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1. Introduction

2.5. Question de recherche

As publicações consultadas tendo a charge como foco, abordam aspectos históricos, linguísticos, enunciativo-discursivos, didáticos para aplicação em sala de aula, intertextuais, polifônicos e aspectos ideológicos. Não encontramos um escrito dedicado exclusivamente à enunciação da charge, embora dentre vários haja pontos de interseção importantes, como na

análise de Riani (2002) sobre os Salões de Humor de Piracicaba, com fundamentação Bakhtiniana, principalmente em relação às noções de dialogismo e polifonia, com análises

perspicazes sobre a multiplicidade de vozes na charge.

A obra histórica mais referenciada é a História da caricatura no Brasil, de Herman Lima (1963), que tem 910 ilustrações e 1.798 páginas distribuídas em quatro volumes. É uma obra

descritiva, sem qualquer pretensão teórica de explicitação de fenômenos enunciativos. Gonçalo Júnior (2006), diz que é um projeto único no mundo – um trabalho clássico –, somando história do humor gráfico, biografias e trajetória do jornalismo brasileiro. Sobre a obra, diz Manuel Bandeira (apud JÚNIOR, 2006, p.187): “Ainda que não fosse tão valioso estudo sobre a arte que, entre todas, é a que mais particularmente castiga rindo os costumes, só as cópias das ilustrações insertas justificaria a sua aquisição”. Lima (1963) é um biografista

detalhista, que descreve minúcias, conta casos, e aponta curiosidades sobre a história dos biografados, sua importância, onde publicou, e qual a característica principal dos caricaturistas45. Em Lima (1963) o termo caricatura seria o hegemônico, o que abrigaria as

demais categorias do humor gráfico.

Em Letras & comunicação (AZEREDO, 2001), há três textos46 que têm a charge como objeto de análise, porém tratam, respectivamente, de aspectos semânticos, de processo de criação – de fato uma mesa redonda com dois chargistas, e de recursos linguísticos aplicados à charge. Em todos eles há material empregado na presente tese. No artigo de Valente (In: AZEREDO, 2001, p.138-150), p.ex., ele identifica o emprego nas charges de propriedades que a palavra

tem de assumir vários significados num dado contexto, empregando recursos quanto aos aspectos polissêmicos, de homonímia e de sinonímia; e também os de antonímia e de paronímia, todos para obtenção de efeitos de humor. A mesa- redonda com os chargistas Ique

e Aroeira, sob a coordenação de Valente (idem, p.151-171), reproduz uma conversa com os dois artistas, que contam casos, explicam algumas técnicas de ilustração, e falam de aspectos

de seus processos de criação, porém, na mesa-redonda, não houve qualquer preocupação de teorizar o fenômeno enunciativo, tendo o condutor evitado, de propósito, qualquer

45 Lima trata por caricatura o desenho de humor, sem fazer distinção genérica em relação à charge, ao cartum e à ilustração, usando quase que indistintamente os termos. Diversas vezes, chama a caricatura de “portrait- charge”, referindo-se ao desenho cômico de personalidades.

46 Apresentados como conferências ou como participações em mesas-redondas durante o V Fórum de Estudos Linguísticos da UERJ, em outubro de 2000.

“cientificismo”, como relata (p.171). No artigo Charge: imagem e palavra numa leitura burlesca do mundo, Oliveira (In: AZEREDO, 2001, p.265-276), parte do princípio de que,

assim como o cronista, o chargista parte de um fato e, ao produzir textos híbridos com desenhos e palavras, para compor a discursividade do autor, são empregados jogos linguísticos. Oliveira diz que “da fonética à sintaxe nada escapa ao artista, que deseja dobrar a língua ante uma perspectiva humorística” (p.268), ao empregar intencionalmente ou não o uso

de algumas estratégias linguístico-discursivas como intertextualidade, jogos semânticos, e malabarismos léxico-sintáticos. Nesse trabalho a pesquisadora revela alguns recursos recorrentes na Língua Portuguesa que são usados de forma crítica e divertida – como siglas,

prefixos e sufixos; subversões morfológicas e fônicas; encobrimentos [elipse/ocultação]; ambiguidades e neologismos; e subversão da concordância. Oliveira (In: AZEREDO, 2001),

mostra charges onde há as ocorrências citadas, porém, pelas limitações de espaço em que enuncia seu trabalho ela não se dispõe a sistematizar ou apresentar um aparato de análise. Mesmo assim, o trabalho da autora é importante para a presente tese, ao contribuir para

identificar o lugar da intervenção surpreendente; e a nomeá-los adequadamente. O Dicionário de Linguística da Enunciação (2009), após anotar as proposições de duas

correntes colocadas por Fuchs (p.14): a neoestruturalista, com os trabalhos de Bally, Benveniste e Culioli, e a clivagem nesse campo com uma distinção interna colocada por Dahlet (idem), que daria origem a dois outros domínios: a perspectiva indicial, que inclui Charles Bally e Èmile Benveniste; e a operatória, que inclui as teorias de Gustave Guilhaume

e Antoine Culioli. Porém, o Dicionário de Linguística da Enunciação (2009, p.15) também faz a própria divisão geral do campo da enunciação, segundo o critério da existência, ou não,

de um modelo de análise. Desse modo, são agrupados:

– Bréal, Bally, Benveniste e Bakhtin – que, embora sejam considerados fundadores do campo, refletiram sobre a enunciação, porém, “a teoria que esses autores autorizam é, em boa parte,

derivada da leitura do conjunto de seus escritos e não do estabelecimento explícito de uma metodologia”;

– Jakobson, Ducrot, Authier-Revuz, Culioli e Hagège – formam o grupo de autores cujas propostas teórico-metodológicas de análise enunciativa são explicitamente elaboradas e,

muitas vezes, reelaboradas; e

– o grupo de autores que, mesmo sem propor uma teoria própria, se vale de teorias da enunciação para uma descrição bastante original de fenômenos enunciativos. É o caso, por

exemplo, da reflexão acerca da paráfrase desenvolvida por Catherine Fuchs.

Estamos respaldados pela defesa de Faraco (2001) do “frescor heurístico” do pensamento de Bakhtin, visto que este pensador é convocado para a AD como um problematizador que contribui para que se perceba “mais claramente a existência da multivocalidade como marca

característica dos discursos, no sentido de que os enunciados de cada discurso têm um percurso que faz com que carreguem a memória de outros discursos” (p.29). Desse modo, concordando com Faraco (2001), operamos com o pensamento do Círculo de Bakhtin, sob uma interlocução produtiva, que irá direcionar dialogicamente a construção de um aparato de

análise.

2 CONCEPÇÃO DE CHARGE E SEUS ELEMENTOS

CONSTITUTIVOS