Descrição da radicalidade das mídias da multiplicidade: “Uma mochila. Um laptop. Partindo do laptop, um cabo conectado ao iPhone. O sinal da rede 3G. Ou o wi-fi de alguém da redondeza. Às vezes um modem 4G conectado ao mesmo laptop. Está armada a ‘unidade móvel’ do Mídia Ninja”.
iv) Contra simplificações
Como adversária da complexidade, a democracia é um reino de simplificações do diverso. Quando considera a diversidade, o faz por exceção e/ou pressão, sempre reduzindo-o a um foco, a uma especificidade, a uma razão muito elementar. A exceção é vendida como a regra, signo da participação e liberdade. Está a ocorrer um paradoxo que Giuseppe Granieri, em Geração blogue (2006, p. 23) bem o explicitou quando confronta a democracia representativa com os desejos dos que se propõem a representar: “A complexidade, que se traduz sempre num problema de gestão das informações, é o primeiro inimigo da democracia”.
4 CARNEIRO, Felipe. A primeira revolução 2.0 acontece no Oriente Médio. Exame.com. 2011. Disponível em:
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0987/noticias/a-primeira-revolucao-2-0 Acesso em: 10 out. 2014.
O autor ressalta que a simplificação da democracia tornou-se um dispositivo para fazer silenciar ou ocultar as vozes dissonantes – chamadas a influir apenas a posteriori – naturalmente sem participação decisiva nas discussões. O “soft” desta democracia provém de um hard que foucaultianamente se chama governamentalização – poder do Estado no qual seu estado de coisa tem a população como objeto e tenta controlá-la com uma diversidade de dispositivos de segurança. Portanto, não se coaduna com a complexidade porque se reproduz engessando as multiplicidades numa fórmula como a da cama de Procusto, amputando “excessos”, ou esticando as insuficiências...
Nas dramáticas medidas do gigante grego, nunca se está na medida certa, posto que ele refaz permanentemente suas medidas acionando camas secretas: “Atividade que consiste em reger a conduta dos homens num quadro e com instrumentos estatais” (FOUCAULT, 2008b, p.
4). Ou seja, a democracia é uma cracia para um demo inexistente posto que idealizado por um “contrato” do qual não participou das feituras e farturas dos seus banquetes. Nos discursos dos filósofos moles, a democracia é transcendente aos próprios seres como o vento: é desejada e pode está em toda parte. A complexidade produz demandas que transbordam por diversos setores das sociedades e a democracia representativa, analógica, busca respostas pontuais com a renitente pretensão de captar uma realidade “objetiva”.
Para tanto, tem que reduzir o complexo à simplificação, independentemente do olhar – e fúria - do ser ator que reivindica. A tese da “impossibilidade de participação de todos” e que, por isso, é necessário constituir uma parte como átomo do social se contrapõe às próprias redes e aos potenciais das técnicas de compartilhamentos. A democracia representativa produz sua pauta tendente sempre a se territorizar e tornar-se conservadora em torno dos temas consensuados. Os nivelamentos são sempre considerando a realidade como matemática – o biopoder é exercido com as tecnociências para impor racionalidades tecnopolíticas.
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Negri afirma que a multidão não pode ser inclusa num contrato transcendental, ocorrendo, pois, de conflitar-se de forma incontornável com seus feitores:
A multidão não pode ser compreendida nos termos da contratualidade – e em geral nos termos da filosofia transcendental. No sentido mais geral, a multidão desafia a representação porque é uma multiplicidade, indefinida e não mensurável. O povo é representado como uma multidão, mas a multidão não é representável, porque é monstruosa em relação ao racionalismo teleológico e transcendental da modernidade (NEGRI, 2003, p. 125-126).
v) Atores sem face
Dadas suas contradições, mais forte que o ato seja o próprio exemplo. Embora ainda limitada à ferramentas de petição, abaixo-assinados online, ressalte-se, a novas formas de representação, a Avaaz organiza participações coletivizantes e formas novas ou renovadas de ver alternativamente o que pode existir. Movimentos com a criptografia revelam um potencial bem mais ameaçador. Associados ao hightech, geek-filósofos organizam movimento cujo atores não têm face – tais como os dos Cypherpunks5. Como entes novos de novas batalhas digitais, o Cypherpunks, constituído por ativistas e geeks revolucionários, desenvolvem códigos e influenciam políticas públicas em batalhas que vêem sendo travadas tanto na trincheira política quanto tecnológica – como a que deflagrou o WikiLeaks. O movimento articula as ações utilizando a criptografia e métodos similares como meio para provocar mudanças sociais e políticas. Julian Assange, o mais destacado filósofo geek, atualmente sob asilo político na embaixada do Equador em Londres, assim o descreve:
Os cypherpunks originais, meus camaradas, foram em grande parte libertários. Buscamos proteger a liberdade individual da tirania do Estado, e a criptografia foi a nossa arma secreta. Isso era subversivo porque a criptografia era de propriedade exclusiva dos Estados, usada como arma em suas variadas guerras. Criando nosso próprio software contra o Estado e disseminando-o amplamente, liberamos e democratizamos a criptografia, em uma luta verdadeiramente
5 Cypherpunk é uma derivação criptográfica de cypher (escrita cifrada) e punk, movimento de ativistas com
crenças sociais e políticas sobre rebelião, antiautoritarismo, individualismo, pensamento livre e descontentamento.
revolucionária, travada nas fronteiras na nova internet. A reação foi rápida e onerosa, e ainda está em curso, mas o gênio saiu da lâmpada. (ASSANGE et al., 2013, p. 22).
Em ação, guerrilhas por liberdade de expressão, resistência à vigilância, descontrole da censura na internet, defesa do direito do anonimato online. Enunciações de novas formas de fazer política, numa modelagem também nova em que se hibridiza a produção de hipertextos – rascunhagem geral de textos numa esfera conversacional sem síntese e com cada vez menos poder dos editores. É inepto perceber estes novos dispositivos dissociando-os das produções de subjetividades em autorias coletivas, da percepção do próprio poder que a multidão angaria nas experiências do fazer em comum.
vi) Recusa à síntese
O que de fato está ocorrendo é a recusa à síntese dialética da representação, a simplificação do diverso com o mantra insustentável de “todos iguais perante a lei”, a quebra do monopólio da informação e uma luta rizomática por outra democracia. Pois, como afirmam os filósofos-geek: o sol se põe na democracia do Primeiro Mundo (ASSANGE et al, 2013, p.
19). Qual democracia de um sol nascente? Na acepção de Negri (2003), uma democracia absoluta, das multidões, articulada nas eletricidades das redes, na produção de um antipoder. Ação de resistência, insurreição e poder constituinte do comando dos hominídeos.
4.3
D
EVIR DEMOCRACIASigno do tempo: não veio de uma guerra ou guerrilha, uma teoria revolucionária ou de uma intensa campanha, a desmoralização pontual da democracia do Império, mas de um sistema de comunicação: o WikiLeaks – organização que se destacou com a publicação de documentos secretos, revelando ao mundo o discurso farsa de democracia e dos seus reincidentes conceitos de nação, soberania, igualdade. O WikiLeaks é um movimento do
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bastidores dos teatros do Império, ao publicar suas tramas ultrassecretas: espionagens, assassinatos de reputação, submundo do dinheiro, corrupções e atentados, tendo como método a criptográfica6. Os movimentos ainda não têm uma pauta grandiloquente, sua grandiloquência é surpreender o establishment e desnudar seu conceitos ocos, produzindo encorajamentos coletivos.