Os custos que envolvem a produção do carvão vegetal, a seguir indicados, têm por base levantamentos realizados entre julho de 1992 e julho de 1995 e indexados pelo dólar. As operações iniciais referentes à produção do carvão com a utilização de resíduos de fazenda são a brocagem e a derrubada. Nesse caso, a unidade métrica que referencia o trabalho é o alqueire. Para se realizar a brocagem de um alqueire são necessários 15 dias de trabalho de um peão, remunerado por diária equivalente a US$ 2.62 no máximo. O gato recebe US$ 52.37 por alqueire, dos quais deduz a remuneração dos trabalhadores e outras despesas.
Na derrubada, são envolvidos dois trabalhadores, comumente apelidados de
motoqueiro e bebe-óleo. O primeiro é o operador da motosserra e o segundo o seu auxiliar. Esses trabalhadores levam oito dias de trabalho para derrubar um alqueire de mata (Fotografia 14). O motoqueiro recebia diárias de no máximo US$ 3.92 e o bebe-óleo de US$ 2.62”. O gato, pela derrubada de um alqueire, recebia no máximo US$ 112.46, importância com a qual pagaria os trabalhadores, arcaria com custos de combustível e manutenção de motosserra, etc. Neste caso, descontados os valores relativos à remuneração da força de trabalho, o gato recebia US$ 13.07 pela brocagem e US$ 60.14 pela derrubada de um alqueire de mata, valores com os quais custearia as demais despesas. Tendo por base estas cifras, têm-se os custos totais, conforme apresentados na Tabela 10.
Assim, os custos para desmatar e brocar um alqueire de mata nativa são de aproximadamente US$ 164.83.
Os diversos depoimentos indicaram que, em termos médios, são retirados 570 estéreos de lenha, dentro de padrões úteis à carbonização, de cada alqueire desmatado, indicações empíricas que encontram ancoragem na literatura consultada.
Como os custos para a brocagem e derrubada de um alqueire são de US$ 164.83, conclui-se, após uma operação de divisão, que o custo de um estéreo de lenha após a
brocagem e a derrubada é de US$ 0.30.
Tabela 10-Custos, em dólar, pela “brocagem” e “derrubada” para a produção do carvão vegetal.
Operação Unidade. Nº de
diárias Remuneração Trabalhador (US$)
Remuneração
Gato1 (US$) Total
(US$)
Brocagem Alqueire 15 39.3 13.07 52.37
Derrubada Alqueire 162 52.32 60.14 112.46
Total Alqueire 164.83
Fonte: Monteiro (1995, p. 93)
Notas: 1 Excluindo os valores pagos aos trabalhadores.
2 Oito diárias referentes ao motoqueiro e oito relativas ao bebe-óleo.
As operações de corte e empilhamento representam um custo médio de US$ 1.31 por estéreo de lenha, pagos ao empreiteiro que, a partir desta cifra, remunera o motoqueiro a US$ 0.40 o estéreo de lenha cortada e empilhada, que, por sua vez, remunera o seu auxiliar com base em “diárias”, não superiores a US$ 2.62.
O transporte da lenha até à boca do forno, por peões, denominado rechego (Fotografia 12), é realizado por três trabalhadores: dois deles invariavelmente recebem por diárias, e algumas vezes o trabalhador denominado de motorista recebe por produção. A operação representa um custo de US$ 0.96 por estéreo de lenha transportado (Tabela 11).
Tabela 11 -Custos, em dólar, de estéreo de lenha por tipo de operação.
Operação Brocagem e
derrubada empilhamento Corte e até ao forno Transporte Total
Custo 0.30 1.31 0.96 2.57
Fonte: Monteiro (1995, p. 94).
Um estéreo de lenha na boca do forno, para ser carbonizado, tinha o custo de US$ 2.57. Na medida em que, para a produção de uma tonelada de carvão, são necessários oito estéreos de lenha, o custo da lenha para a produção de uma tonelada de carvão é de US$ 20.56.
Fotografia 12 - ”Peões” realizando operação denominada rechego.
Fonte: Autor (1996).
Ao custo da lenha são acrescidos os gastos com carbonização e o transporte até à usina. No que se refere ao custo com carbonização, assume-se, como preço médio, o pago aos carvoeiros que conduzem, sem ajuda de auxiliares, o processo de carbonização e recebem, em média, US$ 3.14 por tonelada de carvão produzido. Em se tratando de transporte do carvão
até a usina, há grande variação, obviamente vinculada à distância pela qual o carvão é transportado (Fotografia 13). Para uma distância média de 70 km, tem-se um custo do frete de US$ 8.50/t, aos quais devem ser acrescidos os custos de depreciação dos fornos, que produzem, em média, 60 toneladas de carvão, o que implica acréscimo de quase US$ 2.0 por tonelada de carvão produzido, e mais US$ 2.0 relativos a despesas com água, etc., chegando- se, assim, a um custo total de produção de US$ 36. 20 (Tabela 12).
Fotografia 13 -Caminhão transportando carvão para as usinas: custo proporcionalmente elevado.
Fonte: Autor (1996).
São relevantes os custos, na produção do carvão, que envolvem o transporte do material lenhoso até os fornos onde será carbonizado, representando mais de um quinto do custo total. Isso impõe constante mudança na localização das baterias dos fornos, uma vez que, se a área de onde é extraída a lenha atinge determinada distância – superior a 1 km quando se utiliza transporte mecânico e de 500 metros quando se recorre à tração animal para o transporte da lenha –, é necessário que se desfaçam os fornos e sejam reconstruídos às proximidades de novas áreas, na mesma propriedade, onde a lenha é cortada e empilhada.
O custo de produção do carvão vegetal que recorre à lenha proveniente dos desmatamentos é superior aos daqueles que carbonizam resíduos da madeira utilizados por serrarias. Isso certamente justifica a estratégia empresarial que, vinculada à manutenção do fornecimento de carvão vegetal originário de fazendas, impele diversas siderúrgicas da região
a remunerarem o carvão proveniente de serrarias com preços diferenciados daquele que utiliza a lenha de desmatamentos.
Tabela 12 - Custos, em dólar, da produção de uma tonelada de carvão utilizando lenha de desmatamentos.
Operação Custo em U$$ %
“Brocagem” e derrubada1 2.40 6,63
Corte e empilhamento1 10.48 28,95
Transporte até o forno1 7.68 21,22
Carbonização2 3.14 8,68
Depreciação dos fornos 2.00 5,52
Outros custos 2.00 5,52
Transporte 8.50 23,48
Total 36.20 100,00
Fonte: Monteiro (1995, p. 95).
Notas: 1 Referente ao custo de oito estéreos. 2 Inclui o carregamento do caminhão.
Infere-se também que tanto no carvão de serraria quanto no carvão de fazenda as despesas com transporte até a usina são altas. Para uma fazenda localizada a 70 km da usina, os custos ultrapassam um quinto do total dos custos de produção e para o carvão produzido em serrarias localizadas em Jacundá o deslocamento até Marabá representa mais de um terço dos custos, o que por si só indica o quão é importante para as guseiras a sua localização o mais próximo possível de áreas que possuam reservas florestais aptas ao fornecimento de matéria para a produção do carvão.