Ver é um fenómeno natural, um conceito familiar e um ato aparentemente simples, que é difícil descrever, destacando-se, por um lado, o seu funcionamento e, por outro, a sua ausência ou a sua alteração (Gregory, 1968; Ladeira & Queirós, 2002).
A visão é a função do olho, órgão par do sistema visual (Martim, 2003). Os olhos alimentam o cérebro com informações codificadas sob a forma de atividade neuronal – correntes de impulsos elétricos, que representam os objetos e estímulos do meio envolvente. Por conseguinte, os olhos não produzem imagens no cérebro como se poderia pensar numa primeira análise (Gregory, 1968; Ladeira & Queirós, 2002), mas 80% da informação proveniente do mundo exterior passa pelos nossos olhos (Johanne et al., 2002; Martim, 2003).
A visão é uma função sensorial que, através de um complexo e longo caminho, compreende a receção sensorial das imagens pelos olhos, a sua transmissão pelas vias óticas e a sua interpretação pelo córtex cerebral occipital. Mais precisamente, a visão começa com a entrada dos raios de luz no olho através da córnea, que constitui o primeiro tecido transparente do olho. Esta informação é reconhecida pelas células fotorrecetoras da retina (cones e bastonetes), transmitida pelas vias óticas ao córtex cerebral que, em integração com a informação preexistente arquivada na memória, interpreta os estímulos recebidos (Gregory, 1968; Johanne et al., 2002; Ladeira & Queirós, 2002; Martim, 2003).
Assim, como referem Ladeira e Queirós (2002) “a função visual consiste na competência que os indivíduos possuem para conseguir recolher, integrar e dar significado aos estímulos luminosos captados pelo olho” (p.18). Quase todos os seres vivos são sensíveis à luz, sendo esta necessária para a visão. Os olhos mais simples e mais primitivos apenas reagiam à luz e às variações da intensidade luminosa. A perceção da forma e da cor esperou por olhos com maior complexidade e cérebros suficientemente diferenciados para interpretarem esses sinais neuronais (Gregory, 1968).
O olho, apesar de frágil, está bem protegido pelas cavidades ósseas, denominadas de órbitas, pálpebras, cílios e lágrimas (Johanne et al., 2002). Na
metáfora de Gregory (1968) “as lágrimas humanas são uma reconstituição do oceano primitivo que banhou os primeiros olhos” (p.28).
O olho gira livremente em todas as direções devido aos seis músculos extrínsecos de cada globo ocular. Têm como objetivo otimizar a informação visual sobre a retina, mantendo a imagem centrada na fóvea, de modo a seguir objetos que se deslocam ou a dirigir o olhar para um determinado estímulo (Martim, 2003). Estes músculos executam quatro tipos de movimentos: sacádicos, rápidos e curtos; de acompanhamento, mantendo a imagem focada na fóvea durante os deslocamentos; compensatórios aos deslocamentos da cabeça, executados em sentido contrário a esta; e de convergência (Martim, 2003).
O globo ocular tem uma forma esférica de cerca de 24 mm de diâmetro, sendo formado, de fora para dentro, por três camadas concêntricas: a externa constituída pela córnea e a esclerótica (a região branca do olho); a intermédia (úvea) que engloba a íris e a coróide; e a interna, onde se destaca a retina (Johanne et al., 2002; Ladeira & Queirós, 2002). O olho forma um sistema ótico que compreende da frente para trás, a córnea, o humor aquoso, o cristalino e o corpo vítreo (Johanne et al., 2002; Ladeira & Queirós, 2002; Martin, 2003).
As várias partes do olho, para além de maravilhosamente concebidas, têm tecidos especializados. Algumas das suas estruturas, como por exemplo a córnea e o cristalino, estão separadas da corrente sanguínea, pelo que não têm irrigação sanguínea, caso contrário os seus vasos destruiriam as propriedades óticas. O mesmo acontece no órgão de Corti, mas por razões diferentes, uma vez que as suas células estão assim isoladas das pulsações, pois caso contrário ficaríamos ensurdecidos (Gregory, 1968).
Os cones e os bastonetes são os componentes neuronais da retina que convertem a luz em impulsos elétricos – a linguagem compreendida pelo sistema nervoso. Aos cones competem a acuidade visual (na fóvea macular) e a visão das cores, funcionando quando existem condições de luminosidade adequadas. Os bastonetes atuam em condições de fraca luminosidade, permitindo a visão de tons acinzentados (Gregory, 1968; Martim, 2003).
O humor aquoso está continuamente a ser segregado e absorvido, renovando-se a cada quatro horas (Gregory, 1968). É um líquido que “contribui para a manutenção da tensão intra-ocular e facilita o metabolismo do cristalino e da córnea que carecem de vasos” (Martim, 2003, p.17).
O cristalino é um órgão encapsulado, de forma lenticular, transparente e biconvexo que tem como função, juntamente com a córnea, focalizar os raios luminosos, permitindo a formação da imagem sobre a mácula (Martim, 2003).
As vias óticas transportam os estímulos luminosos através de dois nervos óticos, que se cruzam e organizam no quiasma ótico e unem-se, mais estreitamente no percurso do trato ótico até ao córtex cerebral. A zona visual cortical primária situa-se na face interna de ambos os lóbulos occipitais, que corresponde às áreas cerebrais dezassete e dezoito (córtex visual primário e secundário), onde se produz a síntese ou integração da perceção visual, ou seja, a identificação ou a gnose dos objetos (Martim, 2003).
A visão binocular, segundo Martim (2003), dá lugar a uma impressão visual única, através de três fenómenos percetores: perceção simultânea, fusão e estereopsia (perceção da terceira dimensão, que assim possibilita a sensação de relevo). Esta é “uma faculdade que se adquire a partir de reflexos posturais, fixação, acomodação e convergência, dominados pelo reflexo de fusão” (p.26).
De acordo May e Allen (1979), citados por Martim (2003), a função visual pode ser dividida em: sentido da forma, sentido cromático e sentido luminoso. O sentido da forma é a capacidade do olho para perceber a figura e a forma dos objetos, também designada de acuidade visual. Constitui a visão central, ou seja, há uma maior acuidade visual quando se olha diretamente os objetos, ativando-se a mácula. Fatores como o contraste, a iluminação, o estado fisiológico e a idade modificam e alteram a acuidade do olho. Por outro lado, a visão periférica refere-se à imagem de um objeto que não incide sobre a mácula (Ladeira & Queirós, 2002; Martin, 2003). O sentido cromático constitui a capacidade do olho perceber as cores, função que compete aos cones (células fotorrecetoras localizadas na retina), que só são sensíveis com uma iluminação de grande intensidade. Por último, o sentido luminoso é a possibilidade do olho distinguir graduações na intensidade da iluminação. A adaptação é a acomodação da sensibilidade da retina às variações de intensidade da luz (Ladeira & Queirós, 2002; Martin, 2003).