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RÉCE PTE URS FM

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Eu nunca apresentei dificuldades para desancorar o navio de minha imaginação, bastava que tivesse uma televisão ou uma pessoa me contando histórias. Eu, enquanto receptora, tinha, ou talvez ainda tenha, o hábito de ser audiente, em razão de ouvir histórias desde a infância. As aventuras se instauravam quando eu me transformava em uma captadora dessas histórias, e dar ouvidos às pessoas contadoras sempre fez com que eu me enxergasse fora do cotidiano. Sentir cheiros, sabores, abraços, me estimulavam a fertilizar a imaginação. Entretanto, minha fome era saciada quando eu ouvia as histórias reais, ou como gosto de intitular, os mitos do cotidiano. Foi durante a realização desta trama que comecei a fabular que a criação de um mito, muitas vezes, parte de algo que já fora vivido em algum momento. Aqueles mitos do cotidiano acordavam partes criativas de minha imaginação, me fazendo girar a roda do imaginário. Mesmo caminhando em solos e tocando nos temas dos mitos, devo esclarecer que tais ritos de Bia Mulato são reais, visto que boa parte das pessoas que cruzaram os passos com ela falavam e ainda falam as mesmas coisas; que ela sempre foi uma menina/mulher à frente de seu tempo.

Tratando do significado acerca dos Mitos, a pesquisadora brasileira Danielle Perin Rocha Pitta, em sua obra, Iniciação à Teoria do Imaginário de Gilbert Durand (2017), nos afirma que:

O mito é um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e schèmes que tende a se compor em relato, ou seja, que se apresenta em forma de histórias. Por este motivo, ele já apresenta um início de racionalização. O mito é um relato fundante da cultura: ele vai estabelecer relações entre as diversas partes do universo, entre os homens (e as mulheres) e o universo, entre os homens entre si. Por sua construção, próxima da composição musical que comporta refrãos, competições, o mito tem sempre uma dimensão pedagógica. É ainda função do mito fornecer modelos de comportamento, ou seja, permitir a construção individual e coletiva da identidade. É assim que uma filha de Maria e uma filha de Iemanjá não terão nem a mesma visão de mundo nem o mesmo comportamento. As duas, entretanto, participarão da imagem arquetípica da Grande Mãe (p. 23).

Sempre me atrai por histórias que poucas pessoas têm conhecimento, comumente, as que não são transmitidas em rádio, televisão ou saem em jornais, por ser exatamente as que mais me faz tecer relações acerca do exercício do imaginário. Dentre essas histórias, a que me

dá enorme prazer, a ponto de ouvir dez vezes ao dia, são as que Bia Mulato me conta(va). Relatou-me ela durante a realização dessa pesquisa que sempre resistiu em meio a tantas tempestades emotivas. Infelizmente foi muito reprimida por ser mulher, e as atitudes de repressão sempre partiram dos homens que a rodeavam: pai, irmãos, tios.

Talvez seja uma característica da virilidade masculina se enxergar superiores a nós mulheres, mas por qual razão? Deve ser pelo fato de que essa particularidade pertencente a alguns homens sempre foi muito valorizada no mundo. Constato que a opressão vinda do sexo manipulador é presente em nossa sociedade, todavia, ao perceber que as guerreiras encontrariam formas outras, que não o uso da violência física para resistir – utilizada apenas em último caso –, começaram eles a fazer uso, devastando assim inúmeras vidas femininas. As criações de motins sempre foram vistas e valorizadas por ser uma prerrogativa masculina, entretanto, os Motins Femininos têm-se evidenciado em prol de um coletivo de mulheres, talvez em favor das ditas minorias. Desse modo, tornou-se algo plural e não singular, uma vez que boa parte desses motins agrega todos os tipos de mulheres existentes, como foram os formados por Bia Mulato ao longo de sua vida.

Quando moça, Bia passou por experiências similares às mulheres consideradas Bruxas; ela foi queimada viva em praça pública, mesmo que metaforicamente falando. Ao longo de sua vida foi imensamente desrespeitada, violentada, e logo veio à expulsão para a selva interior; foi alijada pela própria família. Ainda na juventude, acreditava que sua beleza era a própria vida, e que isso era o significado e causa de tantas conquistas, pois tudo o que expressava diante da sociedade, era em função de tal. E boa parte das coisas, de alguma maneira, se conectava a sua beleza, e ela não havia se dado conta de que aquilo era algo efêmero, que logo se desgasta.

Naquele mesmo período teve todo o seu corpo marcado por inúmeras digitais, sendo vista como um objeto sexual, e muitas foram às pessoas que contribuíram para o que hoje ela é; um ser solitário. Os resultados de todos os toques encontram-se dentro dela, e tudo aquilo que foi feito por Bia, sempre foi interpretado, pelos verdadeiros causadores, como atitudes desgovernadas, dignas de pena. Mas a realidade é que ela nunca teve muitas escolhas e, frente a isso, fora posta em becos estreitos e sem saída, rapidamente se sentindo um bicho acuado. Apesar de tanta violência sofrida, a cabocla nordestina, protagonista desse estudo, nunca se permitiu ser consumida pela certeza de infelicidade que eles tentavam lhe impor. Muito pelo contrário, a cada tentativa de silenciamento, ela buscava novas formas para sobressair, mesmo que toda machucada. Ela se encantou por luzes, palcos e microfones, cheiros, toques, fardas e, principalmente, por dinheiro, mas nunca em um estado ambicioso, e sim, na tentativa de

salvar vidas, muitas vidas.

Imagem 14 – Bia Mulato, foto 3x4, fase em que trabalhava arduamente como Artista Noturna em Natal, Rio Grande do Norte (RN).

Arquivo pessoal da artista-pesquisadora.

Repetindo erros já tão desgastados pelo uso levou Bia a se pergunta:

– Onde foi que a luz se apagou? Onde foi que esse caminho tão áspero e tão amargo se tornou o único no qual sei caminhar?

Hoje idosa, sábia, dialoga com aquelas mulheres que permaneceram dentro dela, pedindo ajuda, entretanto, nenhuma delas sabem como lhe auxiliar. Reconhece-se como uma ex-instigadora dos instintos selvagens das mulheres de sua época, na qual motivava à independência, da psicológica a física. Era o remédio antidepressivo das moças, chá de alho com limão e gengibre que contribuía para o fortalecimento do sistema imunológico. De modo geral, continua sendo vista, transversalmente, como a cabocla profana que, eventualmente, cultuam sua presença em rituais sagrados voltados à coragem feminina em meu seio familiar.

Como uma grande árvore que quando ameaçada pela doença, golpeada pela intempérie, agredida pela fúria do homem, se recusa a morrer e,

milagrosamente e com enorme dose de paciência e persistência, continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para manter o próprio espírito vital de forma a poder gerar novos frutos, aos quais confiará esta herança inestimável (ESTES, 2007b, 1ª contracapa).

Bia e as/os Mulatos nos presentearam com enorme regozijo, detalhadamente, seus ritos de passagem e cerimônias de crise de vida, obedecendo a uma cronologia, onde são apresentados os momentos marcantes de sua infância a tenra idade, na qual apontamos para um passado não tão arcaico e que foi muito bem vivido. Afinal, esse estudo trata-se de um enorme ato de coragem de uma mulher por desencarcerar, desde o início de sua vida, seu animal mais rude em busca de seu lugar no mundo, sendo muitas vezes movida pelos desejos em pleno sertão nordestino.

Por meio desses escritos podemos nos aproximar dos impulsos de liberdade de Bia e pensar em tantas outras mulheres, pelo fato de que ser livre sempre foi uma batalha paulatina que nós desejamos conquistar. Estamos em busca de direitos equânimes, desde aquelas que estão residindo no Sul da Europa, no Oeste da Ásia ou no Sertão do Nordeste brasileiro. Tal batalha é diária e ―o fato é que nós cometemos um erro ao fazer nossas escolhas e somos tidas como responsáveis por uma falência que é, na verdade, coletiva e mista‖ (DESPENTES, 2016, p. 19), visto que só cometemos tais ―erros‖ por sermos, muitas das vezes, forçadas. E é dessa forma que constato que há uma cadeia que nos reprime e obriga a gente a tomar atitudes um tanto interpretadas como impróprias.

A leitora, bem como o leitor, encontrará neste segundo capítulo, pensamentos traduzidos em palavras da poetisa Estés (1994a); (2007b), e da Despentes (2016), mulher feminista, escritora francesa. Posso dizer que a aparição de ambas as autoras mulheres vêm para me ajudar a erguer pensamentos sobre os ritos de Bia Mulato. E para darmos início à trama, Despentes nos dá indícios de como deve ser nosso comportamento frente aos homens, muito embora sejamos vistas como erradas e/ou desvairadas, afirmando-nos ela:

É verdade que é preciso lutar para ter sucesso na política; é necessário estar pronta para sacrificar sua feminilidade, porque é necessário estar pronta para combater, triunfar e demonstrar poder. É preciso esquecer a doçura, esquecer de ser agradável, serviçal, é preciso se permitir dominar o outro publicamente. Não precisar do consentimento alheio, exercer o poder frontalmente, sem melindres nem desculpas, porque serão raros os rivais que te facilitarão por tê-los vencidos (2016, p. 20).

Sertão potiguar, berço nascente dos mistérios que envolvem esse conto, foi o lugar onde Bia brotou e se adaptou à seca. Ela gestou e pariu a independência feminina não apenas

em toda minha família, mas também no povoado a que pertenceu, entretanto, foi amordaçada, rejeitada, humilhada e banida por homens e mulheres conservadores da época. Resistir no sertão nunca foi uma tarefa fácil, ainda mais sendo uma mulher destemida, e Bia acredita que ainda não é. Sem intenção, já demos início a nossa jornada rumo ao século XX.

2. 2. NINGUÉM DOMINA UM SER QUE NASCEU PRA SER LIVRE: A GÊNESE DE BIA OU

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