A importância atribuída à cultura, em especial aos santuários, visto como manifestação das crenças, colabora para que os conceitos, lugar e território, sejam destaque neste trabalho. A escolha justifica-se pelo contexto social e pela compreensão da produção do espaço. Lugar está relacionado à abordagem cultural, pois “[...] é a somatória das dimensões simbólicas, emocionais, culturais, políticas e biológicas”. (BUTTIMER, 1985, p. 228). Os símbolos e as emoções estão intimamente vinculados aos santuários.
De acordo com Callai (2000), lugar é específico e contrário ao movimento da globalização percebido na atualidade, é uma forma dos grupos não reagirem da mesma maneira, buscando a diferenciação, uma identificação. O lugar pode ser entendido como “desenvolvendo, ou melhor, se realizando em função de uma cultura/tradição/língua/hábitos que lhe são próprios, construídos ao longo da história”. (CARLOS, 1996, p.17).
As crenças religiosas colaboram para manter a tradição, uma construção histórica herdada dos antecedentes, na tentativa de manter as origens. Além de que, “a esperança das pessoas gira em torno de determinados lugares carregados de história e símbolos”. (BONNEMAISON, 2002, p.108). Afinal, “os lugares são como âncoras para as lembranças”. (SILVA, 2015, p. 30). Podem ainda ser:
[...] produto das relações humanas, entre homens e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade, posto que é aí que o homem se reconhece porque é lugar da vida. O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar liga-se indissociavelmente à produção de vida. (CARLOS, 1996, p.29).
O lugar representa uma construção, seja ela individual ou do grupo, que é produzido e se faz presente na memória. Para Nogueira (2013), o lugar traduz uma relação entre os sujeitos e o seu cotidiano, revelando a relação de existência humana, são eles, os sujeitos, que dão sentido aos lugares devido os sentimentos e a própria memória. Conforme Pollack (1992), os lugares de memória estão ligados às lembranças (pessoais ou não) e a memória pública onde podem existir lugares de apoio, que são os lugares de comemoração. (POLLACK, 1992).
Os locais destinados à manifestação das crenças, como os santuários, são lugares de memória, de comemoração, através das festas. A tradição se mantém
através dos mesmos cultos, aos mesmos santos, porém adaptadas os espaços físicos as necessidades turísticas e religiosas. Visto que “o presente é o resultado de uma contínua reinterpretação dos lugares, considerando-se o seu passado”. (MONASTIRSKY, 2006, p. 26), Silva (2015, p. 33) ressalta que “todos os lugares possuem funções e destinos distintos conforme o tempo em que estão inseridos”.
Os lugares não estão isolados, segundo Santos (2008, p. 273), “cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente”. Os santuários são lugares de memória, de tradição, mas fazem parte de uma rede juntamente com os demais santuários, sob a administração da Igreja que tem a função de manter em seu domínio sobre os fiéis e este poder denomina-se território.
O território pode ser abordado de acordo com diferentes concepções, entre elas: o vínculo com a sociedade-natureza e as dimensões sociais. (HAESBAERT, 2007). A dimensão social engloba a cultura, onde um de seus elementos é a religião, partindo para relação de afinidade, exercida pelos devotos e, ou visitantes; abrange ainda o poder, pois sua organização se dá a partir da Igreja.
Os santuários formam uma estrutura física da Igreja, onde além da crença o poder é exercido, e os grupos culturais tendem a investir fisicamente e culturalmente em um território, pois é “pela existência de uma cultura que se cria um território e é por ele que se fortalece e se exprime a relação simbólica existente entre cultura e o espaço”. (BONNEMAISON, 2002, p. 101).
O território é formado pela horizontalidade e verticalidade. O primeiro constitui os domínios próximos e, o segundo são os pontos distantes mais ligados pelos processos sociais. (SANTOS, 1998). Os santuários são pontos distantes fisicamente, mas todos estão ligados pelo processo de evangelização, um território dominado pela Igreja, em diferentes escalas formando uma rede. De acordo com Bonnemaison:
[...] um território é um conjunto de lugares hierárquicos, conectados por uma rede de itinerários. [...] No interior deste espaço-território, os grupos e as etnias vivem uma certa ligação entre o enraizamento e as viagens. (BONNEMAISON, 2002, p. 99).
Os santuários são hierarquizados e estão conectados, tem um elo comum, uma organização social e simbólica, fundamentada na crença. Nesta relação percebe-se que:
a soma de valores religiosos e morais que existem funda uma cultura se apóia geralmente sobre um discurso e, nas sociedades tradicionais, sobre um corpus de mitos e de tradições que, por sua vez, explica a organização simbólica dos rituais. E muitas vezes pelo rito que uma sociedade exprime seus valores profundos e revela sua organização social. (BONNEMAISON, 2002, p.102).
Destarte que os santuários surgem apoiados numa devoção a santos, assim, o itinerário do encontro com a imagem, revela o poder mágico manifestado em um lugar, remetendo a formação de geossímbolo, definido como:
[...] um lugar, um itinerário, uma extensão que, por razões religiosas, políticas ou culturais, aos olhos de certas pessoas e grupos étnicos assume uma dimensão simbólica que os fortalece em sua identidade. (BONNEMAISON, 2002, p.109).
Os santuários podem ainda ser reconhecidos como campos, pois para Bourdieu (1996) existem os campos de força e de luta. No primeiro, as necessidades se impõem aos indivíduos, no segundo, dependendo da posição dos indivíduos na estrutura do campo de força, pode contribuir para a conservação ou a transformação da estrutura. (BOURDIEU, 1996). No mesmo momento, prevalece o sentimento de pertencimento e às relações de poder, exercido social e culturalmente, configurando a organização espacial.
Cabe ainda nesta discussão o termo territorialidade, que é a tentativa de um grupo de influenciar e até controlar o outro em um “[...] processo de relações sociais, tanto econômicas, como políticas e culturais de um indivíduo ou de um grupo social”. (SAQUET e BRISKIEVICZ, 2009, p. 8).
Na construção da identidade, seja material ou imaterial, como exemplo, os templos, os rituais e as próprias crenças, há uma construção que envolve as relações-territorialidades. (SAQUET e BRISKIEVICZ, 2009). Para Corrêa (1998), a territorialidade abrange práticas e expressões materiais e simbólicas, que sob o domínio de um grupo social garante a apropriação e conservação do território.
Assim, os santuários são expressão material e simbólica. A devoção materializada é um símbolo para a comunidade que busca, no material e, ou espiritual, uma identificação com os demais em um espaço fixo, denominado de santuário, igreja. O grupo passa compartilhar da mesma religiosidade, porém, está sob o domínio social e cultural de um indivíduo, ou de um grupo que representa a Igreja.
Deste modo, inicialmente utilizando como base referencial os trabalhos acima mencionados (relacionados à: cultura, religião, santuário, patrimônio cultural, território e lugar), o próximo capítulo pretende conhecer as características do Santuário de Nossa Senhora as Brotas, a fim de melhor compreendê-lo no cenário cultural.
2. O SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DAS BROTAS
Este capítulo descreve o surgimento da devoção a uma santa chamada Nossa Senhora das Barracas, que após um acontecimento interpretado como milagroso passou a ser chamada de Nossa Senhora das Brotas. A notícia se espalhou e a santa retratada em uma estampa de papel passou a receber muitas visitas, entre elas, os tropeiros, que pernoitavam na região para fazer suas orações e pedir proteção.
Inicialmente a devoção foi em oratório familiar, mais tarde, com o crescente número de visitantes, foi construída uma capela. Em 1897, a Igreja, que neste período se encontrava no processo de romanização, toma para si a responsabilidade de cuidar e organizar, desde a devoção até a estrutura física no que diz respeito à santa. O local passou a ser chamado popularmente de Santuário de Nossa Senhora das Brotas (SNSB), cuja devoção propiciou o festejo realizado anualmente no dia 27 de dezembro em homenagem à santa, assim, a data passou a ser reconhecida em escala estadual e conta com a participação de vários devotos vindos de outras cidades.