• Aucun résultat trouvé

Questionnaire FCIL adressé aux DAFPIC/DAET par internet

Dans le document L'adaptation locale des diplômes (Page 37-45)

Partie III : Enquête de terrain exploratoire sur les différentes formes d’adaptation locale de l’offre de

Annexe 1 Questionnaire FCIL adressé aux DAFPIC/DAET par internet

Importante papel na preparação de Reyita para a vida desempenhou Emiliana, sua avó paterna conhecida por Mamacita. Nascida em Cuba, de família livre urbana,

21 Sobrenome de seus donos. Eles tinham o direito de apagar os nomes e os sobrenomes de seus

escravos para atingir a sua identidade e rebaixar-lhes a auto-estima. Após a abolição um irmão de Reyita solicitou oficialmente a mudança do sobrenome materno da família e escolheu o sobrenome “Bueno” (“Bom”, em português).

22 Lei aprovada em julho de 1870 que estabelecia uma suposta liberdade aos escravos que

nascessem após a promulgação da mesma. Essas crianças deveriam continuar trabalhando para o fazendeiro até completar a maioridade. A abolição definitiva da escravidão em Cuba aconteceu, finalmente, em 1886.

23 Torturas infligidas aos escravos. “Couro” era o nome popular do chicote feito com a pele do boi

e o “cepo” estava composto por duas pesadas tabuas de madeira com três buracos através dos quais se passavam a cabeça e os braços do castigado, obrigando-o a permanecer imobilizado durante dias.

29 casou-se com um carpinteiro também negro a contragosto da sua própria família que desejava que o fizesse com algum branco. Ela era uma mulher sem preconceitos, sem complexos raciais e de elevada auto-estima, segundo a descrição que dela faz a neta25. Teve com ele sete filhos (o último seria o futuro pai de Reyita) e todos juntos se incorporaram à primeira guerra de independência que fracassou após dez anos de iniciada. Como o marido morrera durante a contenda ela teve que assumir sozinha o sustento de seus sete filhos durante o período de paz que sucedeu à guerra:

(...) regressou a Santiago. Desde aquele momento começou uma dura luta pela vida, tinha que garantir casa e comida para ela e para seus filhos. Mamacita era de caráter muito forte e conseguiu que os filhos aprendessem um ofício. Ela se dedicava a fazer doces para vender, tanto na casa como na rua; também punha mesinhas para vendê-los nos dias de festa em Santiago e em outras cidades pequenas26

Durante uma festa de São José, patrono do povo La Maya, onde ela vendia doce, conheceu Pancho, dono de um pequeno sítio, homem branco com quem se uniu maritalmente, mas sem casar-se e sob a hostilidade da família dele. Mamacita e seus filhos foram para o sítio.

Quando se iniciou a segunda guerra de independência (1895) Pancho emigrou com sua família branca, mas Mamacita decidiu incorporar-se outra vez, com todos os seus filhos, às forças libertadoras. Dois deles foram capturados e morreram nas prisões espanholas em Ceuta, África. Um filho virou capitão, o pai de Reyita, sargento, e os demais, soldados. Finalizada a guerra ela regressou com sua prole ao sítio abandonado e o fez prosperar novamente. Até que já mais velha, e quase sozinha, foi morar com um dos seus filhos casados.

Um lar estruturado no sentido comumente aceito pela sociedade é visto em todas as sociedades como um espaço de paz.. É também uma garantia de coesão social e de segurança e desenvolvimento multilateral da prole. Em vários momentos do seu relato, Reyita mostra o descontentamento que sentia, quando criança, com a desestruturação de sua família nuclear e se refere seu desejo de constituir, quando fosse adulta, uma família unida e estável. Diria para a entrevistadora:

Eu nunca esquecerei Mamacita. Ay, minha filha! Se sempre tivesse morado com ela, que distinta teria sido minha vida! Não haveria sofrido

25

Rubiera, p. 37.

30 tantos vexames e maus tratos e, sobretudo, não teria que rolar tanto, da casa de um familiar para a casa de outro27.

Mas esses lares sem presença masculina permanente propiciam a existência de um tipo de mulher também diferente do modelo oficial. Neles, a função provedora é realizada pela mulher e a autoridade concomitante fica também em suas mãos. A sua preparação para exercer essas funções, que já tinham sido experimentadas em famílias poligínicas de diferentes regiões da África, foi transmitida pela via familiar. Na África a mulher lavrava a terra, mas também elaborava e vendia produtos alimentícios. As vendedoras de alimentos tinham uma presença permanente nas cidades angolanas.

Não pode ser esquecido que muitos dos africanos trazidos à América vinham de regiões onde se realizavam grandes transações comerciais desde muitos séculos atrás. Os povos ao Sul do Saara, na região mais ocidental do Continente, participavam do comércio com as regiões do leste africano, com árabes e, em ocasiões com europeus e asiáticos, muito antes de se iniciar o processo de dominação de suas nações.

Nas fazendas a mulher negra era utilizada em diferentes funções, desde as domésticas até o extenuante corte de cana. Com tal histórico, ela acumulou uma ampla experiência sobre como tirar proveito do mundo do trabalho para sua sobrevivência e a de sua prole.

A disposição para o trabalho era permanente. Para a população negra pobre, feminina ou masculina, não havia outra opção. Reyita menciona que sua avó materna, após a abolição, trabalhou junto ao marido na preparação de um pedaço de terra que ele conseguiu para cultivá-la. A outra, a paterna, também trabalhou no campo até ficar bem idosa e complementou a renda com a venda de produtos caseiros. Isabel, depois da guerra de independência, volta à vida civil e deve cortar cana. Uma das tias que amparou Reyita e a levou para sua casa, deixava-a acorrentada junto a uma mesa, como um pequeno animal, porque tinha que sair cedo para o campo. Ela rememora:

Não posso lembrar bem como foi a minha vida na casa da tia Casilda, lá por 1906. Só tenho claro que como ela morava sozinha e tinha que trabalhar no campo e atender seus animais, de manhã, quando saía, me deixava amarrada ao pé da mesa, me punha uma vasilha com água e outra com comida. Ai eu fazia minhas necessidades, dormia, acordava,

31 até que ela chegava à tarde, ay, Deus...! Então me soltava, me dava banho, me dava o que comer, me deixava andar pela casa até a hora de dormir. Minha tia me queria muito, mas não podia fazer outra coisa; era a luta pela vida que a obrigava a fazer aquilo, tinha que trabalhar para se sustentar e sustentar-me28.

Quando se lêem as referências que Reyita faz aos trabalhos realizados pela família e, ao mesmo tempo, se presta atenção ao estado de ânimo que ela deixa transluzir quando fala de cada caso, é possível compreender que, para ela, o trabalho pode constituir-se tanto em motivo de satisfação porque dele sairia o sustento familiar e, por conseguinte, a possibilidade da reunificação de toda a família sob um mesmo teto, quanto em motivo de tristeza pela frustração das suas expectativas após tantos esforços empenhados. A pobreza, a exclusão social e racial e o tipo de relação matrimonial praticado pelo pai, conspiram para dificultar a vida familiar e roubam, de quebra, a infância da menina. Com perceptível tristeza conta para a filha uma seqüência de esperança e frustração:

(...) um dia chegou tua avó para buscar-me. Íamos viver novamente com meu pai noutro monte. A irmã dele tinha-lhe dado um pedacinho de terra num lugar chamado “Los Caguairanes” – perto de Cuatro Caminos -, onde ele fez uma casa de folhas de palma e convenceu tua avó de que ele tinha mudado. Ela acreditou nele e se juntaram outra vez. Com eles foi tua tia Maria e eu (...)

Era começar uma nova vida, preparar a terra para plantar, criar animais. Tu não tens a menor idéia de como era aquilo, o que é viver no meio do monte, sem vizinhos, sem luz elétrica, pegando água do rio, carregando lenha. Porque para os pobres - e ainda mais, para os pobrezinhos – os filhos nunca puderam ser crianças, e muito menos podiam brincar; seu jogo era trabalhar quase desde que aprendiam a caminhar. A isso nos dedicamos para acondicionar aquilo, embora fosse só para sobreviver. Quando mais contente estava minha mãe, teu avô foi trabalhar longe, nas minas de “El Cuero”, e não voltou. Esse era um problema que tinham as famílias pobres e, sobretudo, as negras: os maridos iam trabalhar longe e

32 na maioria dos casos não regressavam. Minha mãe, Maria e eu trabalhávamos até a exaustão, e vivíamos. Que tremendo esforço ela teve que fazer para nos manter, atender o plantio, os poucos animais que tínhamos, e, ainda mais, grávida de novo. Mas tua avó não tinha sorte: ao ir embora meu pai, a sua irmã lhe tirou o pedacinho de terra.

Conservo na memória o dia que nos fomos... O caminho real, as sacolas com a pouca roupa que tínhamos, um bode, e, na saída, um novo membro da família: José Maria, “Cuto”, meu irmão mais novo.

A pobreza extrema e a instabilidade recorrente, não foram suficientes para abalar essa família, nem essa parcela da população que, esperançosa na República, continuou despregando criatividade, esforços, trabalho de todo tipo para ajudar-se a viver. Neste cenário, a herança cultural foi, possivelmente, a arma mais eficaz na luta pela sobrevivência.

1.3. Relacionamento entre os principais setores raciais do país. O

Dans le document L'adaptation locale des diplômes (Page 37-45)

Documents relatifs