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The quantum dot: conning the carrier in 3 dimensions

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I.1 II-VI semiconductor quantum dots

I.1.3 The quantum dot: conning the carrier in 3 dimensions

O ponto de interrogação parece sempre mover o pensamento dialético do cientista político pernambucano Joanildo Burity. Em seu artigo intitulado “Novos Paradigmas e Estudo da Religião: uma reflexão anti-essencialista”, datado de 2000, o autor já abre a discussão com uma avalanche de perguntas: “A religião está de volta? Para onde? De onde?...”. E assim por diante. Questiona os principais paradigmas existentes acerca dos estudos da religião, analisando-os um a um.

O autor procede da mesma forma em relação ao debate sobre a relação entre religião e política. Em seu outro texto, sob o título “Religião, voto e instituições políticas: notas sobre os evangélicos nas eleições 2002”, como o próprio nome já diz, parte desse recorte histórico para examinar a situação nacional. Mas antes mesmo de se debruçar em seu objeto de estudo, tece algumas considerações acerca do segmento evangélico e da imbricada relação religião e política.

Para Burity, a inserção dos evangélicos na cena política teve dois efeitos dignos de nota: primeiro, a de uma “descontinuidade do jogo político”, uma vez que são introduzidas nas “instituições representativas” atores estranhos à política organizada ou sem quaisquer vínculos com as elites laicas integradas ao sistema político brasileiro. Trata-se de uma referência, no nosso entendimento, às oligarquias políticas. (aspas nossas, grifos do autor, BURITY, 2005, p. 173)

O segundo efeito diz respeito à introdução na “linguagem política” de elementos de outra “língua”, porém familiares a dos novos atores, ou seja, a “língua da religião”. (aspas nossas, grifos do autor, BURITY, 2005, p. 174). Burity observa que esses elementos estranhos à política serão vistos sempre com uma certa desconfiança, o que gera suspeitas em torno das “intenções desse grupo”, a natureza do “projeto político” e o “compromisso com a democracia”. (BURITY, 2005, p. 174).

Como se não bastasse, segundo Burity, “antepõem-se, ainda, exigências de credenciais de cultura política e de comportamento coletivo para a aceitação de novos participantes” (BURITY, 2005, p. 174). Fugindo um pouco do tema em discussão, as considerações levantadas pelo autor nos remetem ao palhaço Tiririca24, cujas principais críticas feitas a ele,

24Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido por Tiririca, foi eleito pela primeira vez para deputado

federal, em 2010, pelo Partido Republicano de São Paulo, obtendo 1,35 milhão de votos, sendo o campeão nacional de votos. Com isso, garantiu a eleição de mais três deputados da coligação da qual fazia parte. Em 2014, foi reeleito pelo mesmo partido, dessa vez com menos 250 mil votos, mesmo assim sendo o segundo deputado federal mais

por ocasião de sua eleição para a Câmara dos Deputados, diziam respeito ao fato de ele não estar credenciado para o cargo. Dito de outro modo, ele era “um estranho no ninho”, assim como foram os evangélicos no início de sua incursão no espaço político. Se o lugar do palhaço deveria ser o picadeiro, o dos evangélicos deveriam ser os púlpitos.

Assim, praticamente todos os autores aos quais nos referimos aludem à participação desde sempre da Igreja Católica na política. Burity reitera essa posição, porém atentando para o fato de essa entidade religiosa fazer um trabalho “silencioso”. (BURITY, 2005). Se por um lado o cientista político atesta essa participação ao longo dos tempos da Igreja Católica, por outro, busca destruir boa parte das posições que se cristalizaram sobre a relação religião e política.

Para Burity, falar de “bancada evangélica” constitui um mito, pois em sua concepção os parlamentares evangélicos têm muito mais divergências, só votando em bloco em dois momentos, ou seja, quando o que está em pauta são questões corporativas ou que se referem a valores morais, caros à coletividade evangélica (BURITY, 2005, p. 195). Nesse sentido, reforça-se a ideia de outros autores de que não há homogeneidade de pensamento, acrescentando serem as uniões momentâneas, em torno de temas específicos. (BURITY, 2005, p. 198).

Quanto à existência de uma clivagem religiosa na esfera política, o autor sustenta que “não há nenhuma evidência de que qualquer clivagem religiosa esteja colocada ou em vias de se afirmar na política brasileira” (BURITY, 2005, p. 198). Uma das razões apresentadas por Burity é de que não existe um alinhamento evangélico, com uma única tendência partidária ou ideológica. Para ilustrar seu posicionamento, o autor lembra as campanhas eleitorais, nas quais esse grupo religioso não necessariamente vota em bloco, ainda que haja uma tendência “governista” (BURITY, 2005, p. 199).

Para Burity, também não há nenhuma evidência que aponte para um “projeto político” por parte dos evangélicos. Em sua concepção, o “projeto político” depende “das forças sociais e políticas com as quais interagem suas correntes atuantes no cenário político”. (BURITY, 2005, p. 199). Em artigo25 mais recente, produzido em parceria com a socióloga Maria das

votado pelo estado de São Paulo. Disponível em https://exame.abril.com.br/brasil/tiririca-e-reeleito-deputado- com-grande-votacao/. Acesso em 16 out. 2017.

25O nome do artigo é Ascensão Política dos Pentecostais no Brasil na Avaliação de Líderes Religiosos (2014).

Vale ressaltar sobre este trabalho tratar-se de um estudo pouco comum acerca da religião no Brasil, uma vez que parte de uma pesquisa qualitativa com lideranças religiosas, objetivando conhecer melhor o “outro lado da moeda”, ou seja, a visão dessas lideranças formadoras de opinião no meio pentecostal, no que se refere a uma série de temáticas sociais, políticas e econômicas. Dentro deste leque, os pesquisadores priorizaram as posições e iniciativas das lideranças entrevistadas, em relação a temas como aborto, homossexualidade, corrupção etc. Como constatado por um dos autores, o cientista político, Joanildo Burity, em outro de seus artigos datado de 2005,

Dores Campos Machado, a partir de uma pesquisa qualitativa feita com importantes líderes do segmento evangélico acerca da política e de outras temáticas, Burity rechaça novamente a ideia de um “projeto político pentecostal”. O autor argumenta que, no contexto atual, a política é uma questão de “sobrevivência” entendida como “um ter que fazer política” (MACHADO; BURITY, 2014, p. 613), o que não significa necessariamente almejar uma condição de hegemonia.

Num entendimento clássico, leninista, de hegemonia como imposição de um projeto vitorioso por via eleitoral ou revolucionária sobre toda a sociedade, não há nada no discurso das lideranças pentecostais entrevistadas que autorize essa conclusão. Assim, o reiterado debate sobre o “projeto pentecostal” como uma espécie de modelo neoconstantino ou neogenebrino de fusão entre autoridade religiosa e autoridade política é, no mínimo, equivocado. (MACHADO; BURITY, 2014, p. 613).

Burity admite haver “uma combinação de conservadorismo e pragmatismo no maior filão de participação evangélica”. Para o autor, existe também uma tendência à convergência com relação a temas “particularmente sensíveis aos religiosos, como aborto, sexualidade ou violência nos meios de comunicação” (BURITY, 2005, p. 201).

Na contramão do que pensam alguns dos autores aqui arrolados, Burity sustenta que a presença do religioso na política não constitui uma ameaça à democracia per si, “certamente não mais do que outras forças culturais e políticas perfeitamente seculares em operação nas democracias de fato” (BURITY, 2005, p. 209). O cientista político pernambucano, em referência à religião em geral, sugere uma nova forma de olhar que não seja sob os paradigmas da secularização e/ou da modernização, que ele considera normativos. (BURITY, 2000).

Em artigo mais recente, datado de 2017, ou seja, pós-impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Burity lança uma nova reflexão26 sobre a presença evangélica no espaço público. O autor admite a emergência de uma onda conservadora na política brasileira, porém credita isso

normalmente as análises sobre a religião são feitas a partir “de um lugar, sujeitando-se às disputadas que vêm de outros lugares”. O diferencial do artigo publicado pelo autor em 2014 (juntamente com Maria das Dores C. Machado) é trazer uma análise a partir do “lugar de fala” (BOURDIEU,1996; ELIAS, 1994; BRAGA; 2000) do próprio segmento evangélico. Ver mais sobre este artigo em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582014000300601&lng=pt&tlng=pt.

26 No artigo que recebe o título “A onda conservadora na política brasileira traz o fundamentalismo ao poder?”, o

cientista político pernambucano, Joanildo Burity, reflete sobre alguns termos que ganham força após o

impeachment da presidente Dilma Rousseff. São eles: conservadorismo, fascismo e fundamentalismo. O autor

lembra o fato de que logo após a sessão do Senado Federal que julgou a admissibilidade do impedimento da petista, em agosto de 2016, intelectuais da Universidade Federal de Campinas se reuniram no Fórum Penses, para compreender o acontecimento histórico. Tendo como tema “Conservadorismos, fascismos e fundamentalismos”, o evento se propôs a discutir, sobretudo, a conjuntura política brasileira, partindo do questionamento se o país estaria vivenciando uma onda conservadora. As informações são do próprio autor, que participou da mesa “Religião no espaço público”.

a um processo global, numa clara referência a outros países em que o conservadorismo reemergiu, como é o caso dos Estados Unidos na era Trump. Sobre essa onda conservadora, o cientista político acrescenta que:

[...] a onda conservadora não se contém nas fronteiras nacionais, nem se origina de seu interior. A geografia e a cronologia dessa onda não são singularmente brasileiras nem definidas de modo estável e linear. Não têm ordem, nem progridem linearmente. Uma maré montante de reação conservadora crescentemente globalizada se ergueu no mesmo período, grosso modo, quero insistir, que a reação brasileira identifica como a temporalidade do desastre de que pretende nos redimir, só que muito mais ampla da dinâmica brasileira: desde o início do novo século. Seus sinais apontam precisamente para uma resposta e uma recusa a processos iniciados anteriormente à conjuntura pós-2014. Donde se tratar de uma reação conservadora. (BURITY, 2017, p. 21-22, grifos do autor).

Ainda sobre o conservadorismo que tem se sobressaído na esfera pública, Burity pondera que ele não é propriamente uma novidade, porém tornou-se “mais desabrido, insolente, sem meias-palavras e sem meia-medidas” (BURITY, 2017, p. 21). Quanto ao recrudescimento de um fundamentalismo religioso, o autor é mais reticente a essa assertiva. Ainda que admita um aumento do protagonismo dos evangélicos, sobretudo a partir do episódio do impeachment de Dilma Rousseff, e um acirramento do conservadorismo, o cientista político reitera seu posicionamento de que a “bancada evangélica” não é monolítica, homogênea, posto que “Alguns parlamentares parecem vestir o figurino de ‘fundamentalista’, mas muitos não”. (BURITY, 2017, p. 45).

Para Burity, “A melhor literatura científico social recente, brasileira e internacional, não autoriza esse movimento classificatório-acusatório”. (BURITY, 2017, p. 45). Ele complementa que o termo fundamentalismo é uma categoria de combate acionada, geralmente, pelos adversários dos pentecostais – no caso, e principalmente, os movimentos sociais minoritários – que tendem “a evocar paralelismos com grupos radicais islâmicos, hindus, budistas, judeus, produzindo uma resposta classificatória e denunciatória aos ‘evangélicos’, transformados em metonímia de ‘pentecostais’”. (BURITY, 2017, p. 49). Dito de outro modo, é mais uma força de expressão do que uma realidade.

Ao tratar de outra assertiva muito comum sobre a presença do religioso no espaço público, isto é, do especificamente religioso, como se essa fosse a única “língua” pronunciada, Burity argumenta que esta se aplica “apenas à novidade representada pela presença pentecostal no proscênio do golpe, legitimando abertamente o processo de impeachment e as propostas do

governo interino [de Michel Temer]”. (BURITY, 2017, p. 45, grifos do autor). Contudo, o cientista político observa que;

[...] não há um especificamente religioso que dê sentido ao golpe, como marcação de uma clivagem religiosa no cenário político, definidora de uma agência particular. Os pentecostais não estão, como conjunto demográfico e interdenominacional, inteiros nesse processo. A Frente Parlamentar não é p espelho de todos os evangélicos. E o perfil desse corpo heterogêneo não autoriza sua assimilação ao conceito (ou ao bordão) de fundamentalista. (BURITY, 2017, p. 45).

Pedro Heitor Barros Geraldo, em artigo no qual analisa as múltiplas identidades de Marcelo Bezerra Crivella na campanha para prefeitura do Rio de Janeiro em 2004, corrobora com parte do pensamento de Burity por acreditar não haver “uma ‘religionização’ do campo político, ou seja, o sentido político não passa a ser religioso” (GERALDO, 2012, p. 116). Mais condescendente do que Burity, o autor aponta no sentido de que a presença dos evangélicos na esfera política pode “fomentar a democracia através de sua participação coletiva”. (GERALDO, 2012, 118).

Ao discorrer sobre a secularização, Geraldo argumenta que “Numa clivagem secularizada, a religião é tida como um conjunto de valores que são mobilizados estrategicamente na arena política”. (GERALDO, 2012, p. 121). Depuramos desta assertiva do autor que outro conjunto de valores que não os religiosos também podem ser mobilizados de modo a se ganhar uma eleição, na qual, para ele, o que interessa é angariar votos e mais votos. O autor de O Senador e o Bispo: As estratégias de construção identitária nas eleições

municipais cariocas considera que a utilização do recurso religioso é válido, pois pode resultar

em uma quantidade maior de votos para um determinado candidato. Portanto, para ele “Não há por que se falar em ‘religionar’ ou mesmo ‘evangelizar’ o espaço político, na medida em que a identidade religiosa é um artefato construído estrategicamente por atores específicos para reagir a situações pontuais” (GERALDO, 2012, p. 121).

No caso específico de Crivella, personagem no qual Geraldo se deteve – e sobre o qual voltaremos a falar mais adiante – o autor é taxativo ao afirmar que o que interessava ao político vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus era vencer as eleições, desejo este comum a todos que se candidatam a algum cargo político, sendo o pretendente religioso ou não. Em última análise, o que interessa ao político profissional, tanto no sentido weberiano (2011) quanto no sentido do senso comum, é o voto, não importa de que segmento ele venha. Depreendemos da análise deste autor que ele aponta para um pragmatismo político, capaz de mobilizar argumentos de toda ordem.

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