A expectativa em torno da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, era grande e otimista. Primeira mulher a se tornar Presidente da República do Brasil, nascida em 14 de dezembro de 1947, na cidade de Belo Horizonte (MG), ela deu início à vida política integrando organizações de combate ao regime militar. Chegou a ser condenada por “subversão” e passou três anos, de 1970 a 1972, no presídio. Dedicou-se, em 1979, à campanha pela Anistia, durante o processo de abertura política comandada pelos militares, ainda no poder.
Ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT) no Rio Grande do Sul e, na década de 1990, em decorrência de aliança entre PDT e PT para eleger Olívio Dutra, governador no Rio Grande do Sul, ocupou a Secretaria de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul (pela segunda vez). Dois anos depois, filiou-se ao PT, iniciando sua trajetória no partido. Foi escolhida como candidata do PT a disputar eleições sucessórias do presidente Lula, sendo eleita em 2010 e reeleita em 2014 como presidente do Brasil. Após processo de impeachment, foi afastada definitivamente da Presidência,
em agosto de 2016, após ser condenada20 por crime de responsabilidade pelo Senado
Federal brasileiro, num processo que mobilizaria toda a nação.
Sucessivas denúncias de corrupção, alavancadas especialmente pelos episódios do “Mensalão”21, problemas em setores como transporte, saúde, educação, segurança,
denúncias de superfaturamento nas obras e utilização de recursos públicos para viabilizar a Copa do Mundo de 2014 (gastos com estádios) (ITAQUERÃO, 2014), realização de megaeventos esportivos contrastando com a má qualidade dos serviços públicos foram alguns dos problemas detectados em seu governo e que levaram as chamadas Jornadas de Junho a ganhar fôlego. Outros agravantes, como nos recorda Gohn (2014, p. 21) foram:
[...] a persistência dos índices de desigualdade social, inflação, denúncia de corrupção, clientelismo político, a PEC 3722 (também conhecida como a PEC da
Impunidade, projeto de emenda constitucional que tinha como objetivo implodir o poder investigatório do Ministério Público), assim como sentimento de impunidade nas histórias de corrupção, o sistema político arcaico, a criminalização de movimentos sociais – especialmente rurais e indígenas -, o projeto de lei que tramitava no Congresso sobre “cura gay”, a condução de importantes postos políticos no cenário nacional por políticos com passado marcado por denúncias etc.
Ou seja, a despeito das políticas governamentais de inclusão social, como a persistência do Bolsa Família em seu governo, e a boa imagem internacional do País até então, esses graves problemas sociais levaram a população novamente às ruas em junho de 2013, num movimento histórico de protesto que teve início contra o aumento da passagem de ônibus e se desmembrou para reivindicações múltiplas: saúde, educação, corrupção, segurança etc.
Além dos motivos locais, temos que pensar também que junho trouxe uma questão relevante: finalmente “[...] as temporalidades da crise econômica internacional e da crise política nacional colocaram-se em concordância.” (BRAGA, 2013, p. 82) no
20 Os senadores aprovaram o impeachment. Dos 81 senadores, 61 foram favoráveis ao impedimento, mas
apenas 42 deles foram favoráveis à aplicação da pena de perda dos direitos políticos da inabilitação de Dilma para assumir cargos públicos, o que causou, à época, perplexidade pela incoerência do procedimento. A presidente foi afastada, tendo o peemedebista Michel Temer sido empossado em seguida. Encerrada a votação, Dilma fez um pronunciamento no Palácio da Alvorada, em que afirmou que o impeachment fez com que condenassem uma inocente e consumassem um “golpe parlamentar” e convocou a população à resistência. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/08/31/veja-a-integra- do-pronunciamento-de-dilma-apos-impeachment.htm. Acesso em: 14 jan. 2018.
21 Escândalo do Mensalão é o nome dado à maior crise política sofrida pelo governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), em 2005/2006. O episódio refere-se à compra de votos de parlamentares, no Brasil, que teve ação movida no Ministério Público, denomina da Ação Penal 470.
22 A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 37 limitava o âmbito da atuação do Ministério Público e
viria a ser rejeitada na Câmara dos Deputados. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/entenda-a-pec-37-6801.html. Acesso em: 14 jan. 2018.
Brasil. A crise internacional que parecia até então não assolar o Brasil, trouxe para o País seus primeiros efeitos colaterais concretos.
Outra questão a se ponderar é que, se os grupos pauperizados que foram beneficiados pelo Bolsa Família conquistaram melhores condições de vida durante o governo petista, o “precariado” (massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram e saem rapidamente do mercado de trabalho, jovens à procura do primeiro emprego, trabalhadores que operam na informalidade e sub- remunerados) foi para as ruas em junho de 2013, por já sentir naquele momento os efeitos das crises local e internacional, sendo que o colapso da economia interna e o desemprego só avançariam a partir de então (WAACK, 2016).
O desemprego no Brasil ampliou-se, chegando à casa dos dois dígitos. Em 2016 eram 10,2% dos trabalhadores fora do mercado de trabalho, maior taxa da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que começou em 2012, até então. Em números absolutos, isso representava 10,4 milhões de brasileiros, dado do trimestre dezembro, janeiro e fevereiro de 2016, uma alta de 40% em relação ao registrado no ano de 2015, no mesmo trimestre. No início de 2017, chegaria a 14,2 milhões de trabalhadores, também segundo o mesmo instituto. O impacto disso foi também um decréscimo geral nos salários dos brasileiros.