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Após essa rápida digressão, cumpre analisar o seu apostolado em Salvador. Dom Avelar ao chegar encontrou uma Igreja animada com as mudanças ocorridas durante o governo episcopal de Dom Eugênio de Araújo Sales (1968-1971)15 na perspectiva do Concílio Vaticano II, como por exemplo, a criação de zonais da Arquidiocese e 17 novas paróquias, algumas delas entregues a padres estrangeiros. Dom Eugênio também promoveu a instalação da Escola Diaconal Arquidiocesana em 1966.

Entretanto, descontando o período do pastoreio de Dom Eugênio de Araújo Sales e a nova organização territorial por ele patrocinada, Dom Avelar quando recebeu a Arquidiocese de Salvador em 1971, ela apresentava uma estrutura monárquica após os quarenta e quatro anos do apostolado de Dom Augusto Álvaro, Cardeal da Silva (1924-1968), foi essa soberania que Dom Avelar herdou e fez questão de manter. Por isso, observa-se que a tradição esteve continuamente presente nos atos do Arcebispo. Assim, podemos dizer que Dom Avelar incorporou a ideia de que essa tradição era uma doutrina a ser transmitida.

Em outras palavras, encontramos em Salvador um Arcebispo que se revelou um verdadeiro príncipe, pois a sua autoridade era essencialmente doutrinal, uma garantia da unidade e do seu poder. De qualquer forma, o seu governo colegiado não passou de uma experiência que jogava sobre a sua audiência o peso da tradição, sempre à espera de uma resposta positiva dos seus colaboradores mais próximos no cumprimento das suas solicitações.

A partir de então, a confiança e a legitimidade conferida ao bispo geraram abertura de espaços de apoio às realizações empreendidas, principalmente, as que tinham como premissas a evangelização, ou seja, levar o catolicismo às faixas mais diferenciadas da população, num pacto de permanentes objetivos, edificados doravante as demandas apontadas por estes

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Dom Eugênio de Araújo Sales chegou a Salvador em 1964 como Administrador Apostólico da Arquidiocese. Em 1968, com a morte de Dom Augusto Álvaro, Cardeal da Silva (1924-1968) foi nomeado como o 23° Arcebispo de Salvador.

mesmos fiéis e ratificadas nos seus programas de apostolado que sempre primaram pelo seu lema episcopal (De plenitudine Christi) da plenitude de Cristo.

Na realidade, Dom Avelar deu continuidade à reestruturação administrativa da Arquidiocese Primaz do Brasil, como também a sua atualização pastoral em todos os níveis e para todos os agentes de pastoral da sua jurisdição. O significado do termo pastoral advém do „agir da Igreja no mundo‟ (LIBÂNIO, 1982, p. 11), ou seja, é a face prática da Igreja; corresponde neste sentido às suas ações no mundo temporal. Esse pensamento demonstra que a palavra pastoral pode assumir significados distintos dependendo do momento na história da Igreja.

Nesse entendimento, enxerga-se uma conexão teórica entre a recomendação de Dom Avelar e os preceitos profetizados pelo Concilio Vaticano II (1969) 16 e pela Conferência de Medellín (1968). Pois é isso que subjaz à preocupação com temas sociais, apoiando os núcleos cristãos de mobilização social, porém, sem perder de vista o compromisso com a Igreja universal. Como já tinha certa experiência com o MEB, o Arcebispo procurou investir primeiro na educação de base.

Nesse contexto, Dom Avelar focalizou sua atenção e identificou algumas preocupações amplamente disseminadas na região, uma delas a pouca abrangência do sistema público educacional. No entanto, cresciam com muita vitalidade a série de acordos produzidos desde os anos 1960 entre o Ministério da Educação Brasileiro (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID) (ARAPIRACA, 1982), 17 agência norte- americana convidada para dar suporte técnico-financeiro à educação nacional. Circunscrevia ali um propósito educacional que se dizia apolítico com a intenção de combater as ideias esquerdistas, utilizando o discurso a favor da ordem e da segurança da nação.

Do ponto de vista político, essa era a concepção de educação que seria aplicada daí em diante, ou seja, os professores teriam que se alinhar sob coerção ao sistema educacional, ideologicamente, autoritário e capitalista, utilizando técnicas e livros didáticos produzidos, especificamente, a fim de concretizar uma reorganização do Estado após o golpe civil-militar.

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Concilio Vaticano II. Repercussões. O Concílio não poderia deixar de impressionar vivamente todas as coletividades, mesmo as não católicas, que sabem que de uma reunião de tal natureza sai enriquecida a humanidade inteira (1969).

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Segundo José Oliveira Arapiraca, o acordo previa mudanças radicais no processo de ensino, objetivando modernizá-lo pela internalização da filosofia pedagógica desenvolvida nos EUA. Houve toda uma mobilização dos quadros da inteligentzia pedagógica brasileira no sentido de absorção das práticas educativas observadas nos EUA, principalmente com referência à efetividade e a eficiência do aparelho alternativo para as minorias, ali desenvolvido. [...] E a educação, como não podia deixar de ser, foi a principal envolvida, contando, inclusive, com a postura acrítica de educadores (ARAPIRACA, 1982).

De maneira similar, como em outros pontos houve o choque do seu pensamento com a nova conjuntura criada pelo regime de exceção, principalmente devido à vigilância e à prisão de professores ligados ao MEB ainda em Teresina. Para os militares, a capacitação dos membros do MEB, que era feita por uma equipe nacional que se deslocava do Rio de Janeiro tinha como objetivo precípuo sublevar o povo através de uma educação marxista.

Aliás, pode-se dizer que Dom Avelar esperava mudar essa situação, pois esses problemas o incomodavam desde o seu pastoreio em Teresina. De fato, a educação nacional passou em todos os níveis por profundas transformações para adequá-la aos objetivos da quartelada de abril.

Em meio a tudo isso, seguindo a linha da Encíclica Populurum Progressio (Progresso dos Povos) de 1967 que se refere ao progresso dos povos, a Arquidiocese de Salvador procurou buscar os meios concretos e práticos de organização e de cooperação. Embora não nomeada especificamente, tampouco utilizada de uma única maneira, essa Encíclica foi utilizada por Dom Avelar como base teórica na luta contra o analfabetismo. Pois, segundo as recomendações do documento, as ações não poderiam se limitar aos programas de alfabetização, mas deveriam se estender a todo um programa de desenvolvimento.

Em sentido lato, desenvolvimento significa, de acordo com o documento, desenvolvimento integral do homem e desenvolvimento solidário da humanidade, interessando a todos os homens e a todos os povos. De acordo com a Populurum Progressio: “A Educação de Base é o primeiro objetivo de um plano de desenvolvimento. A fome de instrução não é menos deprimente que a fome de alimento” (PETIT, 1980, p. 88).

Esse apelo do Papa Paulo VI inscreve-se na concepção de desenvolvimento. Desde que se compreenda ter o desenvolvimento como centro o homem. Portanto, compreende-se que a educação, a ciência e a cultura são alicerce e coroamento, princípio motriz e meta que valoriza o desenvolvimento em sua índole. De agora em diante, Dom Avelar revela as circunstâncias que o aproximaram desse debate e, por isso mesmo, empenha-se em oferecer políticas mais agressivas na área da educação de base para aqueles que não aprenderam o suficiente em seus anos escolares, era necessário oferecer programas de segunda chance, que, muitas vezes, terão a missão de suprir demandas muito básicas.

Desse modo, o bispo argumentava que a alta taxa de desemprego entre jovens em Salvador era preocupante porque estava também, fortemente, relacionada à falta de escolaridade. A isso se acrescem a instabilidade política e social, fato compreensível, se pensarmos que um jovem quando enxerga um futuro incerto se sente mais motivado a desafiar a ordem existente. Nesse caso, a experiência conduziria ao enfrentamento das regras, era a

tentativa de corrigir ou, até mesmo, eliminar os defeitos do sistema liberal (especulação e corrupção).

Segundo Dom Avelar, esse era o caso do fascínio que os movimentos sociais de esquerda exerciam na juventude brasileira e latino-americana. Para o sacerdote, era mais do que urgente apoiar a visão cristã do desenvolvimento contida na Encíclica Populurum Progressio, a fim de construir o porvir comum da humanidade em busca da destinação universal dos bens da industrialização, da urgência da ação e da necessidade dos programas no campo da alfabetização.

Ademais, a prática econômica é, acima de tudo, um pretexto para um processo educativo, dado que se torna significativa para a busca dos laços entre o material e o simbólico, ou seja, o fato de poder comprar alimentos, de tocar de perto os mecanismos da especulação, no entendimento da Encíclica e de parte da Igreja Católica brasileira, inclusive do próprio Dom Avelar, poderia afastar o jovem das organizações marxistas de esquerda. Para isso, a Igreja, através da educação de base e do desenvolvimento solidário, deveria aprofundar raízes em três aspectos da fraternidade humana: dever de justiça social, no estabelecimento da equidade nas relações comerciais, dever de caridade universal e, por último, o dever de solidariedade.

Nesse sentido, o sacerdote apoiava a economia de mercado. Por conta disso, outros projetos políticos que se apresentaram atacando esses princípios foram rotulados pelo Arcebispo como antidemocráticos. No plano político e econômico, percebe-se, no seu discurso uma relação intrínseca entre democracia-propriedade privada e livre-iniciativa. Não por caso, são argumentos que retomam, em grande medida, o projeto político de boa parte dos articuladores de 1964. Entretanto, para Dom Avelar a retórica do comunismo e do populismo era exatamente a mesma coisa.

De qualquer forma, além do desemprego haveria um segundo fator que impedia os jovens e adultos de desfrutar dos benefícios do capitalismo: o predomínio da oferta de trabalhos precários os quais ofereciam salários muito baixos e poucas perspectivas de melhoria. Ademais, o modelo econômico brasileiro tinha a característica de ser fortemente concentrador de renda. No entanto, seria contraproducente discutir esse assunto agora, até por que a economia brasileira durante o regime de exceção já foi estudada, compondo inclusive um grande leque de publicações acadêmicas criticando a política governamental.

Em geral, para compreender esse cenário conturbado da nossa economia temos que considerar que durante toda a conjuntura do regime ditatorial houve sempre uma disputa de interpretações a respeito do funcionamento da economia do país. Na verdade, naquele

momento o Brasil passava por um processo econômico, dos quais os pontos determinantes colocados pelos economistas eram: como conter o processo inflacionário e apressar o ritmo de desenvolvimento econômico. Doravante, essa disputa era clivada não só por escolas de pensamentos diferentes, como também por economistas vinculados a grupos econômicos e políticos muito bem definidos. Todavia, o debate econômico era bem menos óbvio do que na política, muito em função dos vínculos de classe dos principais economistas do período. Consolidavam-se, dessa forma, os economistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), da Universidade de São Paulo (USP), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma escola de esquerda, dita de „tradição cepalina‟ (FURTADO, 2000, p. 41). 18

A esse respeito, havia visões discordantes e contemporâneas sobre a realidade econômica brasileira. Roberto Campos, por exemplo, acreditava no crescimento econômico atrelado ao gasto público e o controle gradual da inflação, Mario Henrique Simonsen foi o primeiro a defender a tese de que o dispositivo da correção monetária prejudica a eficácia do combate à inflação. Para Paul Singer, a instabilidade econômica dessa fase tem a sua causa não apenas em fatores externos, mas em grande parte na nossa dívida externa.

Por outro lado, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto consideravam que a exploração dos países periféricos, por parte dos países imperialistas, inviabiliza os seus investimentos internos, condenando-os ao subdesenvolvimento. Maria da Conceição Tavares, relacionou a crise econômica do período ao esgotamento do dinamismo da industrialização baseada na substituição das importações. Guido Mantega argumentava que a principal falha do modelo de substituição de importações está em uma análise equivocada do modo de produção capitalista no seu processo de acumulação primitivo.

Celso Furtado afirmou que a proposital concentração de renda permitiu o crescimento, mas agravou os problemas estruturais que iriam desembocar na crise no início da década de 1980. Para Edmar Bacha, as políticas governamentais eram responsáveis pelo aumento da concentração de renda, principalmente no que tange ao salário. Por fim, Antônio Delfim Netto, alertava que um dos entraves ao desenvolvimento seria justamente o intenso

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Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (CEPAL). Segundo Celso Furtado, o ponto de partida da reflexão sobre o desenvolvimento é a apreensão da realidade social; mais precisamente, a identificação das entidades que assumem as novas formas. Essa realidade é apreendida, por um lado, como algo estruturado e, por outro, desdobrando-se no tempo, vale dizer, como um processo. Assim, a CEPAL produziu toda uma reflexão sobre a realidade socioeconômica dos países subdesenvolvidos, apresentando um conjunto de políticas e ambicionando à progressão do atraso pela via da industrialização (FURTADO, 2000, p. 41).

movimento inflacionário resultante da alta taxa de formação de poupança. No governo, procurou combater à inflação com crescimento econômico.

Resta ressaltar, a respeito das novas perspectivas de organização da sociedade civil advindas com o golpe civil-militar de 1964, dois fatores são percebidos em circulação: o poder de mando e o poder das ideias. Entretanto, a compreensão do social por parte da Igreja também mudava, o problema é que esse aperfeiçoamento desejado pelo clero soava para os militares como um perigoso incremento político junto à massa. Cabe registrar, aqui, a seguinte passagem de um depoimento do sociólogo Herbert José de Souza, o „Betinho‟, sobre o perigo que de fato pesava na balança do poder:

A sensação era de um país em movimento. Sua luta de classes, sua luta política, dava a sensação que algo era possível fazer, que um processo revolucionário estava em curso. Estou convencido de que até 1963 um processo revolucionário era possível no Brasil. Possivelmente não o socialismo. Era como se todas as classes sentissem que essa possibilidade era real, o que levava a que elas participassem no processo. [...] Para nós da Ação Popular era difícil entender, na conjuntura tumultuada do momento, que você devia parar para fazer uma análise e ter um entendimento mais profundo do que era aquilo tudo (Apud CAVALCANTI & RAMOS, 1978, p. 293).

Convém, no entanto, não perder de vista a conjuntura. Havia na visão de uma ala politicamente conservadora da Igreja um inimigo na sociedade brasileira: o Marxismo. Para combatê-lo, a Instituição, a classe média conservadora e o governo deveriam se unir em torno de um projeto político. Sob este ponto de vista era, portanto, preciso fugir da ideia de um igualitarismo utópico na educação, pois segundo o Estado autoritário a liberdade em excesso provoca também a permissividade. Com efeito, a pedagogia catequética que a Igreja tentou aprofundar como uma fuga ao secularismo adotado pela ditadura civil-militar estava ficando cada vez mais distante, o momento indicava para Dom Avelar que era importante valorizar cada vez mais o campo espiritual.

Num primeiro momento, o que mudou, ao longo do período na sua atividade pastoral contra o analfabetismo, foi a compreensão de que educar para a igualdade e participação significava, naquele momento, criar um problema com o regime instalado, o qual esperava da Igreja a colaboração exemplar contra doutrinas exóticas. Sob essa ótica, Dom Avelar considerava que um grande dissídio havia se formado entre o Estado e a Igreja. Nesse caso, foi preciso lutar para desenvolver uma personalidade na Arquidiocese capaz de compreender

e respeitar os limites da própria natureza de ser livre, de tal modo que a população não fosse asfixiada pelo Estado, nem por ele desprezada e jogada à própria sorte.

Nesse sentido, aparentemente, a Arquidiocese teria absorvido de forma ingênua e acriticamente as diretrizes que eram dadas por parte do governo civil-militar no que tange à ideia de uma educação que, de acordo com a Igreja, estava longe de promover a coesão da sociedade e o respeito a sua organização. Em outros termos, o que os militares desejavam era o de sempre: a Igreja dava o aval às políticas sociais dos governos e, em retorno, a Igreja recebia alguns benefícios. Seria ocioso reconstituir aqui detalhadamente o processo de elaboração dessa representação política entre o Estado e a Igreja ao longo da história, fato já bastante estudado e elucidado.

Como se depreende, a Arquidiocese de Salvador não se evadirá à prestação de serviços, como alguém que faz as malas e desiste nos primeiros desafios, apenas passará a atuar na intuição do seu líder maior, aceitando pelo menos em parte as regras impostas pelo regime de exceção no que se refere à formação. Com efeito, é interessante observar que nesse período foi grande a incidência de várias associações de movimentos leigos acolhidos pelo bispo e que foram fundamentais no trabalho de catequese e educação.

E isso ainda não é tudo: quando analisamos as homilias de Dom Avelar, nessa conjuntura, há uma grande relevância dada à liturgia, ou seja, o sacerdote desloca suas ações em torno do Evangelho, advertindo sobre a frequência à Missa e à Eucaristia, mas também na pregação constante e persuasiva de que o centro das associações católicas girava em torno da mesa da comunhão. Essa estratégia visava utilizar o leigo como elemento essencial na prática educativa.

Todavia, Dom Avelar conclama tanto ao laicato católico ligado à elite política dominante, quanto às diversas associações de leigos que colaborassem na educação dos jovens, em busca de uma alfabetização universal, tornando a educação disponível para todos. O fato é que, desde a década de 1970, por vários fatores externos e internos, não apenas ocorreu uma reorientação institucional da Igreja em busca da base, como também uma verdadeira ocupação de largos espaços eclesiais por diversas organizações católicas ligadas à classe média que começavam a surgir, entre as quais: Renovação Carismática Católica (RCC), cujo primeiro grupo de oração surge em 1973; Oração pela Arte (OPA), criado em 1976; Movimento Escalada, implantado em 1978 por jovens; Encontro de Casais com Cristo (ECC) - 1979; Movimento Focolares - 1980; Encontro Matrimonial Mundial, também conhecido como encontro do diálogo; Federação das Congregações Marianas; Legião de Maria; Vicentinos, e outros movimentos (ARQUIDIOCESE DE SALVADOR, 2005, p. 102).

A essa altura, evitando complicações políticas, Dom Avelar conseguiu dar procedimento ao seu trabalho como alternativa ao radicalismo e à suposta desorientação política na sociedade civil. Para o sacerdote, a educação não poderia estar sendo deixada em segundo plano em relação a outras preocupações. De fato, a base do discurso de Dom Avelar sustentava-se na importância dada ao trabalho desses leigos junto aos vários segmentos sociais, porém, fiéis à doutrina de Roma.

Na verdade, essa aproximação com o leigo lembrava a antiga Ação Católica, organismo criado pela Igreja na década de 1930 para resgatar o seu poder político junto ao Estado. Em sua estrutura definitiva, decorrente de reforma ocorrida entre 1948/50, a organização passou a contemplar movimentos especializados, instituídos para atuar em meios específicos da sociedade. Setores formados por e para segmentos da juventude adquiriram especial dinamismo tanto no tocante à participação nos debates quanto no desenvolvimento de ações concretas, mas havia sido criticada por causa das implicações políticas dessa vertente laical com os setores da esquerda.

O ponto importante, é que, para entender a significação histórica dos leigos nesse movimento, deve-se reconhecer não apenas o apoio dado pela Arquidiocese a esse trabalho, mas também a existência de conflitos e perseguições que surgiram por parte do regime de exceção, pois a metodologia estava centrada na educação pela ação. Por essa razão, a tensão entre a Igreja e o Estado em Salvador como em todo o país foram se avolumando motivada por circunstâncias reais.

Para o sacerdote, naquela conjuntura política, todas as questões, fossem educacionais ou não, deveriam ser resolvidas a partir do diálogo com o Estado. Nesse momento, não poderia existir divisão de classes, era preciso reunir e dissolver os conflitos que pudessem surgir. Eis aqui um ponto-chave, ele acenava com o consenso social via ordem simbólica, propunha, portanto, um Estado não baseado num partido único, ou numa ditadura civil- militar, mas apoiado na ação formadora de consenso por parte da Igreja. De fato, Dom Avelar enxergou como ninguém o horizonte ideológico dessa época, uma vez que a sua nova postura