Chapitre I. Perspectives théoriques
1. La question trans*
A queda de dois aviões lotados de passageiros num curto espaço de tempo e uma crise que
levou a atrasos e cancelamentos com passageiros precisando pernoitar em aeroportos sem
perspectiva de embarque. Até transplantes deixaram de ser realizados porque não havia vôos
para embarcar os órgãos dos doadores, aspectos do drama humano fartamente explorado pelos
jornalistas. A crise do setor aéreo brasileiro manteve-se como assunto relevante em todo o
período de análise. Familiares de vítimas, especialistas em aviação, a Agência Nacional de
Aviação Civil, além dos representantes do Executivo (como o ministro da Justiça),
Legislativo (com CPIs na Câmara e no Senado) e das Forças Armadas tornaram-se fontes
recorrentes do assunto de fundo político.
O noticiário sobre os problemas da aviação brasileira é bem mais diversificado de atores, de
responsáveis pela situação e de locais de abordagem. Nele, observa-se o frenesi apontado por
Wolfsfed para noticiar toda e qualquer informação que parecer ter alguma ligação com a
notícia em si. “Uma vez identificada a onda, a imprensa inicia mecanismos intensos de
pesquisa em busca de qualquer informação e eventos que possam ser relacionados à
história”.
3434 “Once a wave has been identified, the news media become massive search engines looking for any information and events that can be linked to the story.” (WOLFSFELD, 2001, p.229)
Além de Brasília, com destaque para as reportagens sobre as Comissões Parlamentares de
Inquérito e posicionamentos oficiais, como o do ministro da Justiça, São Paulo e Porto Alegre
também aparecem como praças de onde as reportagens são fechadas. Porto Alegre,
especialmente nos enterros e nas manifestações de amigos e parentes das vítimas do acidente
com o Airbus da Tam
35. São Paulo, por ser o local onde aconteceu o acidente e também pelas
críticas à pista do Aeroporto de Congonhas e à reformulação da malha aérea que passa por ali
e também ajustes e novas normas para pousos.
Figura 4: Selo crise aérea – avião em chamas
Outro aspecto interessante é que a amplificação da onda não é medida só pelo espaço
dedicado ao fato, mas também à forma exagerada e ao tom emocional durante a cobertura. No
caso da crise aérea, o drama tomou contornos de comoção e problemas estruturais dos
aeroportos – que sempre existiram – passara a ser vistos como ameaças assustadoras à vida
dos passageiros. E a cobrança por soluções com a justificativa de evitar novos episódios
trágicos foi tratada muito além dos aspectos técnicos (WOLFSFELD, 2001, p. 237 e 238).
35 No dia 17 de julho de 2007, o Airbus A320 da Tam que fazia o vôo 3054 (Porto Alegre – Congonhas/SP) escapou da pista e chocou-se contra um prédio da Tam Express. Morreram 199 pessoas, os 187 passageiros e tripulantes que estavam no avião e outras 12 atingidas em solo. À época foi o pior acidente aéreo da história da
A diversidades de pontos de abordagem, já que ainda corriam as investigações sobre o choque
entre o Boeing da Gol e o jato Legacy na Amazônia
36, resultou também na variedade de
temáticas das reportagens da crise aérea. Havia até mesmo selos diferentes para classificar as
reportagens sobre a crise. Um com uma aeronave em chamas, outro com um painel de
aeroporto indicando apenas vôos atrasados ou cancelados e um terceiro para a CPI do setor
aéreo.
Gráfico 4: Ondas políticas da crise aérea
Outro ponto de destaque é o papel dos jornalistas na divulgação e consequente
institucionalização e cristalização de expressões. A crise no setor da aviação brasileira ganhou
o apelido de “apagão aéreo”, insistentemente repetido nas reportagens e também nos espaços
de destaque. O fenômeno acontece em muitas situações. “O aparecimento e, sobretudo, o
sucesso de uma expressão como a de ‘terceira idade’ era inseparável de um verdadeiro
trabalho de legitimação pela imprensa e, sobretudo, pelo Estado” (CHAMPAGNE, 1996,
p.23). Neste caso, políticos de oposição tiveram forte contribuição para que o termo se
popularizasse.
36 Em 29 de setembro de 2006 um Boeing 737-800 da Gol com 154 pessoas a bordo, que fazia o vôo 1907 (Manaus – Brasília) chocou-se com um jato Legacy. O Boeing caiu e ninguém sobreviveu e o Legacy conseguiu fazer um pouso de emergência. Foi o maior acidente da aviação brasileira até que aconteceu o do Airbus da Tam. A queda foi o ponto de partida para a crise aérea, com sucessivos atrasos e cancelamentos, especialmente no feriado de finados (2 de novembro) daquele ano.