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Quelques réflexions sur les relatives prédicatives

3. Les structures prédicatives

3.2. Quelques réflexions sur les relatives prédicatives

Carol Gilligan, discípula de Kohlberg, veio contestar o mestre. Para Gilligan, o desenvolvimento moral depende mais do meio do que da idade, não sendo obrigatório que o sujeito passe por cada um dos estádios; considerar a existência de um universalismo ético é uma atitude etnocêntrica que é desmentida pela cultura e não se pode analisar o desenvolvimento moral feminino e masculino segundo um critério único (Gilligan, 1983).

Gilligan, apoiando-se em estudos de Nancy Chodorow, chama a atenção para a perspectiva androcêntrica das investigações levadas a cabo por Freud, Piaget e Kohlberg, por exemplo50. Numa sociedade em que homem e mulher têm percursos diferentes, a avaliação dos seus comportamentos deverá ter em conta essa diversidade. Tal como Piaget, já Freud opinara que as mulheres apresentavam um menor sentido de justiça do que os homens, que estavam menos preparadas para se submeter às grandes exigências da vida e que eram mais frequentemente influenciadas, nas suas avaliações, por sentimentos de afecto ou hostilidade; o erro de teoria gerado pelas experiências relacionais do investigador é interpretado, por este, como uma falha no desenvolvimento da mulher (Gilligan, 1983:5-7).

Tendo sido a mulher, no seu papel de mãe, quem preferencialmente tem acompanhado o crescimento das crianças, e o pai uma figura relativamente ausente do lar, a rapariga encontra junto dela o seu modelo, não necessitando de cortar os laços afectivos para ir construindo a sua individualidade; para o rapaz, pelo contrário, a partir

50 A ideia de que o anterior pensamento sobre a ética foi prejudicado pelo predomínio de uma perspectiva

masculina do mundo é partilhada por investigadores do sexo masculino como, por exemplo, o filósofo Peter Singer.

de certa altura, a proximidade da mãe apresenta-se como uma ameaça ao seu processo de individuação, pelo que é impelido a cortar com esse primeiro laço de amor e empatia (Gilligan, 1983:7-8). Assim,

since masculinity is defined through separation while femininity is defined through attachment, male gender identity is threatened by intimacy while female gender identity is threatened by separation. Thus males tend to have difficulty with relationships, while females tend to have problems with individuation. (Gilligan, 1983:8).

Esta diferença vai marcar o desenvolvimento masculino e feminino a vários níveis, nomeadamente ao nível do desenvolvimento moral. Mesmo quando a diversidade é apercebida, parece haver dificuldade em testemunhá-la sem associar uma vertente ao certo ou melhor e a outra ao errado ou pior, e sem cair na tentação de construir uma escala. Como a escala é geralmente deduzida e padronizada com base na interpretação masculina de dados de investigações levadas a cabo predominante ou exclusivamente por homens, há uma tendência para encarar o comportamento masculino como a norma e o feminino como uma forma de desvio da mesma (Gilligan, 1983:14). A própria mulher pode pôr em causa os seus valores e alterar os seus julgamentos, por deferência para com os outros. Esta deferência, porém, para além da subordinação social, revela também a essência da moral feminina, que assenta na relação e, consequentemente, na capacidade de escutar e entender a alteridade, na relutância em julgar, na sensibilidade às necessidades do outro e no assumir a responsabilidade pelo cuidar. E é esta sua força moral que acaba por ser interpretada como uma fraqueza (Gilligan, 1983:14-17).

Simultaneamente, vários estudos sobre os estereótipos de papéis sexuais, referidos por Gilligan, indicam que as qualidades frequentemente associadas à maturidade, como a capacidade de pensamento autónomo, de tomada de decisões e de assumir

responsabilidades, são consideradas masculinas e indesejáveis na construção de uma identidade feminina. Naturalmente, este conceito de maturidade é também ele definido do ponto de vista masculino, desvalorizando a interdependência, o afecto e o cuidar, para valorizar a independência da vida laboral (Gilligan, 1983:17).

São muitas as diferenças que Gilligan encontra na forma de construção do self masculino e feminino (cf. Gilligan, 1983:33-38). Enquanto que o rapaz se descreve em função da sua posição no mundo, da suas habilidades, crenças, gostos e altura, a rapariga refere também as suas preferências e acrescenta a sua relação com o mundo e o tipo de laços que estabelece para ajudar. O rapaz avalia as suas acções em função de um ideal de perfeição; a rapariga avalia-se em função de um ideal de cuidar do próximo. A rapariga coloca em primeiro lugar a responsabilidade para com os outros e depois para consigo; o rapaz coloca em primeiro lugar a responsabilidade para consigo e depois para com os outros. Para julgar uma acção, a rapariga sente necessidade de a contextualizar; o rapaz tende a julgar em função de regras categóricas rígidas. A rapariga realiza-se na ligação, movimenta-se num mundo de afectos, desejando fazer os outros felizes e tentando não magoar ninguém; o rapaz realiza-se na separação, tentando impedir ser totalmente guiado pelos outros e movimenta-se num mundo da agressão.

Estas diferenças levam a que o perigo, que pode conduzir a uma resposta de agressividade, seja percepcionado também de forma distinta. A rapariga retrata como perigosas as situações impessoais, de isolamento ou em que o sucesso depende da competitividade; o rapaz vê como perigosas as situações de intimidade, de relacionamento que possam conduzir a uma situação de traição ou rejeição (Gilligan, 1983:42).

Uma outra questão que se coloca ao analisar o desenvolvimento moral feminino prende-se com a ausência de uma voz e de uma linguagem femininas. Não havendo, em

psicologia, um vocabulário específico para falar das experiências da maturidade feminina, não só a mulher terá dificuldade em exprimir-se, como o homem terá dificuldade em entendê-la. Homem e mulher usariam, então, linguagens diferentes que julgam idênticas e descreveriam com palavras idênticas experiências diferentes, o que é forçosamente gerador de mal-entendidos (Gilligan, 1983:173)

Gilligan desenvolveu o seu estudo do desenvolvimento moral feminino com base em entrevistas feitas a mulheres que se encontraram face ao dilema de abortar ou não. As entrevistas foram feitas aquando da tomada de decisão e um ano depois. A investigadora sublinha que o momento em que as entrevistas foram realizadas era muito particular e que a amostra era pequena e não representativa de uma população mais vasta, pelo que, em pesquisas posteriores, deveriam ser introduzidas variáveis de cultura, tempo, ocasião e género, bem como estudos longitudinais para validar e refinar as primeiras observações (Gilligan, 1983:126).

Para a psicóloga americana, a justiça, a separação, a autonomia estão para o desenvolvimento moral masculino, como o cuidar, o relacionamento e a responsabilidade pelo outro estão para o feminino. Assim como a forma de encarar a justiça reflecte o estádio de desenvolvimento moral masculino, a forma de vivenciar o cuidado denota o estádio de desenvolvimento moral feminino. Para a menina, o cuidar é importante como forma de obter a aprovação dos outros; para a mulher adulta é importante ajudar e fá-lo «as a self chosen anchor of personal integrity and strength» (Gilligan, 1983:171).

Para a mulher, existe conflito moral quando há responsabilidades conflituantes e a sua evolução moral passa por três estádios que correspondem a três perspectivas diferentes da relação entre o self e os outros, sendo a transição obtida através de reinterpretações críticas do conflito entre egoísmo e responsabilidade (Gilligan,

1983:105). A preocupação inicial com a sobrevivência começa a ser encarada, na fase de crise, como uma atitude egoísta, o que leva a uma segunda fase, centrada na bondade, no amor pelo próximo em detrimento de si mesma. Esta negligência por si própria transporta-a para uma crise em que prevalece um sentimento de falsidade e que a leva à compreensão de que o cuidar dos outros implica imprescindivelmente o cuidar de si. Atinge, então, um estádio em que o cuidar e a verdade são entendidos como a forma mais adequada para resolver situações de conflito entre pessoas. Neste processo, as situações de crise funcionam como a hipótese de saída de um círculo vicioso e passagem para um novo estádio (Gilligan, 1983:105-109).

Em síntese, a psicóloga americana identificou três estádios no desenvolvimento moral feminino. Um primeiro estádio, pré-convencional, em que prevalece o desejo de sobrevivência. Um segundo estádio, convencional, em que prevalece a bondade, com sacrifício do sujeito. Um terceiro estádio, pós-convencional, em que domina o princípio da não-violência no sentido de não magoar os outros nem a própria.

São várias as críticas feitas aos estudos de Gilligan. Um dos aspectos criticados prende-se com o facto de a psicóloga ter construído a sua teoria do desenvolvimento moral a partir de experiências de vida, logo, a partir do que é e não a partir do que deve ser (Lourenço, 2002:201). No entanto, não é definido quem, pode ou deve definir o que deve ser. Aliás, Piaget e Kohlberg construíram as respectivas teorias a partir de conversas sobre narrativas que eram fictícias mas verosímeis e não a partir «do que deve ser», mas não são criticados a esse nível. Orlando Lourenço defende que «a solução pelo apelo a uma lei relativamente imparcial (solução de estádio 4 [da proposta de Kohlberg]) é certamente mais justa do que uma solução em termos afectivos (solução de estádio 3)» (Lourenço:2002, 205). Esta crítica parece desvalorizar a equidade e reforçar a teoria de Gilligan de que o homem tende a sobrevalorizar a justiça, em detrimento do

cuidar; por outro lado, como veremos no ponto seguinte, a nova ética, apoiada em estudos de neurobiologia, tende a valorizar os sentimentos e emoções, mostrando a sua estreita relação com a razão.