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Règlement des problèmes systémiques

Todos os homens entrevistados, sem exceção, ao reconhecerem a prática do ato violento, sempre a colocavam como uma resposta a um comportamento ou uma violência anterior, quer seja física ou psicológica, praticada por sua companheira. São inúmeras as falas registradas em que os homens apontavam as mulheres como as verdadeiras culpadas. Colacionam-se abaixo algumas dessas falas a título exemplificativo:

“Cheguei aqui [na Vara de Violência Doméstica] porque minha senhora muita da agressiva, muita da arrogante, que gosta de mandar o marido tomar onde não deve todos os dias, e sempre correu dentro de mim e ela corria dentro de mim e ela apanhava também [...] Eu não agrido ela, não. Ela que me agride. Eu cansei de correr dela. Correr que nem um palhaço. Correr dessa mulher para não... correndo na rua pra ela não me bater. Já levei três dias fora de casa pra ela não querer me agredir”. (José Maria) “[...] às vezes acontece da gente agredir verbalmente, falando algumas palavras que machuca. Mas também ela fala palavras pra machucar. Porque primeiro veio a dela, depois a minha”. (Marcos Batista)

“Dia de sexta-feira, a gente tava bebendo o dia todo, que ela bebe também. Eu mandei ela botar minha janta, ela botou. Quando eu tava no sofá, jantando no caso, né? Aí eu num sei se a gente ia discutir... [gaguejou] Eu não lembro porque isso já tem um ano e oito meses. Aí ela pegou e deu um chute no meu braço. Aí foi pro quarto. Chegou lá, se deitou. Eu fui e dei um chute nela. Aí pegou no nariz. Aí sangrou. Aí eu saí, fiquei do lado de fora”. (Elias Costa)

Também registramos falas no sentido de afirmar que as versões apresentadas pelas mulheres eram inverídicas ou haviam sido contadas de forma distorcida. Ainda, registramos queixas de que as mulheres eram sempre vistas como

vítimas pela sociedade e profissionais que trabalham diretamente com a temática e o desconforto em não ver percebida a participação ativa nas violências denunciadas: “Agora eu falo a verdade quando eu chego aqui. Agora ela quando chega aqui ela só faz chorar. Ela não fala que manda eu tomar onde não deve. Ela não fala que corre dentro de mim. Ela não fala que toma cachaça final de semana; copo cheio de conhaque e Cambuí”. (José Maria)

“[...]o cara não é nem escutado, porque o homem deveria ser mais escutado. Por que o que a mulher fala lá, só o que vale é a palavra dela, né? Contanto que chegou lá, fui acusado e nem pararam para me escutar”. (João dos Santos)

Como se vê, há um consenso entre os homens de que eles não são os únicos responsáveis pelo cometimento da violência em suas relações conjugais. No discurso de nossos entrevistados, resta clarividente a ideia de que a mulher contribui efetivamente para os episódios violentos. Podemos dizer ainda que, para os homens, a violência masculina não é uma ação própria, senão uma reação às atitudes de suas companheiras, o que equivale a dizer que a violência seria desencadeada pelas mulheres e há sempre uma justificativa plausível para legitimar as agressões contra elas.

Em trabalho intitulado “Representações sociais da violência conjugal”, Claudia Casimiro, após entrevistar diversas mulheres em situação de violência, afirma que é possível verificar que elas próprias reconhecem que podem ser violentas. Contudo, a violência feminina, sobretudo nas camadas sociais mais abastadas, raramente utiliza a força física. Em geral, essas mulheres recorrem a agressões verbais e psicológicas, chantagens emocionais e com os filhos, recusam-se a praticar relação sexual etc. (CASIMIRO, 2002, p. 621-623).

Com isso não pretendemos refutar a ideia de que as mulheres são majoritariamente as pessoas contra as quais essas violências são praticadas. Ainda que possamos reconhecer que a mulher seja participante na geração do conflito que desemboca no ato de violência, não podemos perder de vista que neste ato é o corpo da mulher que suporta o preso da agressão, é a mulher que acaba por se tornar vítima.

Entretanto, os dados revelados na pesquisa de Casimiro (e em tantas outras recentemente desenvolvidas) podem nos servir para ampliar a discussão sobre a condição de vítima da mulher. Identificando-a sempre como passivas e indefesas, insistimos em um vitimismo que pode naturalizar esse tipo de violência. Nos dizeres

de Olívia Rangel: “insistir no vitimismo implica “naturalizar” a violência contra a mulher, o que equivale a considerá-la como um problema insolúvel: vitimizadas, incapazes de enxergar uma saída e, sobretudo, de lutar por elas as mulheres estariam eternamente condenadas ao suplício” (RANGEL, 2001).

Neste sentido, ao considerar o descentramento do pólo masculino, Miriam Grossi (2000, p. 304) considera novas formas possíveis de se entender a violência contra mulheres, apresentando-nos duas novas teorias que sugerem a violência como uma linguagem que estrutura o contrato conjugal de vários casais. A primeira, conhecida como ciclo de violência doméstica, consiste numa teoria anglo-americana, desenvolvida por assistentes sociais que lidam diretamente com mulheres espancadas. Com forte ancoragem em teorias sistêmicas do comportamento humano, aborda a violência como parte dos impasses de comunicação entre um casal, mostrando que há uma circulação de poder no interior do casamento em detrimento de uma divisão estanque. É como uma brincadeira de gangorra: sempre há um em cima e outro em baixo, sendo raros os momentos em que ambos conseguem permanecer num plano horizontal (GROSSI, 2000, p. 304-306).

A segunda teoria que aborda é a desenvolvida por pesquisadores da Escola de Palo Alto, que trabalham com o conceito de duplo vínculo (double bind) para compreender as dificuldades de comunicação entre o casal. Para os formuladores dessa teoria, o duplo vínculo é verificado em um diálogo no qual um dos parceiros diz o que acredita que o outro queira ouvir, omitindo aquilo que realmente quer dizer, de modo que ambos não conseguem verdadeiramente se comunicar. Esse tipo de diálogo, tido como sem saída, pode desencadear, em alguns casos, atos de violência (GROSSI, 2000, p. 306).

Assim, o romper das amarras com a corrente da dominação patriarcal para a explicação da violência contra a mulher, sobretudo no âmbito das conjugalidades, pode nos trazer ganhos incomensuráveis, pois permite enxergar o fenômeno de forma mais ampla e plural, auxiliando, inclusive, a formulação de mecanismos mais eficazes no enfrentamento do problema.

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