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As participantes deste estudo são bilíngues e monolíngues moradoras de dois municípios situados na região sul do estado do Rio Grande do Sul. O grupo experimental é constituído por moradoras bilíngues de São Lourenço do Sul, cidade com aproximadamente 43.100 habitantes (IBGE, 2013), sede de colonização pomerana a partir do ano de 1858. Atualmente, língua e cultura pomeranas são preservadas no município, conforme discutido no Capítulo 2, fazendo com que a identidade pomerana constitua um traço característico de parte dos moradores. O grupo controle é composto por moradoras monolíngues da cidade de Pelotas, situada a cerca de 70 km de São Lourenço do Sul, com população estimada em 343.651 habitantes (IBGE, op. cit.), e que, em sua área urbana, não apresenta regiões específicas de imigrantes. Foram entrevistadas dez participantes, cinco bilíngues moradoras de São Lourenço do Sul e cinco monolíngues moradoras de Pelotas.

O número de participantes foi delimitado com base na extensão dos instrumentos de coleta, que apresentavam um elevado número de itens lexicais. Como um dos objetivos deste estudo é avaliar o papel de diferentes contextos linguísticos na produção dos grupos consonantais ‒ seção 6.3 ‒, optou-se pela elaboração de instrumentos de coleta mais longos, dotados de número considerável de estímulos, o que gerou robustez à base de dados.

Além da coleta de dados principal, envolvendo as dez participantes, uma segunda coleta de dados foi realizada com três participantes ‒ duas delas igualmente entrevistadas na coleta principal e uma que participou apenas desta etapa. Nessa segunda coleta, foram realizadas produções de grupos consonantais em pomerano, conforme será detalhadamente descrito na seção 5.3.3, a fim de verificar o comportamento da suarabácti na língua de imigração. Somando- se as duas coletas de dados, foram analisadas 2.281ocorrências.

Devido ao baixo número de sujeitos investigados, incapaz de preencher um número suficiente de células que permitisse a avaliação de fatores extralinguísticos como sexo e idade, optou-se por selecionar participantes do sexo feminino com idades superiores a 42 anos, conforme apresentado a seguir no Quadro 4, para que tais fatores não exercessem influência

nos resultados. A escolha por esse grupo justifica-se pela facilidade de acesso a esse perfil de participantes, já que, na zona rural de São Lourenço do Sul, as mulheres mais frequentemente trabalham em casa, estando mais disponíveis para participar das entrevistas, enquanto os homens trabalham fora, em lavouras ou comércios. Além disso, justifica-se a escolha de participantes mulheres por seu maior grau de contato com o pomerano, exatamente devido ao fato de que permanecem mais tempo no círculo familiar, conforme discutimos na seção 2.3.2, com base no trabalho de Tressmann (1998). Outras variáveis extralinguísticas, como escolaridade, não foram consideradas para a composição dos grupos, uma vez que não há, na literatura levantada, estudos que apontem para estigmas sociais relacionados à presença ou ausência das vogais suarabácticas, motivo pelo qual não seria esperada uma atuação dessa variável. Seu controle, além disso, restringiria demasiadamente os participantes aptos a integrar o estudo. O Quadro 4 sintetiza o perfil social das participantes da pesquisa.

Quadro 4 - Perfil social das participantes

Nome Grupo Idade Local de

nascimento Profissão Escolaridade

Cidades em que morou

M Monolíngue 60 anos Pelotas Balconista E. Médio

completo Pelotas

E Monolíngue 69 anos Pelotas Aposentada E. Médio

completo Pelotas

I Monolíngue 49 anos

Canguçu (mudou-se para Pelotas com um

ano)

Assistente social Ensino superior Canguçu, Pelotas, Manoel Viana, Alegrete, São Gabriel, Porto Alegre

A Monolíngue 56 anos Pelotas Dona de casa Fundamental

incompleto Pelotas

R Monolíngue 47 anos Pelotas Microempresária E. Médio

incompleto Pelotas

EL Bilíngue 60 anos São Lourenço do

Sul Comerciante

E. Médio completo

São Lourenço do Sul, Pelotas

G Bilíngue 55 anos São Lourenço do

Sul Servidora pública

Ensino superior

São Lourenço do Sul, Pelotas

IL Bilíngue 60 anos São Lourenço do

Sul Agricultora

E. Médio completo

São Lourenço do Sul, Pelotas

L Bilíngue 42 anos São Lourenço do

Sul Dona de casa

Fundamental incompleto

São Lourenço do Sul

V Bilíngue 65 anos São Lourenço do

Sul Aposentada Fundamental incompleto São Lourenço do Sul Fonte: O autor (2019)

O grau de contato com o pomerano foi atestado por meio de questionário social e de contato com a língua (Apêndice A), criado para esta pesquisa. Por meio do questionário, realizado oralmente em etapa anterior à coleta de dados, avaliamos a exposição das falantes ao pomerano e ao português, a fim de tomar conhecimento das línguas faladas e de suas frequências de uso. As participantes de Pelotas foram igualmente submetidas ao questionário, para avaliar seu grau de contato com uma segunda língua, o que poderia exercer influência em

sua variedade linguística. Nenhuma delas, entretanto, afirmou utilizar qualquer outra língua além do português. O Quadro 5 sintetiza as respostas fornecidas pelas participantes bilíngues a esse questionário.

Quadro 5 - Perfil linguístico das participantes bilíngues

Nome Línguas faladas Idade com que aprendeu

Contextos de uso na

infância Uso das línguas atualmente EL Pomerano, português, alemão, inglês (básico) pomerano e alemão: L1; português: 7 anos

alemão e pomerano eram falados com os pais; português: escola pomerano: no trabalho; português: em casa. G Pomerano, português pomerano: L1; português: 7 anos pomerano: casa e comunidade; português: escola

português: com a família; pomerano: em encontros com outros falantes. Uso diário de ambas as línguas. IL Pomerano, português, alemão (apenas compreende) pomerano: L1; português: 8 anos; alemão: 21 anos pomerano: casa e comunidade; português: escola

fala mais pomerano do que português. L Pomerano, português pomerano: L1; português: 7 anos pomerano: casa e comunidade; português: escola

pomerano: casa; português: no trabalho e com quem não fala pomerano. V Pomerano, português pomerano: L1; português: 7 anos pomerano: casa e comunidade; português: escola

português usado apenas com quem não fala pomerano, em poucas ocasiões.

Fonte: O autor (2019)

Conforme pode ser observado, as participantes apresentam como característica comum terem aprendido pomerano na primeira infância e português apenas na escola, além de, em sua maioria, utilizarem atualmente o pomerano com maior frequência do que o português. A única exceção é a participante G, que por ter-se casado com um monolíngue não ensinou a língua pomerana aos filhos e não a utiliza no ambiente familiar atualmente. Como convive em um bairro com muitos descendentes de pomeranos, utiliza a língua diariamente. Por outro lado, a participante que menos utiliza o português é V, que inclusive apresenta algumas dificuldades no uso da língua. Tomando por base o conceito de bilinguismo calcado no uso, propostos por Grosjean (2008; 2010) e discutidos na seção 2.3.1, estabelecemos, com base nas respostas fornecidas, que as cinco participantes moradoras de São Lourenço do Sul estariam aptas a compor o grupo das bilíngues, uma vez que utilizam as duas línguas rotineiramente.

As coletas ocorreram nas casas das participantes, em ambiente de relativo silêncio. Todos leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice B), viabilizando sua participação no estudo75.

75 A presente pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Pontifícia Universidade Católica

do Rio Grande do Sul em 26/01/2017, sendo aprovada em 22/03/2017, sob Parecer nº 1978342 e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 64117817.1.0000.5336

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