Na década de 1940, com base no argumento de que o turismo seria uma das
formas de desenvolver e enriquecer as regiões africanas com grande potencial faunístico,
criaram-se os chamados safáris turísticos (RODARY, 1997, p. 33).
Porém, em nenhum
momento durante a instalação destes empreendimentos foram levados em conta os aspectos
culturais intrínsecos às populações locais, de forma tal que aos africanos, marginalizados
socialmente diante dos ricos turistas estrangeiros, era negado acesso às áreas protegidas nas
quais, contraditoriamente, realizavam-se os safáris (RODARY, 1997, p. 33, 35). É assim
que, ainda hoje, em determinadas regiões africanas, matam-se negros quando eles são
56 “No contentos con destruir la Europa salvaje, nuestros antepasados viajaron a lugares extraños para matar aún más fauna exótica. Las armas deportivas pronto comenzaran a disparar contra las grandes piezas en África, en la India, en América del Sur y en todos aquellos lugares donde las desprevenidas bestias se quedaran quietas el suficiente tiempo como para ser un blanco fácil. Con armas cada vez más refinadas, la competencia era sólo para una de las partes, y los muros de las residencias europeas pronto estuvieron cubiertos con las cabezas embalsamadas de aquellos animales”.
são provavelmente caçadores sem permissão de caça (RODARY, 1997, p. 34).
Estas idéias racistas encontraram respaldo no discurso da ecologia científica que,
cabe ressaltar, sobrevive nos dias atuais e consiste em difundir a crença na superioridade
científica ocidental. A onipresença de especialistas, principalmente de biólogos
estrangeiros, na organização das políticas conservacionistas serve apenas para confirmar a
opção por um modo de atuação estritamente positivista que, em nenhum momento, aceitou
qualquer tipo de interação com os saberes locais e com as questões sociais (RODARY,
1997, p. 34). Esta é a razão pela qual
associam-se [...] as degradações do meio ambiente à falta de instrução dos habitantes. A caça de subsistência, por exemplo, é gradualmente assimilada à uma atividade de selvagens se ela não é controlada por profissionais. As estruturas de decisão locais atuais que ainda sobrevivem, onde os chefes costumeiros têm um papel preponderante, são igualmente vistas como um freio à conservação se elas não são democratizadas57 (RODARY, 1997, p. 42, tradução livre do autor).
Não é surpresa, portanto, o fato de que a criação dos parques africanos e,
posteriormente, a criação dos safáris em nada contribuíram para a melhora nas condições de
vida da população local (RODARY, 1997, p. 33). Aliás, mesmo hodiernamente, os lucros
com esta forma de turismo estão abaixo dos investimentos necessários para a gestão dos
parques, com raras exceções no Quênia e na África do Sul (RODARY, 1997, p. 35).
Ao contrário do que se pretende com as prescrições da Resolução Conf. 8.3,
portanto, a experiência dos países da África Subsaariana permite afirmar que as receitas
procedentes da utilização comercial da fauna são insuficientes na geração de fundos cujo
suposto destino seria a gestão da vida silvestre.
Diante desta realidade, fica evidente que, ao elaborar o texto da Resolução Conf.
8.3, em nenhum momento foram considerados os interesses dos países subdesenvolvidos
membros da CITES que, dificilmente, obteriam algum tipo de benefício com a exploração
comercial de suas riquezas naturais. O reconhecimento de que “o intercâmbio comercial
57 “On rattache ainsi les dégradations faites à l’environnement au manque d’instruction des habitants. La chasse de subsistance, par exemple, est graduellement assimilée à une activité de sauvages si elle n’est pas encadrée par les professionnels. Les structures de décision locales actuelles, où les chefs coutumiers gardent un rôle prépondérant, sont également vues comme un frein à la conservation si elles ne sont pas démocratisées”.
população local”, explícito na Resolução acima referida, é dissonante com os resultados das
políticas conservacionistas que se pôde observar na África e é plausível afirmar que isto
não seja diferente em outros continentes.
Foi dito acima que a criação dos safáris de caça iniciou-se em 1940. Para provar
que não se trata de valer-se de um exemplo de utilização comercial da fauna que não se
aplicaria na atualidade, basta uma consulta à Internet para ter acesso à venda de pacotes
turísticos cujo atrativo são os safáris de caça na Namíbia, por exemplo:
De 1o de fevereiro a 30 de novembro, por milhares de hectares, você
poderá observar, seguir e caçar 19 espécies de animais. Sua forma física, sua perseverança e sua habilidade no tiro permitirão, com um pouco de sorte, atingir um koudou, um oryx, um bubale ou um springbock excepcionais, premiados pela NAPHA [Namibia Professional Hunting Association] (medalhas de bronze, prata ou ouro, de acordo com o tamanho da caça). Mas, em todo caso, você será posto diante destes grandes animais. Concluir é com você.
[...]
Se você deseja que nós nos encarreguemos de seu vôo, você viajará de Paris à Windhoek com uma escala em Frankfurt com a companhia aérea Air Namibia. Você deve imperativamente estar munido de sua carteira européia de armas de fogo. Nenhum visto é exigido para os franceses. Seu passaporte deve ser válido por no mínimo 6 meses depois da data de entrada na Namíbia.
[...]
Uma vez em Windhoek, você se apresentará munido de seu passaporte, do formulário de chegada e da permissão de importação de armas (nós podemos fornecer e preencher estes dois documentos). Você será recebido no aeroporto por um membro da organização que o conduzirá até a concessão (hunting farm)58 (SAFARI-CHASSE, 2007, tradução
livre do autor).
58 “Du 1er février au 30 novembre, sur plusieurs dizaines de milliers d'hectares, vous pouvez observer, pister,
chasser, 19 espèces de gibiers. Votre forme physique, votre persévérance, votre habilité au tir vous permettront, avec un peu de chance, de tirer un koudou, un oryx, un bubale, ou un springbock exceptionnels, médaillables par la NAPHA* (médailles de bronze, argent ou or, suivant la taille du trophée). Mais dans tous les cas, vous serez mis en présence de ces grands gibiers. Il vous appartiendra de conclure. [...] Si vous souhaitez que nous nous chargions de votre vol, vous voyagerez de Paris à Windhoek avec une escale à Francfort sur la compagnie aérienne Air Namibia. Vous devrez impérativement être muni de votre carte européenne d'armes à feu. Aucun visa n'est exigé pour les ressortissants français. Votre passeport devra être valide 6 mois minimum après la date d'entrée en Namibie. [...] Une fois arrivé à Windhoek, vous vous présenterez muni de votre passeport, du formulaire d'arrivée et du permis d'importation d'armes (nous pouvons vous fournir et remplir pour vous ces deux dernières pièces). Vous serez accueilli à l'aéroport par un membre de l'organisation qui vous conduira sur la concession (hunting farm) ”.