2.3 Le schéma d'une base de données relationnelle
2.3.2 Règles de passage pour les ensembles de liens
A descrição cronológica e detalhada das sessões pode ser vista no Anexo I (DB). O objetivo deste ponto 5.1.1. é proporcionar um relato mais resumido e já incorporando elementos reflexivos.
A minha apresentação às crianças da Sala Verde foi feita a tocar saxofone, um instrumento que provavelmente era desconhecido para elas.
“(…) ficaram todos muito atentos e impressionados com o som do saxofone, pois provavelmente nunca nenhum deles tinha ouvido um instrumento assim tão perto (…)” (DB, 14 de janeiro).
Na primeira sessão decidi tocar músicas tradicionais portuguesas, conhecidas por todos, como As Pombinhas da Catrina e O Balão do João. O objetivo era que as crianças percebessem que tinham de imitar aquilo que eu tocava, cantando simultaneamente (sem letra, numa primeira fase). Desde esse momento, percebi que o canto era uma competência difícil de adquirir
10 O Opus Tutti foi um projeto da Companhia de Música Teatral, dirigido a crianças da primeira infância, que procurou desenvolver “aspetos sensoriais, motores, emocionais, afetivos, intelectuais, cognitivos e espirituais”. Teve como objetivos criar modelos e estratégias de ensino na infância, assim como dar oportunidade de participar no ambiente artístico, interagindo e partilhando conhecimentos com outros indivíduos. Este projeto deu a origem a várias publicações, entre as quais o Manual Para a Construção de Jardins Interiores. Toda a informação foi retirada do sítio da internet oficial da Companhia de Música Teatral:
numa primeira instância, por isso introduzi outro tipo de atividades, para que a voz cantada fosse sendo adquirida mais progressivamente. Posto isto, criei um momento rítmico de percussão corporal e sons vocais ao qual chamei Os Sons
da Chuva.
Os Sons da Chuva foi uma música criada pela improvisação de
percussão corporal e sons vocais que faziam lembrar a chuva. Esta música foi utilizada no início de quase todas as sessões, como forma de aquecimento (através da percussão corporal), sendo que de sessão para sessão introduzi novos sons. Para além disso, serviu muitas vezes para acalmar a agitação das crianças, criando texturas sonoras suaves com os sons do corpo e sons vocais sussurrados. Com esta improvisação, notei que ao longo das sessões, as crianças desenvolveram rapidez na imitação e resposta, sensibilidade de pulsação rítmica e puderam explorar novos sons.
Como líder e participante do projeto queria envolver, ao máximo, as crianças nesta experiência, o que se mostrou um desafio. Por conseguinte, quando lhes apresentei o saxofone (instrumento que não sabiam como se chamava), pedi que me dissessem que outra coisa lhes fazia lembrar. No meio de tantas respostas, quase todas as crianças concordaram que o formato do instrumento se parecia com um pato. E desta forma criei a Música do Pato.
A Música do Pato é um canto rítmico em métrica binária, cujo as sílabas da letra estão associadas ao ritmo (sendo que este nasceu através da letra) (figura 2).
Posteriormente foi inventada uma coreografia através da improvisação corporal de todos os participantes, de modo a que decorassem a letra mais rapidamente e ganhassem liberdade na movimentação corporal. Esta música foi explorada em várias sessões, tendo uma secção de improvisação rítmica em que todas as crianças podiam criar diferentes ritmos enquanto imitávamos a forma de andar de um pato. Penso que a Música do Pato fez com que as crianças se sentissem mais integradas no projeto, não só por ter sido feita a pensar nelas, mas também por lhes dar a liberdade de descobrir novos ritmos, dando-lhes o protagonismo de liderança do grupo quando iniciavam um novo ritmo e os restantes imitavam.
Foram ainda criadas outras duas músicas na última sessão desta fase:
Malhão da Sala Verde e Relógio da Sala Verde, com a colaboração do
professor Paulo Rodrigues.
“(…) conseguimos que as crianças seguissem as nossas regras e criamos muita música em conjunto.” (DB, 18 de março).
O Malhão da Sala Verde foi criado a partir de uma melodia inventada por duas crianças com a estratégia do “saxofone mágico” (que irei explicar na página 62). É uma música para saxofone, vassouras percutidas numa caixa de madeira (pelo professor) e coro (crianças). Após várias repetições e improvisações, a música estruturou-se da seguinte forma: secção coral na sílaba “ah” em semínimas, introdução de saxofone, duas vezes o tema no saxofone, duas vezes o tema cantado pelas crianças, acabando com um “shh” (como forma de sinalizar as duas vezes). Toda a música foi acompanhada pelo professor com diferentes ritmos das vassouras percutidas na caixa de madeira. Esta música encontra-se na tonalidade de Dó Maior (jónico) e tem métrica binária. Sendo o saxofone um instrumento transpositor (em mi bemol), é importante referir que a tonalidade correspondente a Dó Maior é Lá Maior (figura 3).
Foi uma música que se estruturou de forma improvisada com a colaboração de todos os participantes, e ao fim de algumas repetições, conseguimos chegar todos juntos ao resultado final.
O Relógio da Sala Verde foi uma música criada através de um jogo entre som e silêncio. Estruturou-se da seguinte forma: quando eu e o professor tocássemos sinos e caixas de madeira as crianças deviam dizer “tic tac” (figura 4), quando parássemos elas deviam cantar como um sino (figura 5).
Com este jogo conseguimos desenvolver a concentração e audição das crianças para a alternância entre som e silêncio, respondendo com dois motivos diferentes.
De sessão para sessão, procurei sempre apresentar-lhes algo novo, pois perdiam rapidamente o interesse nas atividades que já conheciam. Para isto, recorri a três músicas do Manual para a Construção de Jardins Interiores:
Plic Ploc é uma canção que integra os Colos da Música e foi uma das
mais usadas nesta fase do projeto. Está no modo frígio e é em métrica binária. Pelo facto de a letra estar associada ao tema da chuva, esta música veio complementar Os Sons da Chuva. Tal como na Música do Pato, criamos uma coreografia gestual associada ao texto, de forma a que as crianças memorizassem a letra e movimentassem o corpo de acordo com o que ouviam. Contém também uma secção inicial e final mais livre, com jogos rítmicos nas onomatopeias “plic ploc” e “atchim”, onde nos pudemos imitar uns aos outros.
Figura 4 - Secção "Tic Tac" do Relógio da Sala Verde
Era sempre muito difícil gerir as vontades das crianças, pois não as conseguia manter interessadas e concentradas por muito tempo. Quando deixavam de se interessar pelas atividades diziam que estavam cansadas e com sono, acabando por não fazer mais nada. Indo ao encontro deste comportamento, apresentei-lhes numa das sessões a canção Dorme, dorme
meu menino, uma canção tradicional portuguesa que faz parte do Colo da
Terra, que se encontra em modo maior e métrica binária. Com esta estratégia, consegui que as crianças se acalmassem e se concentrassem na audição daquilo que eu estava a cantar.
“Pedi que se abraçassem e baloiçassem enquanto eu cantava, fingindo que estavam a adormecer.” (DB, 18 de fevereiro).
Cavalicoque é uma canção em modo lócrio e em métrica ternária, e
integra o Colo dos Bichos. Tal como o Plic Ploc, tem uma parte de canto rítmico baseado em onomatopeias. Esta música foi apresentada na última sessão desta fase e deu origem ao seguinte jogo: o professor percutiu com uma vassoura numa caixa de madeira, enquanto eu e a educadora marcamos o tempo percutindo as vassouras no chão. Tendo este ritmo como base, demos a oportunidade a alguns meninos de imitarem um cavalo a andar, e quando imitassem o relinchar do cavalo, todos tínhamos de parar de tocar. Desta forma, conseguimos fazer com que as crianças que imitaram o cavalo se sentissem protagonistas nesta atividade. Numa segunda fase, fizemos o jogo ao contrário: as crianças batiam com as mãos nas pernas enquanto eu tocava saxofone pela sala (imitando um cavalo a andar), e quando eu tocasse um sobreagudo (imitando o relinchar do cavalo) elas deviam fazer silêncio.
“Todas as crianças respeitaram muito bem este jogo de música e silêncio, sendo este um objetivo (…)” (DB, 18 de março).
Segundo Gordon (1997) (in Rodrigues, 2000, p. 33), as crianças devem experienciar e ouvir outros modos para além do maior e menor. As músicas Plic Ploc e Cavalicoque, nos modos frígio e lócrio (respetivamente), permitiram explorar esta ideia.
Ao longo do projeto fui descobrindo e adotando as estratégias que melhor funcionavam com aquelas crianças. Esta descoberta foi realizada de sessão para sessão, tendo em conta todas as reações das crianças às atividades propostas. Posto isto, consegui perceber quais as estratégias e atividades em que elas sentiam mais interesse, e assim, pude explorá-las.
A “estátua” foi uma estratégia que resultou muito bem ao longo de todo o projeto. Consistia em que todos ficássemos imóveis, como uma estátua, quando eu dissesse a palavra “estátua” a meio de uma música. Esta estratégia foi muito utilizada para acalmar as crianças, mas também como um jogo para que percebessem a importância do silêncio. Por vezes, quando discutiam, pedia que fizessem estátuas em conjunto, por exemplo dando abraços (todas as crianças adoravam esta interação).
Outra das estratégias que fui adotando foi a de tocar e cantar para as
crianças, muitas vezes começando de forma suave como um fundo sonoro
que estabelecia progressivamente um ambiente calmo, que as convidava a darem-me atenção ou a pararem durante um momento para me ouvir.
A imitação foi uma estratégia que esteve presente em todas as atividades desde o início ao fim do projeto. É uma estratégia muito eficaz com crianças destas idades, pois muitas vezes não compreendem aquilo que explicamos verbalmente. Assim sendo, exprimia-me muito através de gestos corporais e musicais. Esta competência foi desenvolvida muito rapidamente por elas, ajudando-as a saberem, desde cedo, responder de forma musical, ou seja, a usar a música em vez de palavras. Tentava que falássemos o mínimo possível, o que nos obrigava a expressar e comunicar não-verbalmente através da música. Por vezes era eu que imitava as crianças, tentando interagir e dando importância aquilo que elas faziam e inventavam.
“(…) toquei harmónicos, e eles associaram logo a pássaros, e aí disse que só podiam falar em “passarês” uns com os outros. Pedi que se levantassem e imitassem um pássaro, falando com os colegas enquanto eu tocava.” (DB, 18 de fevereiro).
Para além disto, tentei criar momentos de improvisação e movimentação corporal e vocal livres. A forma mais fácil de conseguir isto foi enquanto tocava saxofone. Tocava várias melodias e efeitos sonoros enquanto as crianças imitavam os sons que eu reproduzia e associavam movimentos corporais aos mesmos. Esses movimentos corporais ajudaram-nas a sentir a pulsação rítmica. Para além disto, houve muita liberdade no início de todas as sessões (no aquecimento), onde cada um era livre de criar novos sons e ritmos.
O “saxofone mágico” foi uma estratégia criada na última sessão desta fase, que consistia em as crianças cantarem para dentro da campânula do saxofone e eu imitar, tocando o que elas tinham cantado. Esta estratégia funcionou como um jogo de ecos e imitações, o que entusiasmava as crianças a quererem continuar a cantar para dentro do saxofone, pois ficavam com curiosidade e expectantes em relação ao som que iriam ouvir como resposta. Esta brincadeira deu-lhes liberdade de expressão na criação de novos gestos sonoros, atenção auditiva e reconhecimento pessoal como parte integrante do projeto.
Percebi desde cedo que só me conseguiria aproximar das crianças de uma forma: a brincar. Desde o início do projeto que sempre brinquei muito com as crianças, ou no início ou no fim da sessão. Sentia, porém, que precisava de mais tempo para me igualar e relembrar como é ver o mundo como elas o veem. Senti também a necessidade de brincar de forma mais livre e num contexto que não tinha que estar relacionado com a minha função musical. Posto isto, na quinta sessão fui até à Sala Verde apenas para brincar.
“(…) sempre que me chamavam de professora eu dizia para me chamarem por Carla, de forma a tentar aproximar-me mais deles, sem haver essa relação de distância de professor – aluno. Quero estar ao nível deles e nunca acima.” (DB, 13 de fevereiro).
Apercebi-me que lhes devia expor as atividades como jogos para que não perdessem o interesse e pensarem no desafio de superar o jogo. Considero que o facto de ter brincado com as crianças me deu muitas ideias de
jogos musicais e liberdade criativa. Descobri que brincar com “carrinhos” ou desenhar pode inspirar uma improvisação ou estruturar uma atividade que englobe simultaneamente o ato de brincar e a presença da música.
“(…) posso concluir que brincar com elas é a forma mais fácil de me aproximar.” (DB, 13 de fevereiro).
Um dos exemplos de jogos musicais foi o jogo do arco íris. Este jogo foi inventado pelo professor: enquanto o professor tocava kalimba, uma das crianças colocava um papel com uma cor, no chão. Posteriormente, a criança tocava numa das cores de forma dançada e interpretada (com as mãos ou os pés) e para cada cor eu tocava um som diferente. Este jogo despertou entusiasmo em todas as crianças, provocando-lhes interesse em ouvir o som correspondente a cada cor.
Para além de todas estas estratégias, desde o início do projeto que tive o objetivo dar a conhecer aquelas crianças instrumentos convencionais (saxofone, kalimba, sinos), mas também não convencionais, de forma a que todos pudessem ter a experiência de reproduzir som e sentir fisicamente o que é tocar um instrumento musical. Assim sendo, resolvi fazer experiências de construção de instrumentos com materiais do quotidiano. Todas essas experiências encontram-se registadas em texto e imagem no Anexo III.
Comecei por tentar criar um saxofone com tubos de PVC. Primeiramente precisava de ter uma espécie de boquilha e palheta, para que houvesse vibração. A “boquilha” foi feita com tubo PVC e a palheta com diferentes tipos de plástico (plástico de garrafa de água e de encadernações). Porém, após várias tentativas, percebi que:
“(…) é muito difícil obter som com qualquer tipo de plástico, sendo que o tubo também é muito largo e dificulta o processo de vibração do plástico. Posto isto, considero que não é viável dar um instrumento deste a crianças”. (Anexo III).
Persisti na minha ideia de criar instrumentos de sopro para aquelas crianças e decidi recorrer a um instrumento mais fácil de tocar: o tubalão (um dos “instrumentos” do Super-Sonics).
O tubalão é um instrumento de sopro feito com um tubo PVC e um balão colocado na extremidade do tubo juntamente com um tubo de eletricidade (Anexo III). O som é reproduzido pela vibração do balão e a altura da nota depende do comprimento do tubo PVC (figura 6). Assim sendo, comecei por fazer 11 tubalões com alturas indefinidas, mas desde cedo percebi que não seria necessário fazer mais, pois as crianças não conseguiam reproduzir som sozinhas, visto que estavam sempre a mudar a posição do balão.
“No geral, tiveram muitas dificuldades em tirar som desse instrumento, pois posicionavam incorretamente o tubo em relação à boca, pondo as mãos por cima do balão, impossibilitando-o de vibrar.” (DB, 18 de fevereiro).
Usei os tubalões em várias circunstâncias, seja apoiando as crianças na procura de formas de produzirem os seus próprios sons, seja usando-os como recurso complementar ao saxofone. Uma das minhas principais preocupações durante todas as sessões foi dar importância a cada criança como participante
única, ou seja, tentei pôr em prática a ideia de colocar o aluno no centro da aprendizagem. Queria que cada uma das crianças se sentisse valorizada na participação do projeto. É claro que muitas vezes foi difícil dar protagonismo a todas as crianças, mas tenho a certeza que essa abordagem terá contribuído para o sentimento geral de que as sessões eram espaços e momentos onde as crianças se sentiam bem.