Partie 3: État des lieux de la mobilité des étudiants caennais : le vélo a-t-il sa place ?
3.1 Quels facteurs influencent la mobilité des étudiants ?
Como anteriormente foi mencionado nesta dissertação, as relações entre a sogra e o genro e a sogra e a nora na literatura popular sempre indicam uma determinada tensão e dificuldade de o novo membro, estranho à família se integrar no seu seio. Enquanto que as histórias da rivalidade entre a sogra e o genro (em que a sogra sempre resulta mais esperta e leva a vantagem) são compreendidas como uma brincadeira e uma competição leve e inócua, nas duas culturas populares que estamos a comparar, inúmeros são os exemplos que mostram os maus tratos que a nora tem de suportar na nova família. As explicações para este facto podem ser diversas, mas para começarmos a aprofundar a nossa análise, servir-nos-emos de um provérbio popular português que diz: “Os filhos da minha filha meus netos são, os filhos da minha nora meus serão ou
82 In: Ivanović (2007).
83 In: Leite de Vasconcellos (1969).
84 Na língua sérvia existe exactamente o mesmo provérbio que se diz: Svekrva je zaboravila da je i ona snaha bila. Os dois provérbios até têm uma estrutira semelhante e rima, que em português recai sobre os substantivos e em sérvio sobre os verbos. Estas parecenças tanto na forma como no sentido indicam uma visão igual desta problemática nos dois imaginários populares.
não”. Neste exemplo é óbvia uma suspeita latente da possibilidade de a nora ser infiel ao filho da sogra, porque cada mãe reconhece os sinais da gravidez da própria filha, enquanto que pela gravidez da nora não se pode chegar à conclusão sobre a paternidade do filho que está para nacser.
Uma outra explicação para os sentimentos negativos da sogra em relação à nora pode ser que na posição da nora na família a sogra reconhece todas as dificuldades pelas que ela própria tinha de passar na juventude e, em vez de ter compaixão, utiliza a sua actual superioridade para se vingar e nisso sente um grande prazer. A sogra, apercebendo-se de que está a envelhecer, perder a beleza, as forças e alguns privilégios que tinha na juventude, pode sentir-se insegura, e desejando continuar a dominar, utiliza a sua autoridade para fazer a vida negra à nova membra da família. A terceira razão para tal comportamento da sogra pode-se encontrar no facto de a sogra amar tanto o filho que é incapaz de considerar nenhuma nora digna dele. A sogra por vezes não se sente disposta de partilhar o amor do seu filho com ninguém, o que é claramente indicado no conto português A má sogra85, tendo a seguinte citação como prova do tal comportamento: “começou a rainha a embirrar com este amor, porque se supunha colocada em segundo lugar pelo próprio filho.” Por este motivo bate na nora, insulta-a, expulsa-a de casa. Na tradição oral sérvia são muito mais frequentes os motivos e as histórias da má sogra, que é capaz de mandar matar o seu neto, que possui alguma qualidade extraordinária, de se dedicar à magia negra para encantar a nora, de a agredir de várias formas. Este fenómeno é difícil de explicar de forma simples. Será que a mãe (e sobretudo no contexto cultural balcânico) sente ciúmes porque está a perder a supremacia numa familia muito bem herarquizada, será que aqui a psicanálise freudiana poderia dar alguma resposta satisfactória? Este assunto é muito profundo e complexo e se calhar se poderia aproveitar melhor em algum outro trabalho científico.
No fim do conto, a má sogra é sempre castigada ou morta, o filho prefere a esposa à mãe e nenhum leitor ou ouvinte da história o recrimina por isso. As explicações para este facto são inúmeras e muito mais profundas do que a simples maldade da sogra e bondade da nora: um leitor cristão lembrar-se-á do que está escrito sobre o casamento na Bíblia Sagrada, que o homem deixará o pai e a mãe e juntar-se-á à sua mulher e serão dois uma só carne. Quem se interessa pela psicologia, poderá adoptar um outro ponto de vista, que o protagonista do conto cresceu, amadureceu e já, no fim da sua individuação
não precisa da mãe. Outros, no facto de a sogra ser vencida no fim do conto, poderão ver o desejo dos jovens de abandonar as formas e regras antigas de vida, impostas pelos pais e a ideia de procurar a própria autonomia. Todas estas interpretações são legítimas, uma vez que um conto, como obra artística oferece um número quase infinito de planos, leituras e significados.
Por vezes este comportamento das sogras é justificado, porque as noras são preguiçosas, mal-educadas, não mostram respeito pela nova família e os seus defeitos devem ser corrigidos. A nora pode ser o exemplo das virtudes que ajuda a que se salve a alma da sogra no outro mundo, como é ilustrado numa narrativa da tradição oral sérvia A nora piadosa e a sogra ímpia (Milostiva snaha i nemilostiva svekrva) aborda a situação da maldade da sogra e a genuína virtude cristã da nora. A sogra não deseja descansar nem após a morte e aparece na Terra para impedir que a nora dê esmola aos pobres. Em vez de continuar com as suas maldades, é condenada a comer a comida dos porcos. A nora tem piedade dela e oferece-lhe as três mesas de ouro com ricos manjares, rosas e nardos que Deus tinha preparado para ela, dizendo que todo o bem que tinha feito até agora é para a sogra e que deve continuar a lutar para merecer algo para si própria. Este belo exemplo tem por trás uma grande filosofia cristã representada em fazer bem ao próximo, mesmo que seja o nosso inimigo e que nunca é tarde para o acto do arrependimento.
Nos contos em que o protagonista é um príncipe encantado em sapo, serpente, pombo, cabeça de cavalo etc, a sogra não é má, pelo contrário, trata a nora por filha, deseja cortar-lhe o sofrimento ao lado de um ser encantado, colabora com ela e muitas vezes dobra o encanto do filho. Este último tratamento entre a sogra e a nora poder-se- ia explicar usando o conceito dual mother (dupla mãe) de Carl Gustav Jung (1974). Para este autor cada nascimento tem o seu lado real ou biológico e o simbólico. Transmitindo esta terminologia para o caso da sogra que ajuda a nora, podemos chegar à conclusão de que a sogra se sente culpada por ter um filho encantado e por a sua nora jovem e bela ter de conviver com ele, e tendo, falhado como mãe biológica, dirige todos os sentimentos maternais à uma outra "filha", sua nora. Alvanita Almeida Santos nas personagens da madrasta, má irmã, sogra e bruxa vê "a mulher que não se deve ser", apontando para as visões polarizadas entre as personagens positivas e negativas nas narrativas populares. Nesta parte da investigação procurámos observar alguns níveis de interpretação e compreensão destas duas personagens complexas dentro da família: a sogra e a nora, tentando mostrar que além das suas visões unilaterais e estereotipadas existem vários
factores que influenciam a sua existência nos contos e que tanto uma como a outra podem ter o seu lado bom e o seu lado mau.