Ao longo deste capítulo, foi apresentado e discutido o conjunto de significativas transfor- mações experenciadas pela comunidade sexodissidente e pelo mercado consumidor LGBT a par- tir dos anos 1990. Bens de consumo e prestação de serviços personalizados para esse público, bem como espaços de homossociabilidade e de expressão da homocultura foram sendo criados desde o início daquela década, modificando profundamente o modo como lésbicas, gays, bisse- xuais e pessoas trans se relacionam socialmente e se percebem como consumidores e cidadãos.
Nesse quadro, a noção marginalizada e abjeta de queer – debatida no capítulo 3 – vai sen- do igualmente metamorfoseada pela cultura contemporânea, assumindo não raro uma retórica
pop. Isto é, cada vez mais, o termo queer vem se popularizando, ganhando força e conquistando a
adesão nas mais diferentes esferas da sociedade. Ou, sob um olhar crítico, esse conceito vendo sendo assimilado e comoditizado pela indústria cultural para fins majoritariamente comerciais. A denominação queer, antes associada ao vocabulário homofóbico degradante e difamatório, pas- sou a ocupar um espaço fundante no discurso ativista em prol das dissidências sexuais e gendéri- cas e, mais recentemente, ampliou seus horizontes para a arte e a cultura massiva.
No campo cinematográfico, o chamado New Cinema Queer estabelece na década de 1990 um novo movimento estético-político na sétima arte e impulsiona diversos festivais recentes (Steffen, 2016). É o caso do Melbourne Queer Film Festival (na Austrália, desde 1991), o Queer
Lisboa (em Portugal, desde 1997), o Queersicht (na Suíça, desde 1997), o Asian Queer Film Fes- tival (no Japão, desde 2007), o Mumbai International Queer Film Festival (na Índia, desde 2010),
entre tantos outros.10 No Brasil, a Mostra New Queer Cinema teve duas edições, chamadas de “Cinema, Sexualidade e Política” (em 2015) e “Segunda Onda” (em 2016), com exibições de filmes em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Salvador e Brasília (Figura 28).11
10
Respectivamente, os sites dos festivais são os seguintes: http://mqff.com.au (Austrália), http://queerlisboa.pt (Por- tugal), www.queersicht.ch (Suíça), http://aqff.jp (Japão) e http://mumbaiqueerfest.com (Índia). Acesso em: 01/07/19.
Figura 28: Catálogos das duas edições da Mostra New Queer Cinema no Brasil (2015 e 2016)
Fonte: Mostra New Queer Cinema (Disponível em: http://bit.ly/1HwugoS. Acesso em: 01/07/19).
Festivais artísticos com a temática queer também vêm chamando a atenção do público em todo o mundo. Como exemplos, temos o National Queer Arts Festival (nos Estados Unidos, des- de 1998), o Outburst Queer Arts Festival Belfast (na Irlanda do Norte, desde 2007) e o Queer
Arts Festival (no Canadá, desde 2010).12 Já no Brasil, a exposição Queermuseu – Cartografias da
diferença na arte brasileira (Porto Alegre, 2017) provocou uma tamanha celeuma nacional em
torno das obras com conteúdo sexual e homoerótico, que o Santander Cultural decidiu cancelar a mostra quase um mês antes do seu encerramento oficial. Após uma campanha de financiamento coletivo, em 2018, a exposição foi reinaugurada no Parque Lage, no Rio de Janeiro, sendo visita- da por mais de dez mil pessoas. O curador da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, relatou inúmeras ameaças de morte por causa da exposição (Simões, 2018).
Além disso, a cultura pop e os mass media também estão despertando para o assunto e lançando mão da tônica queer como argumento para enredos e programas. A série televisiva bri- tânica Queer as Folk (1999-2000), posteriormente adaptada para os Estados Unidos e Canadá com o mesmo nome (2000-2005), é um ótimo exemplo desse fenômeno. A produção obteve uma repercussão bastante positiva no círculo LGBT ao retratar – sem os estereótipos habituais vistos na grande mídia – o quotidiano de homossexuais como pessoas comuns, o seu dia a dia, as suas lutas e vitórias, a sua relação com a família, amigos e amantes. No Brasil, a série se chamou Os
Assumidos e em Portugal, Diferentes como Nós.
12 Respectivamente, os sites dos festivais artísticos são os seguintes: https://qcc2.org/nqaf2017 (Estados Unidos),
No ramo dos reality shows, o programa Queer eye for the straight guy (2003-2007) – de- pois renomeado para Queer Eye – foi um dos maiores sucessos comerciais recentes da televisão norte-americana. A atração era comandada pelos “Fab 5” (“Cinco Fabulosos”), cinco homens gays que propunham fazer um makeover, isto é, uma transformação drástica – ou um “make-
better”, no jargão do programa – em um homem heterossexual (“straight”). Para tanto, cada apre-
sentador usava uma habilidade específica para modificar o guarda-roupa do hétero da vez, que também recebia dicas de estilo, gastronomia, decoração e comportamento. Apesar de ser criticado por reforçar estereótipos homossexuais (Sander, 2005), o reality show ganhou várias versões in- ternacionais e, desde 2018, um reboot com novos apresentadores está sendo exibido pela Netflix. Vale mencionar ainda a animação norte-americana Queer Duck (2000-2004 e, mais tarde, um filme em 2006), a primeira série televisiva de desenho a colocar a homossexualidade como tema central. O Queer Duck é um pato gay que usa uma camiseta com as cores do arco-íris, tra- balha como enfermeiro e namora o jacaré Openly Gator. Com muito humor nonsense e uma críti- ca sulfúrica aos padrões heteronormativos, o cartoon mostra a vida do protagonista, seu compor- tamento diante dos pais, irmãos e amigos, e suas histórias tanto divertidas quanto traumáticas: o
bullying por parte de seu irmão hétero, a mãe judia negando a sexualidade do filho, a violência
homofóbica sofrida pela Ku Klux Klan, etc. (Figura 29).
Figura 29: Exemplos da temática queer nos mass media e na cultura pop
Fonte: IMDb (Disponível em: http://imdb.to/IWLc0e. Acesso em: 01/07/19).
Mas o mais bem-sucedido exemplo da penetração da cultura queer nos meios de comuni- cação de massa é o reality show estadunidense RuPaul’s Drag Race, no ar desde 2009. Concebi- do e comandado pela célebre drag queen RuPaul, o programa é uma competição que tem como
mote coroar o carisma, a singularidade, a coragem e o talento de uma drag queen, merecedora do título de “America’s Next Drag Superstar” (Figura 30).
Figura 30: RuPaul’s Drag Race (2009 até hoje)
Fonte: IMDb (Disponível em: http://bit.ly/2XkoFGe. Acesso em: 01/07/19).
Finalmente, como últimos exemplos, é possível elencar cinco interessantes casos brasilei- ros: os reality shows competitivos de drag queens intitulados Glitter: em busca de um sonho (TV Diário/Fortaleza, 2012), Academia de Drags (ASC Audiovisual/YouTube, 2014) e Drag-se (Su- ma Filmes/YouTube, 2014); o reality show de transformação de aparência Drag me as a queen (canal E!, 2017); e o desenho animado nacional Super Drags (Netflix, 2018) (Figura 31).
Figura 31: Programas brasileiros de temática queer/drag queen (anos 2010)