Detalharemos, a seguir, a abordagem metodológica da História do Tempo Presente que utilizamos nesse estudo, apresentando as contribuições de alguns autores, bem como alguns estudos sobre Memória, para, em seguida, explicitar tipo e tratamento das fontes adotadas nesta pesquisa. Adotamos o aporte metodológico da História do Tempo Presente como campo de observação para esta pesquisa e como uma via para o exercício crítico da história da psicologia em relação ao presente. (BARROS, 2005)
A História do Tempo Presente é uma concepção de operação historiográfica, que tem estreita vinculação com a política, o que a torna relevante para a análise que pretendemos realizar. Isto posto, pode-se afirmar que,
[...] a marca central da História do Tempo Presente – sua imbricação com a política – decorre da circunstância de estarmos, sujeito e objeto, mergulhados em uma mesma temporalidade, que, por assim dizer, “não terminou”. Isso traz importantes consequências epistemológicas para o conhecimento que se deseja construir. (FICO, 2012, p. 45)
A noção de História do Tempo Presente foi adotada pelo historiador Pierre Nora (1993), que se norteou na revolução historiográfica inaugurada pela Escola dos Annales3. Pierre Nora seguiu uma trajetória oposta à história imóvel e ressaltou a importância dos estudos sobre o tempo presente. Sua obra trouxe inovação historiográfica ao revisar os períodos históricos, introduzindo a história contemporânea no fazer historiográfico, a partir da perspectiva de que, mesmo em se tratando de Idade Média, faz-se história contemporânea.
A relação social com o tempo redefiniu a discussão historiográfica e essa virada é chamada de o ponto crítico pela Escola dos Annales. Posteriormente, a história do tempo presente foi retomada pelo historiador René Remond, juntamente com outros historiadores, como François Bédarida, Jean-Pierre Rioux, Henri-Irénée Marrou, André Mandouze e Jacques Julliar. (DOSSE, 2012)
3A Escola dos Annales é um movimento historiográfico que se constituiu em torno da revista francesa Annales d'histoire économique et sociale, fundada em 1929 por Lucien Febvre e Marc Bloch e que se denomina História Nova, tendo se destacado por uma crítica à história então existente, por incorporar métodos das Ciências Sociais à História, pelo caráter interdisciplinar de fazer história e pela concepção de fato histórico tomado como uma construção do historiador a partir dos documentos. Uma segunda geração da Escola dos Annales, representada por Fernand Braudel surgiu após a Segunda Guerra Mundial e definiu métodos e categorias para estudar o tempo de longa duração. A partir de 1968 surge uma terceira geração da História Nova que privilegia uma nova concepção sobre o documento e novas fontes para a construção da narrativa histórica. Representam essa terceira geração os historiadores Jacques Le Goff, Philippe Ariés. George Duby, Jean Pierre Vernant, Roger Chartier. (BURKE, 1991)
A partir de quando se pode falar em tempo presente? É uma pergunta que se impôs aos historiadores, remetendo-os à questão da periodização, da delimitação temporal. A Segunda Guerra Mundial, a Grande Depressão, a queda do muro de Berlin, o Holocausto, as ditaduras militares e terroristas na América Latina seriam eventos traumáticos possíveis de impulsionar a reflexão sobre a História do Tempo Presente. Não há acordo entre os historiadores sobre o momento de iniciar uma cronologia própria da história do tempo presente, seja em plano mundial ou nacional. (IBARRA; CARRERA, 2010)
Tais definições estão obsoletas, diante da percepção da não linearidade do tempo e da pressuposição de uma unidade temporal que delimita a relação sujeito e objeto, considerando que a cronologia não é o caminho mais adequado para agregar uma especificidade à História do Tempo Presente, que estaria mais vinculada a elementos históricos, como a sobrevivência de protagonistas e participantes, a memória social viva ou a contemporaneidade entre o historiador e o passado do qual se ocupa, que inaugurou um novo regime de historicidade, do tempo presente. (HARTOG, 2013)
De todo modo, a delimitação do campo da História do Tempo Presente está conectada à análise de processos sociais traumáticos, como ditaduras, terrorismos de Estado, genocídios, que interpelam a sociedade (IBARRA; CARRERA, 2010) O marco fundamental que delimita a História do Tempo Presente é um momento traumático da história e resulta ser significativa pela dificuldade de tratamento e por marcar a consciência de várias gerações posteriores. A História do Tempo Presente analisa processos inacabados, em desenvolvimento, como é o caso da história política brasileira, no que se refere ao período ditatorial.
Uma característica fundamental da História do Tempo Presente é a importância do testemunho. Fico (2012) ressalta as consequências epistemológicas advindas da imbricação entre sujeito e objeto numa mesma temporalidade, sendo a principal delas, o estatuto do testemunho, seguida pela questão da neutralidade ou imparcialidade diante de objetos temporalmente próximos do historiador. A pesquisa histórica remonta a duração de uma vida humana, com testemunhas vivas, uma história ‘sob vigilância’, com testemunhas capazes de contestar registros históricos, favorecendo a relação entre História e Memória.
A diferença entre Memória e História, foi posta por Halbwachs (1990) na primeira metade da década de 1950. Halbwachs preocupou-se em fornecer uma teoria interpretativa sobre a memória coletiva. Para ele, a história começa no ponto onde termina a memória. Halbwachs analisou, as noções de memória individual e memória histórica, sendo a primeira, uma memória interna, pessoal, e a segunda, externa, social ou histórica. Cardoso (2010) assinala a inadequação do termo “memória histórica”, por associar dois termos que são excludentes e o
uso do termo por Halbwachs para se referir a uma memória social, diferenciando-a de uma memória individual.
A memória é a presença do passado no presente, sempre reconstituída no presente, e por isso interessa aos historiadores do tempo presente. Para Rousso (1998), a memória é
[...] uma reconstrução psíquica e intelectual, que acarreta de fato uma representação seletiva do passado, um passado que nunca é aquele do indivíduo somente, mas de um indivíduo inserido num contexto familiar, social, nacional. Portanto, toda memória é, por definição, ‘coletiva’. (ROUSSO, 1998, p. 94)
Enquanto a História é registro, problematização, crítica e reflexão, a Memória vivencia de modo inconsciente e absoluto. Pierre Nora (1993) buscou elementos para localizar a memória historicamente, elaborando a noção de lugares de memória que expressam o movimento de resgate dos sinais de pertencimento grupal. O trabalho com a memória tornou- se indissociável do trabalho do historiador do tempo presente. (LE GOFF, 2003). Essa tendência fez ressurgir o interesse pela narrativa na escrita da história e a memória deixou de ter uma ênfase no individual, para ser entendido como uma manifestação coletiva, no dizer da historiadora Lucileide Costa Cardoso.
[...] Como obra coletiva e dinâmica, a memória remete a todo um universo ideológico no qual são equacionados dialeticamente os valores passados e presentes, rompendo a concepção linear do tempo histórico, permitindo uma avaliação mais rica das diversas formulações sobre o real e revelando, ainda, as exigências de um presente manifesto que permite dar ao passado um significado específico. (CARDOSO, 2010, p.155)
Os elementos constitutivos da memória, individual e coletiva, são os acontecimentos, os personagens e os lugares. Os acontecimentos são aqueles vividos pela pessoa em particular, os acontecimentos vividos pelo grupo ou coletividade e os acontecimentos, que, para além do espaço-tempo de uma pessoa ou grupo, se situam no campo da memória, através da socialização política ou da socialização histórica. Para Pollak (1992), é bem possível que, por meio da socialização política ou histórica ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado “[...] tão forte que podemos falar numa memória quase herdada.” (POLLAK, 1992, p. 201)
Além dos acontecimentos, os personagens são entendidos tal e qual os acontecimentos, havendo aqueles encontrados pessoalmente, aqueles conhecidos indiretamente, que se tornam quase conhecidas e aqueles que não pertenceram ao espaço-tempo da pessoa e que são tomados
como um contemporâneo. Sobre os lugares, o autor enfatiza os lugares de memória, que podem ser aqueles lugares particularmente ligados a uma lembrança pessoal e que permanecem muito forte na memória da pessoa, independentemente do tempo cronológico, como um lugar de férias, por exemplo; pode ser uma memória mais pública, como lugares de comemoração; podem ser lugares de reverência a seus entes, como os monumentos aos mortos; podem ser locais fora do espaço-tempo de uma pessoa, locais longínquos, que constituem a memória de um grupo e da própria pessoa pertencente àquele grupo, como por exemplo a memória de uma cidade ou país em que se viveu no passado.
Os acontecimentos, personagens e lugares estão associados a acontecimentos, personagens e lugares reais, “empiricamente fundados em fatos” (POLLAK, 1992, p. 202), como também podem ser decorrentes dos fenômenos de projeção e transferência. Como é o caso de pessoas que vivenciaram grandes tragédias e/ou construíram memórias a partir da memória familiar ou grupal. (POLLAK, 1992) As lembranças mantidas por um indivíduo ou grupo são compostas por elementos, personagens e lugares, marcam a identidade dos indivíduos, dão conformação à coletividade, ganham destaque e são incorporadas às narrativas grupais. (FERREIRA, 2018)
Desse modo, a História do Tempo Presente e os estudos sobre Memória contribuíram como uma perspectiva metodológica para interpelar os agentes históricos integrantes desta pesquisa (psicólogos, docentes e discentes), na realidade sociocultural de Salvador, Bahia, tendo como objeto de estudo a psicologia, enquanto disciplina e campo profissional, atravessada por uma conjuntura política ditatorial iniciada em 1964. No próximo tópico, apresentaremos os tipos de fontes adotados nesta pesquisa e o detalhamento metodológico dado ao corpus documental.