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QUESTIONS ECRITES

Dans le document 3 ' Séance du Mercredi 7 Novembre 1979. (Page 27-30)

Com relação a esta categoria, se faz necessário retomar traços que a fizeram se distinguir como uma ancoragem na perspectiva da TRS e da metodologia do DSC, que tem a primeira como teoria fundante. Tendo em vista que a ancoragem se distingue pelo fato de se encontrar nos discursos professados “manifestações linguísticas explícitas” de teorias, ideologias ou crenças na tentativa de “enquadrar situações específicas”, após análise mais fina, é possível

notar nesse discurso, a partir das expressões-chaves, um movimento de generalização de ideias pertencentes à corrente política do Autonomismo que permite articular nesse discurso pelo menos duas, das três funções das RS que dizem respeito (1) a interpretação da realidade e (2) a orientação de condutas e relações sociais (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2005; JODELET, 2009; MOSCOVICI, 2007). Assim, a ideia de que os princípios contidos na corrente autonomista, que reside no direito de todos os cidadãos participarem e deliberarem nas questões públicas e no seu ideal de cidadão ativo, em que, por conseguinte, se exige reconhecer às pessoas o direito e a possibilidade de atuar na vida pública, não só traduz a interpretação do mundo social por parte desse sujeito coletivo, como também o orienta nas suas condutas e em suas relações sociais.

Dessa forma, essa categoria de ancoragem, com uma frequência de 18,75%, reúne 4 das 16 ideias centrais que sublinham fortes traços de elementos orgânicos do campo autonomista atrelados a uma esperança de quebra de hegemonia político-partidária (pelo menos na forma em que se encontra na democracia dita representativa) em Salvador, por meio das manifestações. Nesse sentido, um dos traços do autonomismo mais relevantes dizem respeito a liberdade enquanto valor e objetivo político, especificamente no sentido de que as pessoas devem ter autonomia, dispor igualmente de direitos e, consequentemente, obrigações nos processos de deliberações que envolvam as condições de suas vidas e nas determinações destas condições, sem que haja um marco institucional que, em contrapartida limite ou negue esses mesmos direitos. Um outro traço igualmente relevante é a minimização dos inúmeros centros de poder na vida pública e privada, respectivamente associados ao estado e a sociedade civil (HELD, 2007). O sujeito coletivo desse discurso diz o seguinte:

A principal tarefa histórica da gente naquele momento, enquanto militante, era tentar reconstituir o processo organizativo desse campo autonomista. Me envolvi totalmente porque realmente era aberto, realmente não tinha partido dominando. Não tínhamos liderança estabelecida, eu não vou perder essa oportunidade de viver isso aqui, porque isso não vai acontecer de novo. Salvador é muito difícil, muito petista, muito lulista, até tem uma dependência muito grande dos aparelhos, dos sindicatos, do PT, dos partidos políticos e tudo que nasce por fora deles é rapidamente ceifado. Então, em 2013 foi bem legal, a gente conseguiu puxar atos com, sei lá, 20 mil pessoas, teve atos de 20 mil pessoas em Salvador, quase. Então foi muita gente, muita gente. Ato puxado sem grana, com pouca estrutura, há muito tempo isso não rolava em Salvador.

Basicamente é nesses dois pontos que se sustenta a fala desse sujeito coletivo para tratar do que esperava por uma quebra de hegemonia político-partidária, que diz respeito à uma tese onde se credita ao PT e suas coligações, uma grande influência em Salvador capaz de limitar os espaços de atuação e o recrudescimento de movimentos autônomos que se desviem de seus interesses, ou seja, que “tudo que nasce por fora deles é rapidamente ceifado”, se considerarmos o espaço temporal que compreende os anos de 2003 a 2013. Não obstante esse espaço de tempo

demarcar 10 anos de governo Lula (PT) na instância federal, e 6 anos de governo do mesmo partido no Estado da Bahia, essa não é uma tese de todo infundada. Especialmente, se consideramos os resultados das eleições de 2006 que, mediante a derrota de Paulo Souto ao que esperava ser seu segundo mandato, levara o candidato do PT, Jacques Wagner ao governo do Estado por duas gestões consecutivas, constatamos que o carlismo, elite política dominante até então, já dava sinais de definhamento (DANTAS NETO, 2008). De acordo com o cientista político Dantas Neto (2008), apesar de nas urnas de 2004 o carlismo tenha obtido cerca de 80% das prefeituras, um ano de governo Lula (desde 2003) somado a derrota eleitoral em 2006, remeteram ao passado a condição de hegemonia daquela elite política na Bahia e sua considerável influência em nível nacional.

Terreno propício para o desenrolar de alianças políticas que conectaram o PT à grande parcela da oposição baiana daquela época, formou-se, sob a liderança desse partido e com cooperação de aliados relevantes, um campo político favorável que se converteu em proeminente alternativa de poder. É importante destacar, nesse sentido, a relevância do PMDB tendo à frente Geddel Vieira Lima, ex aliado carlista e ainda bastante próximo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), que deu ao PT aqui na Bahia, acesso a novas áreas da geografia eleitoral, além de ter contribuído para “condições de governabilidade”95 no nível nacional, fato que o levou, inclusive, a ocupar a cadeira de Ministro da Integração Nacional do governo Lula, depois a vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, no governo Dilma, chegando ao cargo de Ministro de Governo na gestão Temer, pós impeachment dessa última presidente. Para fechar o parêntese Geddel, é bom registrar que o mesmo se encontra encarcerado, desde setembro de 2017, acusado por lavagem de dinheiro e associação criminosa, após ter sido encontrado o montante de 51 milhões de reais em um apartamento ligado a ele, no bairro da Graça, em Salvador, numa das operações deflagradas pela Polícia Federal.

Retomando as alianças engendradas pelo PT que o levaram ser uma alternativa de poder na Bahia, de acordo com Dantas Neto (2008), esta se deu a partir da convergência de 11 partidos políticos (entre coligados e apoiadores, formais e informais), possibilitando não só a

95 Não é preciso muito esforço para concluir os resultados das costuras de alianças com partidos tradicional e

ideologicamente opostos em prol das condições de governabilidade engendradas pelo PT, pois os fatos históricos que se desenrolaram a partir do segundo ano do governo Dilma falam por si, e falam até os dias de hoje, com a assunção (provavelmente planejada?) ao poder do, até então, vice-presidente Temer (PMDB), e o estado de crise das instituições, e de exceção, que tomou conta de todas as instâncias do país na sequência, bem como a onda constante de manifestações, polarizadas ou não, que se tornou lugar comum nas ruas e nas redes brasileiras. Mas esse é, provavelmente, outro tema de pesquisa que pode se converter em futuras teses e dissertações.

candidatura de Wagner, mas o benefício de outros fatores favoráveis como certa autonomia junto à presidência da república e atuação na política estadual “como um protagonista com ares de contra-elite” (p. 8). Esses movimentos a la “transformismo” que une tanto bases aliadas como adversárias, na maneira como o entendia Gramsci, ou seja, por meio de ondas reformistas moleculares que expressam a conciliação entre classe política dominante, por parte de elementos ativos ou grupos inteiros, e grupos representantes/lideranças de classes subalternas - como o é (ou era) o partido dos trabalhadores - no interior do aparelho estatal, ocasionaram a desmobilização, tanto das classes subalternas, quanto de movimentos sociais que viam no partido uma via de representação, defesa e execução de seus interesses na arena política.

E é nesse sentido que se refere a fala do sujeito coletivo em análise, quando aponta a dificuldade de recrudescimento dos movimentos sociais e de protestos de classes subalternas nos últimos anos que coincidem com a gestão do PT em âmbito local e nacional, e que sugere uma espécie de restrição consentida de atuação dos movimentos de base popular e sindical nas deliberações políticas. Dessa forma, à maneira de uma “hegemonia às avessas”, Oliveira (2010) parece ter razão ao afirmar que “[...]enquanto as classes dominadas tomam a ‘direção moral’ da sociedade, a dominação burguesa se faz mais descarada.”. Ou seja, não houve na gestão PT, grandes avanços na socialização da política, tampouco alargamento dos espaços de participação nas decisões para a população marginalizada, a despeito de pequenas inclusões e aumento do poder de compra de classes que até então não o tinham, o país continuou obscenamente desigual, vez que foi colocada de lado uma intensa e necessária redistribuição de renda, e não houve nenhuma reforma na e da política que suprimisse a persistência do patrimonialismo.

De um lado, aquele governo consegue desmobilizar movimentos sociais integrando-os à gestão nas instâncias administrativas do aparelho de Estado em nome de aparentes realizações de bandeiras históricas desses movimentos. De outro, emudecidas, as classes subalternas se veem emaranhadas na rede de dependência das políticas públicas, pois que se acham “[...] esgotadas por uma década e meia de cruentas lutas sociais ofensivas somada a outra década e meia de obstinadas lutas sociais defensivas.” (BRAGA, 2010). Em virtude disso é que, a partir de uma perspectiva de práticas autonomistas evidenciadas nas manifestações de 2013 em Salvador, esse sujeito coletivo se diz esperançoso com a quebra desse quadro hegemônico, ainda que às avessas, deveras instalado no âmbito político da capital. Contudo, parece que a esperança não ultrapassou o âmbito das quimeras utópicas, pois além de encontrar as dificuldades no campo da esquerda que já se distinguia como campo alternativo de poder na capital, encontraria naquele primeiro ano de mandato municipal de Antônio Carlos Magalhães

Neto (ACM Neto), estabelecida a demarcação de um campo oposicionista na Bahia, à frente do Partido Democratas (DEM), mais uma barreira para abertura de espaços de participação e interlocução para as reivindicações da multidão.

4.2 DSC 2 – NAQUELE MOMENTO QUAL O ARCO DE ATUAÇÃO DO MOVIMENTO?

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