilidade que parecia constituir-se com a projeção mediática de Lionel Asbo, significando pretensamente reconhecimento social, apenas disfarçava a condição miserável do personagem, que se manteve inalterada mesmo com a mudança de sua posição na sociedade. Dessa situação, depreende-se que a visibilidade social não resulta, necessariamente, em reconhecimento. Este depende, pelo menos quanto ao exemplo em análise, da aceitação apriorística e incondicional do outro, sem mediação de artifícios como o dinheiro, a fama ou a espetaculosidade mediática. A visibilidade social, conforme vivenciada pelo personagem Lionel Asbo, é frágil, precária e transitória, confundida com existência mediática. Para ser efetiva, a visibilidade social, quando equiparada ao reconhecimento, precisa estar fundada na sinceridade, tal como o termo é definido por Trilling – “a congruência entre a declaração [do valor de alguém] e o sentimento real” (2014, p. 12) – e utilizado por Taylor (2000, p. 244-245) para caracterizar o reconhecimento.9 Resta saber, nessa definição, o que é, de fato, um sentimento real, tendo em conta a vigência do inconsciente na sociabilidade. Em todo caso, está-se considerando que deve haver conformidade entre o que se expressa, linguística e gestualmente, com o que se sente.

A sinceridade é elemento-chave tanto no modo como Taylor (2000) compreende o reconhecimento quanto na epistemologia desenvolvida por Honneth (2011), quando este

qualifica o reconhecimento como experiência intersubjetiva constituída com uma das partes expressando sua abertura, no sentido de estar disponível para ouvir, atento e livre à aceitação e à admissão do outro como aprioristicamente válido (essa expressividade deve ser coerente com o tipo de compromisso anunciado pelo sujeito para a alteridade). Trata-se de um conjunto expressivo voltado à oferta de condições que assegurem o bem-estar da alteridade (HONNETH, 2011, p. 173) na forma de sua livre expressão, a exemplo do que ocorre na socialização primária com a mãe dedicada a garantir não apenas a satisfação das necessidades orgânicas da criança, mas também as condições favoráveis ao sentimento de segurança, tranquilidade e conforto do corpo-psique.

Essa configuração do reconhecimento pode ser associada à conceituação de Derrida (2003) sobre hospitalidade absoluta, para designar a experiência do estrangeiro recebido e acolhido por outrem em sua casa, sem que tenha de se identificar, dizendo seu nome, sua origem e sua intenção. Isso se passa, por exemplo, entre Henriqueta e Alice, personagens do romance Dombey & Filho, de Charles Dickens (1967). Henriqueta, sem identificar a fisionomia de Alice, pelo fato de esta ter se afastado por muito tempo da cidade, ter envelhecido e se transformado em alguém irreconhecível, até mesmo para sua mãe, recebe-a como se ela fosse uma pessoa anônima que parou no portão de sua casa, sem saber para onde ir, tentando proteger-se da chuva. Henriqueta observa a mulher através da janela de sua casa e resolve chamá-la para se abrigar na varanda. Quando Alice aceita o convite e adentra o local, tira os sapatos e Henriqueta nota que seus pés estão feridos e sagrando. Imediatamente, sente forte comoção e convida Alice a entrar na casa, para tratar de seus ferimentos. A atitude de Henriqueta, de curvar-se em direção aos pés da mulher que lhe parecia desconhecida, para dispensar cuidados a eles, provocou em Alice uma reação de surpresa e irritação porque ela não se considerava digna daquele tipo de zelo.

O comportamento das duas personagens de Charles Dickens correlaciona-se à qualificação da hospitalidade absoluta como atitude de aceitação e acolhimento incondicionais e apriorísticos do estrangeiro, que, em essência, difere da hospitalidade de direito, quando o estrangeiro precisa dizer seu nome e a que veio para ser aceito e acolhido por outrem em sua casa. Derrida explica que nesse último caso a hospitalidade perde sua incondicionalidade e situa-se no campo institucional e da justiça. Isto é, a hospitalidade

passa a ser, nestas condições, uma experiência mediada pela razão, pela justificação e pela produção de provas que validem a legitimidade de alguém (DERRIDA, 2003, p. 25).10

A expressividade do sujeito no contexto do reconhecimento, segundo Honneth (2011, p. 175), institui um compromisso entre as partes porque quem se manifesta para outrem vê-se obrigado a atuar coerentemente em relação ao modo como se expressou gestual e linguisticamente; há, portanto, a contração de responsabilidade com o outro11 quando para ele se dirigem sinais de benevolência. Por esta razão, no reconhecimento as condutas expressivas simbolizam um comportamento legitimamente esperado pela pessoa à qual as ações se dirigem. O reconhecimento confirma-se, assim, como experiência de natureza moral na teoria de Honneth.

Para fundamentar seu ponto de vista, o autor recorre ao conceito de respeito em Kant (1974, p. 209) – correspondente à “representação de um valor que causa dano ao [...] amor- próprio” –, para dizer que o sujeito é motivado a renunciar ao valor das ações que decorrem de impulsos egocêntricos, para estar em condições de reconhecer alguém como fonte de pretensões legítimas. Essa seria a força restritiva atuada pelo sujeito na prática do respeito, correspondente ao que Kant afirma ser “a representação de um valor que causa dano [...] ao amor próprio”, conforme visto acima. Dessa análise resulta a compreensão do reconhecimento como experiência na qual o sujeito que reconhece resta “descentrado” (HONNETH, 2011, p. 176) na relação com outrem ao abdicar da posição egocêntrica e atribuir valor a ele, reconhecendo-o como fonte de pretensões legítimas. Nisso se constitui a natureza moral do reconhecimento – o sujeito atribui ao outro uma autoridade moral e em relação a ele vê-se obrigado a omitir atitudes e julgamentos seus que caracterizam uma posição relacional egocêntrica (ibidem). Como afirma Jankélévitch (2008, p. 188-189), ao analisar paradoxos da moral, a dinâmica entre abnegação e ambição é um problema que implica antagonismo entre o amor e o ser – quanto mais há de um, menos há do outro.

A “índole comum moral de todas as formas de reconhecimento”, segundo Honneth (2011, p. 176, tradução nossa12), é o parâmetro que permite diferenciar as manifestações de reconhecimento das expressões simplesmente mecânicas e automáticas entre sujeitos. As formas expressivas, no entendimento do autor, manifestam disposições específicas do sujeito em relação a outrem, que podem estar ou não matizadas por natureza moral. Isto é,

10 Como será visto na Subseção 3.1.3.

11 O reconhecimento como responsabilidade para com o outro, conforme o define Lévinas (1988a, 1988b,

2010), será analisado na Subseção 3.1.3, neste Capítulo.

deve ser perceptível a diferença entre o gesto automático de cumprimentar alguém e o olhar benevolente dirigido pelo sujeito ao outro, expressando valor atribuído àquele ao qual o olhar se destina como alguém digno de amor, respeito ou solidariedade (HONNETH, 2011, p. 176-177). No ato expressivo do reconhecimento está assim pressuposto que o outro é assumido como ser inteligível, constituído pela decisão do sujeito de abdicar da posição egocêntrica “para fazer justiça ao valor da outra pessoa” (ibidem, p. 177, tradução nossa13).

Por isso, no entendimento de Honneth, reconhecer é diferente de conhecer. Em ambas as experiências há o ato perceptivo, mas o reconhecimento é modulado por natureza valorativa e moral. Isto é, o reconhecimento processa-se na experiência perceptiva, mas não se reduz a ela como equivalente ao ato de conhecer. O reconhecer está impregnado de disposição moral. Para reconfirmar esse entendimento, Honneth recorre, mais uma vez, ao raciocínio sobre as relações entre socialização primária e vida adulta, afirmando que o sujeito é capaz de distinguir as experiências de ser conhecido e de ser reconhecido porque guarda da primeira fase de socialização referências sobre o que é ser valorado por alguém (ibidem, p. 180). No percurso da infância para a fase adulta, o sujeito vivencia a diferenciação entre ser percebido por outrem como efeito automático e mecânico do ato de ser visto, assim como de ser valorado como alguém apreciado e merecedor do amor, do respeito e da solidariedade. As referências para essa distinção, como dito antes, estão fundadas no aprendizado transcorrido na fase inicial da infância, quando a criança vivencia uma espécie de jogo de reciprocidade com a mãe, por meio da apresentação de demandas, de