B. Le TOC du point de vue de la neurobiologie
IV. Quid du déficit de flexibilité cognitive ?
A Procissão Principal do Círio
A imagem original e a peregrina de Nossa Senhora de Nazaré A transladação A corda O recírio O arraial O almoço do Círio Os brinquedos de Miriti
Organização: Lucília Matos. Fonte: IPHAN/MINC, 2004.
Quadro 2 – Manifestações associadas ao Círio que não são organizadas pela diretoria da festa.
MANIFESTAÇÃO POSIÇÃO SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO DO IPHAN
Almoço do círio Acompanha o Círio ao longo de muitos anos.
Feira de Brinquedos
de Miriti Acompanha o Círio ao longo de muitos anos.
Festa da Chiquita Incorporou-se às festividades do Círio mais recentemente. Acontece desde 1978.
Auto do Círio Incorporou-se às festividades do Círio mais recentemente.
Acontece desde 1993.
Arrastão do Pavulagem111 Incorporou-se ao Círio mais recentemente Acontece desde 2001
Organização: Lucília Matos.
Embora não seja objetivo deste trabalho analisar o processo de reconhecimento do Círio como Patrimônio Imaterial do Brasil, é importante destacar que esse processo potencializou a valorização social desta festividade. Mais do que isso, pôs em evidência o sentido da economia lúdica da fé, uma vez que o registro do IPHAN funciona como uma instância de consagração e legitimação das práticas populares. Desse modo, as produções culturais geradas pela festividade do Círio tornam-se excelentes atrativos do mercado de bens e serviços culturais diversificados do mundo que abarcam múltiplas atividades, simultaneamente econômicas e simbólicas. Para melhor
111 Atualmente essa manifestação reconhecida pelo IPHAN como Arrastão do Pavulagem é chamada de
Arrastão do Círio. Ao nos referirmos aos dados do IPHAN adotaremos sua nomenclatura. Ao nos referirmos aos dados da nossa pesquisa de campo chamaremos de Arrastão do Círio.
explicar essa perspectiva recorreremos a algumas das entrevistas realizadas com alguns agentes sociais representantes de instituições e grupos organizadores das várias manifestações culturais presentes no Círio (Diretoria da Festa, Patrocinador Oficial do Círio, Auto do Círio, Arrastão do Círio, Festa da Chiquita e Artesão de Brinquedo de Miriti)112:
Em muitos materiais promocionais do Círio organizados pelas mais variadas instâncias, entre as quais a diretoria da festa, é bastante ressaltado o título desta festividade como Patrimônio Imaterial dos brasileiros: “[...] o Círio é um espetáculo grandioso. Tão grandioso que foi registrado como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, pelo IPHAN [...]” (Folder Patrocinador Oficial 2010). O argumento que reputa o valor simbólico distintivo dessa festividade é utilizado como uma forma de atrair empresas para patrocinarem a festa. Apesar das diversificadas formas de uso desse título, ao entrevistarmos alguns membros da DF em 2007 e 2008, e questionarmos sobre o tema, eles não o admitem diretamente, como se percebe no depoimento do diretor de marketing da DF, Hilbert Nascimento113:
[...] Em certos assuntos é bom que tenha mais de uma pessoa vigiando um bem e eu digo que a partir do momento que o Círio é tombado, que esses ícones são reconhecidos como parte do Círio, nós nos sentimos mais seguros de que o Círio não vai terminar, que as pessoas não vão querer destruir o Círio, que não vai ter alguém tentando acabar com o Círio, com o que é nosso, o que é do povo. O Círio sempre foi do povo e hoje, na verdade, há cento e poucos anos, na realidade, 101 anos que passou a estar nas mãos dos padres Barnabitas, da direção da paróquia de Nazaré e vai fazer 100 anos que a diretoria da festa foi instituída para ajudar a igreja a realizar o Círio, isso não quer dizer que seja nosso o Círio, muito pelo contrário, nós apenas somos instrumentos para tentar dar logística para um evento que acontece com a diretoria, sem a diretoria, com os Barnabitas ou sem os Barnabitas, o Círio é do povo.
De maneira semelhante responderam as empresas patrocinadoras oficiais do Círio. Destacaram que o registro feito pelo IPHAN só vem a somar com os esforços já desenvolvidos até então e na afirmação do que já sabiam. Segue entrevista de João Tavares, diretor coordenador institucional da OI, empresa patrocinadora oficial do Círio114:
[...] Para nós o fato do IPHAN ter reconhecido o Círio como Patrimônio Imaterial Brasileiro é uma grande demonstração de que estamos no caminho certo ao patrocinar o Círio, porque esse reconhecimento dos outros para nós apenas ratifica o que nós já tínhamos como definição do próprio Círio. Que ele é um bem imaterial do Brasil.
112 Procuramos destacar os trechos das entrevistas que na nossa opinião expressam a posição mais recorrente tanto
da DF quanto dos Patrocinadores Oficiais do Círio de Nazaré entrevistados. Em relação às manifestações associadas ao Círio (Festa da Chiquita, Alto do Círio, Arrastão do Círio e Feira dos Brinquedos de Miriti), destacamos trecho das entrevistas realizadas com os coordenadores dessas manifestações.
113 Entrevista concedida a autora em 8 de outubro de 2007. 114 Entrevista concedida a autora em 10 de outubro de 2007.
O suposto desinteresse desses mediadores e apoiadores da produção simbólico-cultural do Círio nos parece uma forma de afirmação de seus status e prestígio. Quando se pretende acumular capital simbólico, nesse caso específico na afirmação de suas competências como mediadores e apoiadores do Círio de Nazaré, muitas vezes, é preciso negar o sentido de mercado, de jogos monetários ou de qualquer tipo de interesse que possa parecer ter suas ações. É necessário mostrar gratuidade na ação (BOURDIEU, 1997).
Como mostramos no Quadro 2, dentre os elementos associados ao Círio citados e reconhecidos pelo IPHAN que não foram “inventados” e assumidos pela DF existem quatro que são organizados por diferentes mediadores culturais: a Festa da Chiquita, o Auto do Círio, o Arrastão do Círio e a Feira de Brinquedos de Miriti. Em seguida, faremos uma breve descrição dessas manifestações e situaremos o significado do registro do IPHAN para seus organizadores.
O Auto do Círio trata-se de um cortejo dramático carnavalesco com temas e personagens representativos do Círio. É um projeto de extensão da Universidade Federal do Pará organizado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, criado com intenção de revitalizar e despertar a atenção da população para o centro histórico de Belém e exercitar a prática da produção e ensino das artes tendo como instrumento o teatro de rua. Tem como referência os autos medievais, com as estações montadas (palcos) em frente a igrejas e prédios históricos de algumas ruas da Cidade Velha de Belém. Dialoga com as diferentes linguagens artísticas: Artes Plásticas/Visuais (elementos cênicos e figurinos); Artes Cênicas (Teatro, Dança, Circo); Música (Bandas, Orquestras, Percussão, Canto Lírico e Popular); incorpora diversos grupos culturais da cidade ligados a essas linguagens artísticas além dos grupos que atuam com Quadrilhas Juninas, Boi- Bumbá, Pássaros Juninos e de Carnaval. O cortejo parte da Igreja do Carmo, sendo aberto por uma comissão de frente, seguido de várias alas, de porta estandarte, carros alegóricos etc., é acompanhado nas laterais das ruas por onde passa por milhares de pessoas. Em cada estação há uma parada na tessitura dramática do enredo cuja culminância se dá na última estação, finalizando sempre com a música enredo animada por uma bateria de escola de samba. Grande parte do espetáculo é montada a partir de oficinas que são desenvolvidas a cada ano a partir de inscrições prévias e os ensaios acontecem em espaços públicos da cidade.
Para o coordenador do Auto do Círio, Miguel Santa Brígida115, o reconhecimento pelo IPHAN possibilitou maior projeção nacional e também o reconhecimento pelos órgãos responsáveis pelo desenvolvimento do turismo no Estado, o que levou o Auto do Círio a integrar as agendas de eventos no mês de outubro, como forte atrativo turístico:
O reconhecimento foi muito importante, pois deu uma projeção nacional para o Auto do Círio. Esse selo do IPHAN foi criado em 2003, eu me lembro que além do Círio parece que tiveram mais três manifestações contempladas. Quando o Círio entrou foi uma agitação muito grande, pois nas entrevistas sempre era falado sobre as manifestações que foram estudadas e que fizeram parte do livro e o Auto do Círio está lá. Sempre quando damos entrevista falamos que o Auto do Círio é uma manifestação reconhecida junto ao Círio como Patrimônio Imaterial dos brasileiros. Passamos a sentir uma responsabilidade muito grande, responsabilidade de manter essa tradição, tradição não numa perspectiva tradicionalista que a Diretoria da Festa e a própria TV divulga o Círio, como uma coisa antiga, certinha. O Círio não é assim, o Círio tem muito de carnavalização, que é diferente de carnaval. O Círio tem muito de carnavalização porque é colorido, é festivo.
O cortejo Arrastão do Círio é organizado por um grupo de músicos de Belém que foi constituído na década de 1980, chamado “Arraial do Pavulagem” e que mais recentemente fundou um instituto com o mesmo nome. Sua presença no período do Círio se deu como uma forma de criar ânima na cidade e difundir o interesse e a prática das pessoas por diversas expressões da cultura popular tradicional. Parte do cortejo se estrutura por oficinas que acontecem em meses antecedentes ao Círio, sendo que nas duas primeiras semanas de outubro são realizados ensaios em espaços públicos, configurando-se como mais um evento no calendário cultural da cidade amplamente divulgado e aberto à participação de pessoas que desejem assistir. O evento em si é animado por música, (sopro e percussão), grupos de dança, bonecos gigantes de miriti (cobra grande, roc-roc, soca-soca, casal de namorados etc.116), por bois convidados do interior do Pará e de Belém. Grande parte das pessoas que acompanham o cortejo usa chapéu de palha enfeitado por fitas coloridas acetinadas que são doados ou comercializados no local. O cortejo acontece pela manhã do sábado que antecede a Procissão Principal do Círio e sai da Praça dos Estivadores, após a chegada da imagem de Nossa Senhora de Nazaré na Romaria Fluvial. Mais recentemente os músicos do cortejo passaram a homenagear a imagem da Santa com a execução do hino do Círio - Vóis sois o Lírio Mimoso. Após a homenagem, o cortejo, acompanhado por milhares de pessoas, segue pela Av. Boulevard Castilho França rumo a Praça do Carmo onde há um palco armado em que vários cantores fazem a festa durante o resto da tarde de sábado.
Organizar um evento de grande aceitação popular durante o Círio e ser reconhecido por uma instituição como o IPHAN, segundo Junior Soares - coordenador do Instituto Arraial do Pavulagem117, vem servindo para esse grupo conseguir apoio financeiro, estimular a pesquisa, o estudo e as várias manifestações da cultura popular no estado, ao mesmo tempo em que possibilita ao grupo ampliar as ações e ter mais visibilidade.
116 Tipos de brinquedos de miriti representativos da cultura amazônica. 117 Entrevista concedida a autora em 03 de out. de 2008.
“Somos um dos bens associados ao Círio de Nazaré que é o Patrimônio Cultural brasileiro, o único até agora [refere-se à categoria celebração]. Usamos esse argumento para conseguirmos apoio. Somos também considerados Utilidade Pública do Estado do Pará pela Lei da Assembleia Legislativa, uma proposição de uma deputada bragantina minha amiga.”
O reconhecimento desses eventos como elementos que compõem o Círio de Nazaré gerou bastante polêmica, principalmente a Festa da Chiquita. Segundo Pantoja (2006, p. 41), o resultado desse processo de pesquisa desenvolvida pelo IPHAN ocasionou uma “verdadeira guerra de bastidores entre a Diretoria da Festa e IPHAN”, pois a diretoria da festa era contra a inclusão da Festa da Chiquita como um dos bens associados ao Círio, devido ao seu suposto caráter profano.
De fato, diferentemente do Auto e o Arrastão do Círio, a Festa da Chiquita é formalmente rejeitada pelo poder eclesiástico.
A Festa da Chiquita vem sendo organizada por pessoas ligadas à arte desde os anos 70 e, nos dias atuais, é expressiva do movimento GLBTT. De acordo com a narrativa de Eloy Iglesias, artista e um dos seus fundadores, a festa começou da seguinte maneira:
A Festa da Chiquita é uma festa da década de 70, da época da ditadura militar quando o movimento gay estava começando a surgir, era novidade no mundo. [...] a gente era contra a diretoria da festa [...] na época as pessoas ficavam um pouco temerosas, porque a diretoria da festa toma conta da cidade, porque ela organiza o Círio. Então as pessoas revolucionárias, nós resolvemos fazer a nossa diretoria, fizemos a diretoria e resolvemos eleger o Veado de Ouro, então, desde a primeira festa, nós damos o Prêmio do Veado de Ouro. Na verdade a festa da Chiquita é uma festa gay que é aberta a todos. Hoje já virou uma festa mix, tem carimbó, tem música eletrônica, todas as tendências; falam que é um circo cultural (IGLESIAS: 2005:98).118
A festa teve seu início em plena ditadura militar, sendo nítido seu caráter de contestação da festa oficial, bem como de busca de reconhecimento social para o segmento gay, no caso, sua aceitação como legítimos participantes do Círio. O depoimento do criador da Chiquita expressa este sentimento: “Existe a coisa profana porque bicha é profana, mas é religiosa, elas vão todas produzidas, todas têm terço, todas têm cordinha amarrada na mão, fitinha” (IGLESIAS, 2005, p. 54).
A festa é realizada em frente ao Bar do Parque, ao lado do teatro da Paz na Praça da República, na noite do sábado, após a passagem da procissão da Trasladação. No seu auge, milhares de pessoas participam, tomando a praça, embaladas pelo ritmo do som regional do carimbó e de muita música eletrônica. À meia noite acontecem premiações com a entrega de
118 Eloy Iglesias é cantor, compositor, ator, performer e artista popular. A Festa da Chiquita atinge público
estimado em 20.000 pessoas. IGLESIAS, Eloy. Transcrição da palestra proferida no seminário. In CARVALHO Luciana. Círio. Rio de Janeiro: IPHAN, CNFCP, 2005 (Série Encontro e Estudos).
troféus: o “Veado de Ouro” (destinado a um homossexual), “Botina de Ouro” (destinado a uma homossexual) e a coroação da “Rainha do Círio”, uma pessoa escolhida previamente independentemente de sua opção sexual.
Para Eloy Iglesias, principal organizador da Festa da Chiquita, o reconhecimento do IPHAN é uma forma de resguardar a sua realização uma vez que nos últimos anos tem sido palco de divulgação de ações educativas desenvolvidas por várias instituições, entre as quais o Grupo Homossexuais do Pará (GHP), o grupo Cidadania e Respeito (COR), a Associação de Gays, Lésbicas e Transexuais do Pará (AGALT-PA), o Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central (GEMPAC) etc.
Não temos nada sistematizado. A Chiquita é essa coisa sem memória (risos). Hoje o Iphan é nossa memória. Até hoje temos perseguição, mas o registro pelo Iphan para a gente hoje é muito importante, se a prefeitura, por exemplo, não ajudar, ela pelo menos não vai atrapalhar, o registro é como uma carta de alforria para a gente que faz a festa, para o movimento de artistas, movimento dos Gays, movimento de negros, de mulheres. Hoje a festa vem com todo esse bojo de carga, os negros, as mulheres, os homossexuais, as lésbicas, até o informal. A gente briga porque a gente acha que a Nossa Senhora faz com que mercado essas pessoas possam tirar seu dinheirinho, porque os fariseus da festa querem acabar com isso [...] O grande barato do reconhecimento é que hoje você não tem medo de ir pedir apoio, tem um órgão muito sério que nos reconhece. A igreja não achava que ia encontrar a Chiquita no reconhecimento, mas teve que engolir essa [...].119
No caso dos artesãos que confeccionam os brinquedos de miriti, desde 1905, conforme se tem registro, esses produtos tradicionais já eram comercializados em girândolas120 nas procissões. Na década de 1980, por iniciativa dos artesãos, passaram a ser comercializados em espaços improvisados nas praças. Em 1997 os artesãos de Abaetetuba passaram a receber apoio da Prefeitura Municipal de Belém para a produção, transporte e comercialização de suas peças em feiras organizadas para esse fim, em praças centrais da cidade, tais como Praça do Carmo e Praça Frei Caetano Brandão. A partir 2006, o Sebrae passou a desenvolver o “Projeto Artesanato de Miriti na Região de Abaetetuba”, dentro das áreas de melhoria da organização social, acesso a mercado, melhoria de produtos e processos e do registro do aumento da comercialização através de ações de acesso ao mercado. Com as ações implementadas pelo Sebrae junto às recém-criadas organizações representativas dos artesãos – Associação dos Artesãos de Brinquedo e Artesanato de Miriti de Abaetetuba (ASAMAB), a Associação Arte Miriti de Abaetetuba (MIRITONG), a Associação Natureza e Arte
119 Entrevista concedida a autora em 10 de outubro de 2008.
120 Uma espécie de cabide confeccionado com o próprio miriti onde os brinquedos são pendurados e carregados
(NATURART) – e na articulação com patrocinadores e plano de divulgação, a feira tomou maiores proporções em termos de organização, visibilidade e perspectiva comercial mais ofensiva para entrar no circuito das grandes feiras de artesanatos que acontecem no Brasil.
O espaço de instalação da feira foi aperfeiçoado com stands cobertos, praça de alimentação, etc. O artesanato de miriti passou a ter grande visibilidade nesse período como resultado de investimento de instituições públicas e privadas realizado através do Sebrae, junto à ASAMAB. O artesanato começou a ser exposto e comercializado na Praça Waldemar Henrique com programações específicas para essa feira: shows musicais, oficinas, praça de alimentação com venda de bebidas e comidas regionais etc. Na celebração de abertura da feira em outubro de 2008 o Presidente do Sebrae do Pará anunciou que, no ano de 2009, a feira passaria a funcionar na Estação das Docas121, promessa que ainda não foi efetivada. Em 2009 a feira manteve-se no mesmo local. Em entrevista com o artesão Amadeu Sarges (Presidente da ASAMAB)122, ao dialogarmos sobre o Círio como Patrimônio Imaterial, ele enfatizou que o reconhecimento estimulou as ações ampliando a demanda de produção artesanal.
Ser patrimônio ajudou muito... e ainda mais depois que o Sebrae entrou, a comercialização do brinquedo já evoluiu muito, não só nas feiras, mas nas lojas, porque existe as encomendas: tem nos shoppings, mandamos para o Rio de Janeiro, para São Paulo, França... por exemplo, a gente foi para a França, mas ai tem um lojista que quer comprar atacado e ai nas lojas eles colocam o preço muito maior [...] agora eu trabalho o ano inteiro com o brinquedo de miriti e cada vez mais estamos recebendo reconhecimento.
O registro do Círio como Patrimônio Imaterial, ao delimitar os elementos diversos que acompanham a festa desde as suas origens e os que foram incorporados como tradição mais recentemente, valoriza uma série de eventos que são potenciais nichos específicos de consumo simbólico, e afirma a diversidade de práticas culturais próprias da região, aspecto que só vem a reforçar o Círio na estrutura do entretenimento-turístico no Brasil, configurando-o como uma festa-espetáculo de proporção nacional.
121 Estação das Docas é a denominação dada a um projeto de refuncionalização de três galpões do antigo porto
de Belém. É um projeto similar ao existente em Buenos Aires (Puerto Madero), contudo obedecendo a uma concepção mais elitista, haja vista que a solução arquitetônica constrange as camadas populares devido às barreiras arquitetônicas, à vigilância e aos preços dos serviços comerciais lá oferecidos. Fortíssima campanha publicitária transformou, contudo, a Estação das Docas em um dos mais importantes pontos turísticos da cidade o que, se é usado pelas camadas de renda alta, nem por isso deixa de sensibilizar as camadas populares. Por isso a promessa de uma instituição como Sebrae de transferir a Feira de Miriti da Praça para a “Estação” adquire um sentido de grande impacto simbólico.
O título torna-se um mecanismo de consagração e legitimação às variadas manifestações presentes e intimamente vinculadas com essa festividade, muitas das quais, embora já fizessem parte desse evento há vários anos, eram pouco conhecidas e valorizadas apenas por restritos grupos sociais. O reconhecimento possibilita a esses vários grupos organizadores de expressões culturais da festividade retorno em termos simbólico e material, ao mesmo tempo em que tais manifestações tornam-se excelente atrativo do mercado de bens e serviços culturais diversificados do mundo e que, assumidos pelas instâncias governamentais estaduais e municipais, muitas vezes aliadas às empresas privadas, passam a ser planejados, estruturados e divulgados com vistas a fazer parte da política de desenvolvimento das cidades.