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3. EPP Command Mapping

3.1. EPP Query Commands

Draghi Lucero proporcionou-me, particularmente, um dos momentos mais gratos desta pesquisa. Mas, ao mesmo tempo, revelou-me o quanto os próprios leitores argentinos o desconhecem, como atestam o silêncio do círculo bonaerense e a escassa fortuna crítica em torno de seu trabalho. Seu projeto novelístico, como já antecipei nas linhas acima, se desenvolveu em três momentos: inicialmente, no volume Las mil y una noches argentinas (1940), e logo em El loro adivino (1963) e em El pájaro brujo (1972). Essas duas últimas publicações, ainda que apresentem

títulos distintos, integram a segunda e terceira parte das mil e uma noites argentinas. A propósito, essa estrutura triádica não apenas se revela em sua composição integral, senão também no interior de todas as narrativas, cuja repetição desse número cabalístico refere-se à provas, combates, noites e metamorfoses; e algumas vezes, já no próprio título, tais sejam, ―El Negro Triángulo‖ [O Negro Triângulo], ―Los tres ladrones‖ [Os três ladrões] e ―Las tres torres de Hualilán‖ [As três torres de Hualilán]. De sorte que, indissociáveis, esses três livros configuram uma totalidade, à maneira das estórias narradas por Sahrazad, seu modelo evidente. Também poderíamos, sem prejuízo algum, aproximá-los da forma novelística de Hermilo

Borba Filho, que também publicou suas narrativas em três volumes separados.210

A proximidade com o compêndio de narrativas orientais não está apenas no título, cuja escolha não poderia ter sido mais acertada; irmana-os, ademais, idêntica forma e modo ficcional. Igualmente inscrito na tradição literária de matriz novelesca, as estórias draghilucerianas apresentam a mesma disposição episódica, com inúmeras aventuras, personagens às mais das vezes anônimos ou com nomes alegóricos, e um narrador que tudo urde com a seiva fabulativa própria da literatura do maravilhoso. No que tange ao título, sua utilização tem função análoga à compilação árabe, i.e., sugerir a ideia de narrativas virtualmente infinitas, ou, ao menos, uma prolongação indefinida. No que concerne à essa ideia, Borges certa feita já o confirmara, em uma de suas conferências acerca do mundo sahrazadiano:

En éste [no título] hay otra belleza. Creo que reside en el hecho de que para nosotros la palabra ―mil‖ sea casi sinónima de ―infinito‖. Decir mil noches es decir infinitas noches, las muchas noches, las innumerables noches. Decir ―mil y una noches‖ es agregar una al infinito. […] La idea de infinito es consustancial con Las mil y una noches. […] Los árabes dicen que nadie puede leer Las mil y una noches hasta el fin. No por razones de tedio: se siente que el libro es infinito. […] ahí estará esa especie de eternidad de Las mil y una noches del Oriente. (BORGES, 1992, p. 61, 67).211

210 E por falar em Hermilo, cujas novelas foram reunidas num único volume pela CEPE editora em 2017, igualmente poderíamos conceber a reunião das narrativas de Juan Draghi Lucero numa única publicação.

211 Tradução minha: ―Neste [no título] há outra beleza. Creio que reside no fato de que para nós a palavra ―mil‖ seja quase sinônima de ―infinito‖. Dizer mil noites é dizer infinitas noites, as muitas noites, as inumeráveis noites. Dizer ―mil e uma noites‖ é agregar uma ao infinito. […] A ideia de infinito é consubstancial com As mil e uma noites. […] Os árabes dizem que ninguém pode ler As mil e uma noites até o fim. Não por razões de tédio: se sente que o livro é infinito. […] aí estará essa espécie de eternidade de As mil e uma noites do Oriente‖.

Nesse sentido, a quantidade de estórias compiladas no livro anônimo não corresponde ao número de ―noites‖ designadas no título. No século XIX, esse mesmo artifício também fora empregado pelo escritor britânico Robert Louis Stevenson em seu The New Arabian Nights (1882) — traduzido em português como Novas mil e uma noites, uma vez que, na versão em língua inglesa o livro árabe foi

intitulado como The Arabian Nights [Noites árabes].212 Mais discreto mas não menos

inventivo, o próprio Borges, em ―Magias parciales del ‗Quijote‘‖ [Magias parciais do ‗Quijote‘] — um dos ensaios de Otras inquisiciones [Outras inquisições] (1952) —,

chegou a conjeturar o conteúdo de uma das ―noites‖ ausentes, a de número 602.213

Na obra de Draghi Lucero, o narrador inominado — que, implicitamente, faz as vezes de uma Sahrazad —, também nos conta estórias para impedir a morte, ou quiçá uma de suas piores facetas, a morte da memória. Em pleno século XX, ele

212 O Livro das mil e uma noites foi traduzido no ocidente apenas no início do século XVIII (1704), na França. Na ocasião, o orientalista francês Antoine Galland adicionou uma ―noite‖ inexistente nas versões originais, ―Aladim e a lâmpada maravilhosa‖. Essa narrativa, curiosamente, tornar-se-ia uma das mais famosas do livro. A edição brasileira que utilizei, com tradução de Mamede Mustafa Jarouche, foi publicada pela editora Globo em quatro volumes. Os dois primeiros reúnem as estórias do ramo sírio, enquanto os demais tomos, as do ramo egípcio. O primeiro volume contém as ―noites‖ 1 a 170; o segundo, as ―noites‖ 171 a 282, que em seguida alterna para a número 92 até à ―noite‖ 165. O terceiro volume inicia na ―noite‖ 198 e se estende até à ―noite‖ 230, depois passa para a 251 até a 275; alterna para 176 e vai até a 210; salta para a 885 e se estende até a 929. O quarto volume, por sua vez, inicia na ―noite‖ 625 e vai até a 728; mas há novas alternâncias: 740 até a 775, 824 a 836, 893 a 909, e finaliza com a ―noite‖ número 1000. Ao todo, essa edição traz o registro de 732 ―noites‖. Conforme elucida o tradutor brasileiro (JAROUCHE, 2005, p. 12), o ramo egípcio era subdividido em antigo e tardio e ―... somente os manuscritos da fase dita tardia [...] contêm, de fato, mil e uma noites‖. Quanto ao bloco de novelas formado pelas mil e uma noites argentinas, colige vinte e duas estórias (treze do primeiro tomo, quatro do segundo e cinco do terceiro), a saber: ―El Cuerpo sin Alma‖, ―El Negro Triángulo‖, ―Juan de la Verdad‖, ―Los tres ladrones‖, ―El mal guardián‖, ―La flor de vira vira‖, ―Donde irás y no volverás‖, ―El santo del naranjo‖, ―El Media Res‖, ―Garabato va, garabato viene‖, ―Las tres torres de Hualilán‖, ―La libertad del negro‖ e ―¿Te acordás, patito ingrato?‖; ―El caballito de siete colores‖, ―Las ayudas‖, ―La niña del espejo‖ e ―El chiquillo‖; e ―El tucúcaro mirón‖, ―El buen mensajero‖, ―Pedro y Pablo‖, ―Las siete vacas flacas‖ e ―Un Dios se lo pague‖.

213 De acordo com o escritor argentino, seria essa a narrativa central, a ―noite‖ das ―noites‖ que, de forma circular, confirmaria a proposta de um livro infinito (BORGES, 2005, p. 66): ―La necesidad de completar mil y una secciones obligó a los copistas de la obra a interpolaciones de todas clases. Ninguna tan perturbadora como la de la noche 602, mágica entre las noches. En esa noche, el rey oye de boca de la reina su propia historia. Oye el principio de la historia, que abarca a todas las demás, y también — de monstruoso modo —, a sí misma. ¿Intuye claramente el lector la vasta posibilidad de esa interpolación, el curioso peligro? Que la reina persista y el inmóvil rey oirá para siempre la trunca historia de Las mil y una noches, ahora infinita y circular...‖. [A necessidade de completar mil e uma seções obrigou aos copistas da obra a interpolações de todas as classes. Nenhuma tão perturbadora como a da noite 602, mágica entre as noites. Nessa noite, o rei ouve da boca da rainha sua própria história. Ouve o princípio da história, que abarca a todas as demais, e também — de modo monstruoso —, a si mesma. Intui claramente o leitor a vasta possibilidade dessa interpolação, o curioso perigo? Que a rainha persista e o imóvel rei ouvirá para sempre a trunca história de As mil e uma noites, agora infinita e circular...] Tradução minha. Em 1975, Borges materializaria essa ideia em sua própria obra, num de seus melhores contos, o magistral ―El libro de arena‖ [O livro de areia].

recria alguns dos contos populares da região de Cuyo, fundindo o halo da oralidade dos camponeses com quem o autor convivera nos anos da infância com a forma literária escrita. Esse narrador, a meu ver o verdadeiro pájaro brujo desse mundo ficcional, nos enfeitiça com um ritmo narrativo incansável e infinito: não por acaso todas as novelas que compõem a trilogia são finalizadas com o sinal de reticências, o qual sugere que ele poderia prolongar indefinidamente sua atividade, agregando sempre novos episódios. Portanto, a ―noite‖ motivadora, implícita nas entranhas da construção dessa obra, acena para um dos elementos que mais nos humaniza, aquilo que é capaz de conferir identidade aos homens, ou seja, a própria possibilidade de recordar. O esquecimento é sombra e ameaça: olvidar é fenecer. Por isso, a fim de evitá-lo, Draghi Lucero exuma esse poderoso contador de estórias, ao mesmo tempo humilde e despretensioso, pois, após tantas horas a seu lado, sequer sabemos como se chama. Igualmente desconhecemos os nomes das personagens — chamadas sempre de ―mozo‖, ―mocito‖, ―niña‖, ―viejito(a)‖ etc. —, posto que seu escopo primordial está nas próprias aventuras. Em nosso anelo imaginativo não importa quem, mas a continuidade da fabulação na memória dos futuros leitores, à guisa de uma tocha mnemônica, infinitamente conduzida. Dessa maneira, desprovida de um ―prólogo moldura‖ — tal qual também faria Hermilo Borba Filho em seu monumento novelístico — sua disposição moldural subjaz ao conjunto de narrativas, entendidas como totalidade.

Entre outros elementos internos, nos quais também se evidenciam a habilidade do narrador — para além, óbvio, daquele que em si mesmo é inerente à forma da novela, i.e., sua configuração episódica —, há ainda determinadas marcações formais que conferem singularidade ao texto. Nesse sentido, é frequente a presença de poemas anônimos, tais sejam toadas, contrapontos e cogollos, na abertura de cada uma das novelas apresentadas. A presença textual dessas composições, à maneira de um mote, é algo que não apenas antecipa o tema principal das narrativas como evoca, ademais, a voz aédica dos poetas populares da região de Cuyo. E essa voz, agora amalgamada com aquela que contará as ―noites‖, confirma o outro vértice da tradição cultural na qual se inscreve o autor cuyano (DRAGHI LUCERO, 1963, p. 292): ―Soy criollo de verde pinta/ con arte y ciencia de famas:/ sé lo que hay a la distancia/ y me adelanto al mañana.// Sepan todos los

curiosos/ que en el mundo la enmarañan/ que los loros, al fin, son/ hombres del aire,

¡con hablas!‖.214 E nessa tessitura de mágicas reverberações, ele também lança

mão do uso recorrente de arcaísmos e diminutivos. Neste ponto, ambos os recursos acentuam — numa cadência por assim dizer, espontânea —, a proximidade imprescindível entre o narrador e seus interlocutores. Dessa maneira, presentes desde o parágrafo inicial da primeira novela, ―El Cuerpo sin Alma‖, os diminutivos são utilizados pelo escritor em quase todas as páginas, nos três tomos de suas mil y una noches argentinas:

Ya eran viejos marido y mujer, pero tenían un hijito […]. Por la noche, volvía su padre, y esas tres almas se acurrucaban en el fogón del ranchito serrano; sus hablitas apenas se oían […]. ―[…] ¿quién cuidaría a la viejita de su madre?‖, le porfiaba su tatita […]. Fue pirquinero el mocito y trabó relación con gente de arria … (DRAGHI LUCERO, 1967, p. 8). Grifos meus.215

Ou seja, através desses expedientes Draghi Lucero propõe ao leitor a possibilidade de imergir na cultura oral característica da sociedade crioula cuyana do final do século XIX e começo do XX. Em alguma medida essas estórias, ao serem transmutadas de seu circuito oral para serem recriadas e fixadas num código de escrita — reunidas numa coletânea de novelas —, ainda pressupõem uma disposição específica do público leitor, i.e., que circunstancialmente se converta em auditório. Por isso, a cada página lida sobrevêm a impressão de que essa aura que vincula um e outro não deve ser desfeita, sob pena de interromper a continuidade das ―noites‖.

214 Tradução minha: ―Sou crioulo de verde pinta/ com arte e ciência de famas:/ sei o que há à distância/ e me adianto ao amanhã.// Saibam todos os curiosos/ que no mundo a emaranham/ que os louros, ao fim, são/ homens do ar, ¡com falas!‖.

215 Tradução minha: ―Já eram velhos marido e mulher, mas tinham um filhinho […]. Á noite seu pai regressava, e essas três almas se encolhiam ao redor do fogão do pequeno racho serrano; suas falinhas apenas se ouviam […]. ―[…] quem cuidaria da velhinha sua mãe?‖, lhe porfiava seu papai […]. O mocinho foi inquiridor e travou relação com gente de arria …‖. Entre os casos de arcaísmos empregados, cito os mais frequentes: ―tata [padre], permisio [permiso], lion [león], nohotros [nosotros], usté [usted], hi [he], rial [real], vido [vio, verbo ―ver‖], mesmo [mismo], peliar [pelear], oyirlo [oírlo], dijunto [difunto], güeno [bueno], naides [nadie], rhía [día], antiojos [anteojos], autoridá [autoridad], óido [oído], pior [peor], agora [ahora], agüelos [abuelos], vamoh [vamos], jiede [huele], ahujero [agujero]‖ etc., etc. Quanto às formas em diminutivo, estes são os exemplos que mais amiudadamente comparecem: ―hablita, tatita, mocito, viejito, mañanita, cuidadito, apenitas, pegadito, huevito, ligerito, [en] cuantito, pedacito, niñito, matecito, bizcochito, mesmito, mamita, bultito, calladito, todita, amito, alguito, delgadito, nadita, caballito, hijito, mujercita, criaturita, humito, palabrita, ganitas, despacito, fueguito, sueñito, patito, caminito, trabajito, prontito, derechito, sombrerito, atadito, tempranito, lagunita, cariñito, corazoncito, mismito, lengüita, palomita‖ etc., etc.

Não obstante, contígua a tais potencialidades, há em seu labor narrativo um certo comedimento verbal, uma pudicícia deliberada que, com efeito, diametralmente se afasta do modelo sahrazadiano. Embora em nada esse elemento minimize a qualidade do texto, é um dos pontos que também merece alguma menção. Enquanto no Livro da mil e uma noites o texto transborda, desde as primeiras páginas, em claras referências eróticas, nas novelas draghilucerianas é quase

inexistente qualquer alusão de ordem sensorial e sensual.216 Segundo aventa o

professor Adolfo Colombres (2001, p. 10): ―... tal espíritu [a marca do erotismo presente no livro árabe] no tiene nada que ver con la construcción de la realidad propia de nuestros criollos, marcada por una austeridad expresiva […], a lo que se

216 Cito três passagens do Livro das mil e uma noites para termos uma ideia geral: 1. (ANÔNIMO, 2005, p. 41-42): ―Disse o narrador: enquanto ele [Sahzaman, irmão do rei Sahriyar], assim absorto em seus pensamentos e aflições, ora contemplava o céu, ora percorria o jardim com o olhar merencório, eis que a porta secreta do palácio de seu irmão se abriu, dela saindo sua cunhada: entre vinte criadas, dez brancas e dez negras, ela se requebrava como uma gazela de olhos vivos. Sahzaman os via sem ser visto. Continuaram caminhando até chegar ao sopé do palácio onde estava Sahzaman, a quem não viram [...]. Assentaram-se sob o palácio, arrancaram as roupas e eis que se transformaram em dez escravos negros e dez criadas, embora todos vestissem roupas femininas: os dez agarraram as dez, enquanto a cunhada gritava: ‗Mas ud! Ó Mas ud!‘; então um escravo negro pulou de cima de uma árvore ao chão e imediatamente achegou-se a ela; abriu-lhes as pernas, penetrou entre suas coxas e caiu por cima dela. Assim ficaram até o meio-dia: os dez sobre as dez e Mas ud montado na senhora. Quando se satisfizeram e terminaram o serviço, foram todos se lavar ...‖; 2. (ANÔNIMO, 2005, p. 45-46): ―Ele e o irmão [os reis Sahzaman e Sahriyar] se disfarçaram e entraram na cidade durante a noite, subindo ao palácio [...]. Olharam para a porta secreta, que fora aberta e da qual saiu a esposa do rei Sahriyar, conforme o hábito, entre vinte jovens; caminharam sob as árvores até chegar ao sopé do palácio em que ambos estavam, tiraram as roupas femininas, e eis que eram dez escravos que se lançaram sobre as dez jovens e as possuíram. Quanto à senhora, ela gritou: ‗ó Mas ud! ó Mas ud!‘, e eis que um escravo negro pulou ligeiro de cima de uma árvore ao chão; encaminhou-se até ela e disse: ‗O que você tem, sua arrombada? Eu sou Sa duddin Mas ud!‘. Então a mulher riu e se deitou de costas, e o escravo se lançou sobre ela e nela se satisfez, bem como os outros escravos nas escravas.‖; 3. (ANÔNIMO, 2005, p. 47): ―A jovem ergueu a cabeça para a árvore e, voltando casualmente o olhar, avistou os reis Sahriyar e Sahzaman. Então ergueu a cabeça do ifrit [criatura sobre-humana e maligna] de seu colo, depositou-a no chão, levantou-se, foi até debaixo da árvore e sinalizou-lhes com as mãos: ‗Desçam devagarzinho até mim‘. Percebendo que haviam sido vistos, eles ficaram temerosos e suplicaram, humildes, em nome daquele que erguera os céus, que ela os poupasse de descer. A jovem disse: ‗É absolutamente imperioso que vocês desçam até aqui‘. [...] ‗Se acaso não o fizerem, eu acordarei o ifrit e lhe pedirei que os mate‘, e continuou fazendo-lhes sinais e insistindo até que eles desceram lentamente da árvore, colocando-se afinal diante dela, que se deitou de costas, ergueu as pernas e disse: ‗Vamos, comecem a copular e me satisfaçam, senão eu vou acordar o ifrit para que ele mate vocês‘. [...] E tanto insistiu que eles não tiveram como divergir: ambos copularam com ela, primeiro o mais velho, e em seguida o mais jovem‖. No Livro das cento e uma noites a narrativa chega a ser, digamos, mais veemente quanto a tais passagens. Há, ademais, outro detalhe: o rei (também chamado de principal vizir) não se casa com Sahrazad; ele desposa sua irmã Dinarzad, mas aquela a acompanha em seus momentos mais íntimos, permanecendo oculta, provavelmente debaixo da cama. Ou seja, todas as noites, enquanto o casal biblicamente se conhecia, ali estava ela, preparando-se para continuar seu fio narrativo, embalada por sons ofegantes e movimentos bruscos da cama. E após cada cópula, era repentinamente chamada por Dinarzad para narrar as cento e uma ―noites‖ (ANÔNIMO, 2005, p. 18): ―... então Dinarzad chamou: ‗Ó irmãzinha, Xahrazad, conta ao nosso senhor uma de tuas belas histórias‘, e ela disse: ‗Sim‘, e começou a contar e o rei, a ouvir‖.

une la gran reserva mostrada cuando se refieren al amor …‖.217 Em suas páginas o

amor é apresentado quase como um componente de fragilidade, como algo que deve sempre manifestar-se de modo contido. Quando ocorrem, as poucas cenas amorosas, ou aquelas que poderiam redundar em efetiva expressão carnal, impera a sobriedade descritiva, tais como nos trechos que seguem. Em ―El Negro Triángulo‖, apenas há uma referência abstrata ao que Hermilo Borba Filho claramente chamaria de ―doce ocupação do beringote beringote‖:

No habían pasado dos meses cuando ya se casaban los enamorados y fueron a vivir a la casa del mozo. Allí pasaron meses de dicha inmedible,

gozando los primores del amor ansiado... Corrieron los días y semanas

en dulce encantamiento, sin una pena ni la sombra de un dolor. (DRAGHI LUCERO, 1967, p. 44). Grifos meus.218

Já em ―El mal guardián‖, embora o amor nem ao menos chegue a realizar-se, há dois momentos em que o protagonista se sente visivelmente tomado pelo apetite sexual por aquela a quem ele deveria vigiar em noites de estranhas bruxarias:

No bien hubo acabado, cuando se le apareció de nuevo su ama; pero esta vez lucía ¡tan lujosas ropas! Le rebrillaban los ojos entre las sombras de sus pestañas. Rosadas sus mejillas y rojos sus labios... Si daban ganas de besarla y abrazarla, y el mozo sintió que sus potencias se avivaban... Ella lo dominó con una mirada ¡tan fría y soberbia! "Que me sigas, te ordeno", le dijo, y el mozo la siguió por las alcobas, hasta que llegaron al portal de la gran sala. "Aquí te plantarás, le ordenó con sonantes palabras, y desde aquí me velarás en mis mudanzas ... (DRAGHI LUCERO, 1967, p. 124). Grifos meus.219

E mais adiante:

… no bien abrió el portal de la sala se quedó maravillado viendo a su ama ¡tan hermosa y hechicera!... Le brillaban los ojos con fulgores de diamantes

217 Tradução minha: ―... tal espírito não tem nada a ver com a construção da realidade própria de nossos crioulos, marcada por uma austeridade expressiva […], ao que se une a grande reserva mostrada quando se referem ao amor …‖.

218 Tradução minha: ―Não haviam passado dois meses quando já se casavam os enamorados e foram morar na casa do moço. Ali passaram meses de felicidade interminável, gozando os primores do amor ansiado... Passaram dias e semanas em doce encantamento, sem um sofrimento nem a sombra de um dor‖.

219 Tradução minha: ―Não bem houvera acabado, quando lhe apareceu de novo sua ama; mas desta vez luzia tão luxuosas roupas! Lhe rebrilhavam os olhos entre as sombras de suas pestanas. Rosadas suas bochechas e vermelhos seus lábios... Teve vontade de beijá-la e abraçá-la, e o moço sentiu que sus potências se avivavam... Ela o dominou com um olhar ¡tão frio e soberbo! "Que me sigas, te ordeno", lhe disse, e o moço a seguiu pelas alcovas, até que chegaram ao portal da grande

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