CHAPITRE 2 - Le référencement : une technique documentaire ou marketing ?
3. Un référencement différencié en fonction des outils de recherche et des objectifs
3.3. Quand le référencement est devenu de la publicité…
bell hooks
reição contra o patriarcado, a rebelião contra a dominação mascu- lina. Como estratégia de desafio funcionou. Os homens não se po- deriam considerar líderes ou até mesmo participantes radicais no movimento feminista. Os homens não podiam ser “feministas”. As mulheres eram parte interior do movimento – os homens eram parte exterior e alheia. Com efeito, o movimento das mulheres anunciou a sua exclusividade. Dada esta estrutura, ativistas e aca- démicos feministas sentiram pouca ou nenhuma responsabilidade em explorar criticamente as questões dos homens para mapear es- tratégias feministas para a transformação da masculinidade.
Foi possível compreender o erro de determinadas posições to- madas à medida que a luta feminista progrediu e à medida que a nossa consciência crítica se aprofundou e amadureceu. Agora, po- demos reconhecer que a reconstrução e a transformação do com- portamento masculino, da masculinidade, é uma parte necessária e essencial da revolução feminista. Ainda assim, a consciência crí- tica da necessidade de tal trabalho não levou à produção de um grupo de estudos feministas significativo que aborde completa- mente estas questões. Grande parte do pouco trabalho que existe sobre os homens tem sido realizado por homens. Só recentemente as académicas feministas afirmaram com veemência a nossa preocupação, o nosso interesse em pensar e fazer o trabalho sobre os homens. As mulheres que escreveram sobre homens (por exem- plo, Phyllis Chesler e Barbara Ehrenreich) não falaram sobre o seu trabalho como se fosse, de alguma forma, excecional ou único. Dadas as muitas obras feministas que não se concentram de forma alguma nos homens, vale a pena especular e explorar a na- tureza deste silêncio.
Para muitas mulheres, não é uma tarefa simples falar sobre os homens ou considerar escrever sobre eles. Na sociedade pa- triarcal, o silêncio tem sido para as mulheres um gesto de sub- missão e cumplicidade, especialmente o silêncio sobre os homens. As mulheres guardaram fielmente os segredos masculinos, recu- saram-se de forma passional a falar sobre o assunto dos homens – quem são, como pensam, como se comportam, como dominam. Este silêncio é frequentemente aprendido quando ainda somos crianças e jovens do sexo feminino. Muitas de nós fomos ensina-
das que não devíamos falar diretamente com os nossos pais ou a respeito deles, porque eram homens, a menos que eles quisessem falar connosco. Eles nunca deveriam ser abordados criticamente. Crescendo numa família operária dominada pelos homens, sulista, negra, nós vivíamos como se estivéssemos em dois espaços sociais. Um era um mundo sem o pai, quando ele ia trabalhar, e esse mundo estava cheio de discursos. Os sons que emitíamos po- deriam ser aumentados. Poderíamos expressar-nos em voz alta, apaixonadamente, escandalosamente. O outro mundo era um es- paço social dominado pelos homens, onde o som e o silêncio eram ditados pela sua presença. Quando ele regressava a casa (e mui- tas vezes esperávamos, observávamos e ouvíamos o som da sua chegada), ajustávamos o nosso discurso ao seu humor. Nós dimi- nuiríamos o volume, diminuiríamos as nossas vozes; nós, se ne- cessário fosse, ficaríamos em silêncio. Neste mesmo mundo de infância, nós testemunhamos as mulheres – as nossas avós, mães, tias – falarem com força e poder em espaços sexualmente segre- gados, depois recuarem para um reino de silêncio na presença dos homens. A nossa avó, que falava sem parar, rápida e duramente, era um exemplo para mim e para as minhas irmãs da mulher que não seríamos. De alguma forma, o seu mero amor pelas palavras, pelo discurso, a sua disposição para contestar, responder com ou- sadia, roubou o privilégio masculino do meu avô. Ela menorizou- o; ela tornou-se menor. Nós sabíamos disto, pois ouvíamos o que os adultos à nossa volta diziam sobre ela e temíamos ser como ela. Temíamos o discurso. Temíamos as palavras de uma mulher que pudesse aguentar e resistir qualquer debate ou discussão com um homem.
A produção académica feminista sobre mulheres que são fisi- camente agredidas por homens é repleta de relatos autobiográfi- cos de homens punindo as mulheres por falar, quer falemos para defendermo-nos, para envolvermo-nos em discussões críticas ou apenas para dizermos alguma coisa – qualquer coisa. É como se o próprio ato de falar, em que uma mulher fala com um homem, carregasse nesse gesto um desafio, uma ameaça à dominação masculina. Talvez fosse um desejo profundamente socializado de evitar tal discurso, tal confronto que levou as mulheres contem-
porâneas a promover um ativismo feminista que desvalorizou a importância da conversa com e sobre os homens. Talvez houvesse um medo profundamente enraizado de que não sairíamos de tais confrontos triunfantes, vitoriosas. Talvez tivéssemos medo de que o feminismo nos falhasse. Certamente, muitas mulheres feminis- tas individuais, inclusive eu, experimentaram essa perda de força e poder enquanto lutávamos para conversar com os homens nas nossas vidas sobre a dominação masculina, sobre a necessidade de mudança. Talvez um profundo desespero informasse e informe às feministas de que é inútil falar com homens ou sobre homens. No entanto, manter este silêncio, não resistir coletivamente, é render e ceder o poder que emerge com o discurso feminista.
Em muitas produções feministas, o silêncio é evocado como um significante, um marcador de exploração, opressão, desuma- nização. O silêncio é a condição de alguém que foi dominado, transformado em objeto; falar é a marca da libertação, é fazer-se sujeito. Desafiando os oprimidos a falar como forma de resistir e rebelar em “Uma Litania para a Sobrevivência”, a poeta Audre Lorde escreve:
e quando falamos temos medo as nossas palavras não serão ouvidas nem bem-vindas
mas quando estamos em silêncio ainda temos medo
então é melhor falar lembrando
que nós nunca fomos feitos para sobreviver
O ato de falar é uma forma de as mulheres chegarem ao poder, contando as nossas histórias, partilhando história, com- prometendo-se em discussões feministas. No início, as sessões de consciencialização feministas forneceram um espaço para as mu- lheres testemunharem a dor da exploração e da opressão na so- ciedade dominada pelos homens. Rompendo longos silêncios, muitas mulheres deram voz pela primeira vez à tristeza, angús- tia, raiva, amargura e até ao ódio profundo. Este discurso foi uma parte da luta das mulheres para resistir ao silêncio imposto pela dominação masculina. Foi um ato de resistência. E isso era amea- çador. Embora tenha sido a fala que permitiu que as mulheres se
rebelassem e resistissem, foi apenas uma etapa no processo de educação feminista para a consciência crítica, uma etapa no pro- cesso de transformação radical.
A próxima etapa teria sido o confronto entre mulheres e ho- mens, a partilha deste novo; e a partilha deste novo discurso ra- dical: as mulheres falando aos homens numa voz liberta. Foi esta confrontação que tem sido, em grande medida, evitada. No en- tanto, este confronto deve continuar a acontecer se as mulheres quiserem entrar plenamente na luta feminista como sujeitos e não como objetos. Este discurso feminista de confrontação, fun- damentalmente rebelde e desafiador indica uma mudança no sta-
tus subordinado das mulheres. Identifica-nos como participantes
ativos numa luta feminista revolucionária. Uma tal luta, é essen- cial para a transformação dos papéis de género, da sociedade para a qual os explorados e oprimidos falam entre nós, mas é igual- mente essencial que abordemos, sem medo, aqueles que nos ex- ploram, oprimem e dominam. Se as mulheres permanecem incapazes de falar com e sobre os homens numa voz feminista, então o nosso desafio relativamente à dominação masculina nou- tras frentes está seriamente enfraquecido.
O sexismo é único. É diferente de outras formas de dominação – racismo ou classismo – em que os explorados e oprimidos não vivem em grande número intimamente com os seus opressores ou desenvolvem as suas relações amorosas primárias (familiares e/ou românticas) com indivíduos que oprimem e dominam ou par- tilham privilégios alcançados pela dominação. Por isso, é tanto mais necessário que as mulheres falem aos homens numa voz li- berta. O contexto destas relações íntimas é também o local de do- minação e opressão. Quando uma rapariga em cada quatro é vítima de incesto masculino, uma mulher em cada três é violada e metade de todas as mulheres casadas são vítimas de violência masculina, abordar as maneiras pelas quais homens e mulheres interagem diariamente deve ser uma preocupação das feministas. As relações de cuidado e intimidade muitas vezes mediam o con- tato entre mulheres e homens dentro do patriarcado, apesar de nem todos os homens dominarem e oprimirem necessariamente as mulheres. Apesar do patriarcalismo e sexismo, existe um po- tencial entre os homens para a educação para a consciência crí-
tica. Há a possibilidade de radicalização e transformação. En- quanto a grande maioria das mulheres escolhe desenvolver e manter relações íntimas com os homens, a transformação desses encontros deve necessariamente ser um foco essencial da luta fe- minista, para que eles não se tornem um local de dominação mas- culina e opressão das mulheres.
O movimento de mulheres contemporâneas nos Estados Uni- dos da América teve um grande impacto em mulheres individuais que lutam para transformar as suas vidas, as suas situações par- ticulares. Não surpreendentemente, as mulheres com o maior grau de privilégio de classe e raça tiveram o maior sucesso no que diz respeito à luta contra as restrições impostas pelo sexismo e pela dominação. A sua experiência é excecional. A consciencializa- ção feminista para mulheres que não têm estes privilégios pode aumentar e intensificar a frustração e o desespero em vez de servir a uma função libertadora. Ao invés, pode levar a um maior senti- mento de impotência, falta de esperança e preparar o terreno para uma depressão debilitante. Este é particularmente o caso das mu- lheres não privilegiadas que vivem em relacionamentos com ho- mens, mãe e educadoras que não veem meios de sobreviver economicamente ou obter autossuficiência económica sozinhas.
Embora a educação feminista para a consciência crítica, quer seja na leitura da escrita feminista ou na partilha de pensamen- tos feministas com um amigo, possa trazer uma autoconsciência crítica e um maior entendimento sobre as formas que a domina- ção masculina assume nas suas vidas, ela não lhes permitirá transformar as suas relações com os homens. Os trabalhos femi- nistas que focam as estratégias que as mulheres podem usar para falar aos homens sobre a dominação e a mudança masculinas não estão prontamente disponíveis, se é que existem. No entanto, as mulheres têm um desejo profundo de partilhar a consciência fe- minista com os homens nas suas vidas, e juntas trabalham para transformar os seus relacionamentos. A preocupação com esta luta básica deve motivar os pensadores feministas a falar e a es- crever mais sobre como nos relacionamos com os homens e como mudamos e transformamos relacionamentos com homens carac- terizados pelo domínio.
Considerando o quanto a masculinidade, tal como é social- mente construída dentro do patriarcado, encoraja os homens a considerar as palavras da mulher como um discurso sem subs- tância ou valor ou como uma potencial ameaça, as mulheres in- dividuais não podem esperar comunicar efetivamente o pensamento feminista com familiares homens, companheiros, etc., sem estratégias cuidadosamente ponderadas. Nós, como mu- lheres, realmente precisamos ouvir-nos mutuamente sobre como comunicamos o pensamento feminista aos homens. Lutar para criar um contexto de diálogo entre mulheres e homens é uma ta- refa subversiva e radical. O diálogo implica conversa entre dois sujeitos, não um discurso de um sujeito e um objeto. É um dis- curso humanizador, o que desafia e resiste à dominação.
Na Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire enfatiza a impor- tância do diálogo e liga-o à luta dos oprimidos para se transfor- marem em sujeitos. Ele realça que “sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo. Daí que seja essencialmente tarefa de sujeitos e que não possa verificar-se na relação de dominação”. Freire comenta ainda:
Cada vez nos convencemos mais da necessidade de que os ver- dadeiros revolucionários reconheçam na revolução, porque é um ato criador e libertador, um ato de amor... Não é devido à deterioração a que se submete a palavra amor no mundo capi- talista que a revolução vai deixar de ser amorosa....
Significativamente, a dominação masculina suprime este diá- logo que é essencial para o amor, de modo que mulheres e homens não possam ouvir-se a conversar uns com os outros enquanto vivem as suas vidas diariamente. Como os estudiosos feministas falam mais sobre o patriarcado, é importante que abordemos a verdade de que as circunstâncias da dominação masculina tor- nam impossível a existência de relações autênticas e amorosas entre a maioria das mulheres e homens. Devemos distinguir entre os laços de cuidado e compromisso que se desenvolvem num en- contro entre um dominante-submisso, sujeito-objeto e o cuidado e compromisso que emerge num contexto de não-dominação, de reciprocidade, de mutualidade. É esta ligação que permite o amor sustentado, que permite que homens e mulheres se nutram uns aos outros, cresçam plena e livremente.
A dominação masculina não destruiu o anseio que os homens e mulheres têm de amar uns aos outros, embora isso torne a rea- lização desse desejo quase impossível de se realizar. O contexto do amor entre homens e mulheres é variado e multidimensional (existe a relação entre mãe e filho, irmã e irmão, pai e filha, etc.). Sempre que existe este anseio de amar, está presente a possibili- dade de persistirem as formas de discurso existentes no patriar- cado, que distancia e aliena homens e mulheres uns dos outros, fomentando a criação de um contexto de diálogo e de uma troca libertadora. No entanto, o diálogo só pode emergir se houver a consciência de que mulheres e homens devem conscientemente alterar a forma como falamos com e sobre os outros para que não perpetuemos e reforcemos a dominação masculina. A ausência de foco nos modos pelos quais mulheres e homens conversam entre si ou a recusa em abordar este problema (porque significa que de- vemos falar sobre e/ou para os homens) retém significativamente o movimento feminista. A maioria das mulheres ativas na luta fe- minista – sejam os esforços de uma filha lésbica para comunicar com um pai ou o esforço que uma esposa e um marido fazem, ou os esforços dos amigos – teve de confrontar os homens enquanto tentavam partilhar o pensamento feminista. Conhecer as estra- tégias que possibilitaram diálogos, que tornaram a reconciliação e a comunicação possíveis, seria uma informação útil para parti- lhar. Não será partilhada enquanto ativistas feministas não afir- marem a primazia do trabalho das mulheres sobre os homens.
Muitas mulheres feministas que ensinam, que se dedicam aos estudos feministas, têm se envolvido em lutas difíceis e muitas vezes amargas para criar um espaço de diálogo com os homens nas nossas vidas privadas e profissionais. Nesses confrontos, aprendemos formas mais eficazes de comunicar o pensamento fe- minista com os homens. Muitas de nós tentámos criar um espaço para o diálogo nas nossas salas de aula. Não fomos compelidas a desenvolver estratégias que possibilitassem a comunicação com alunos do sexo masculino quando os Estudos da Mulher e as salas de aula feministas eram povoadas principalmente por jovens mu- lheres ansiosas para aprender e partilhar perspetivas feministas, dispostas a comprometerem-se com a luta feminista. Foi a cres- cente presença de homens nas minhas salas de aula que me levou
a considerar as dificuldades que surgem quando trabalhamos para comunicar o pensamento feminista aos homens e a impor- tância de tal comunicação. Esta experiência também me obrigou a reconhecer a necessidade da realização de mais estudos feitos por mulheres sobre os homens.
Assim como as relações amorosas entre mulheres e homens são um espaço onde as feministas lutam para criar um contexto para o diálogo, o estudo e o ensino feminista também podem e devem necessariamente ser um espaço para o diálogo. É nesse es- paço que partilhamos o pensamento feminista com um público dis- ponível. É nesse espaço que podemos envolver-nos em confrontos e críticas construtivas. Os estereótipos de que as mulheres femi- nistas detestam o homem fazem com que muitos professores se sintam desconfortáveis quando realizam comentários críticos sobre os homens, especialmente quando há o reconhecimento de que mais homens precisamde se comprometer na luta feminista para terminar com a opressão sexista e dominação masculina. Não querendo reforçar o estereótipo, as professoras feministas muitas vezes mostram-se relutantes em discutir criticamente a masculi- nidade, ou as formas pelas quais o sexismo limita seriamente os homens, ou nós levantamos estas questões de formas que alienam, que transmitem ridículo, desprezo ou a nossa própria incerteza. Os académicos feministas devem ser uma vanguarda, mapeando um terreno onde as mulheres podem falar para e sobre os homens de formas que desafiam, mas não diminuem.
Desafiar e mudar a forma como as académicas feministas falam para e sobre os homens e promover mais trabalho sobre os homens é uma direção importante para uma luta feminista revo- lucionária. Embora seja fundamental que académicos do sexo masculino comprometidos com a luta feminista façam estudos que foquem os homens, é igualmente importante que as mulheres es- tudiosas concentrem os seus trabalhos também nos homens. Quando as académicas escrevem sobre homens, esse trabalho al- tera a relação sujeito-objeto que tem sido um indicador do nosso estado explorado e oprimido. A nossa perspetiva pode fornecer uma visão única e crítica, bem como nos conectar intimamente com a luta quotidiana de todas as mulheres que estão à procura
de criar um espaço de diálogo com os homens, um espaço que não é moldado pela dominação. Em vez de se centrar nos homens de um modo que os torne objetos, o estudo feminista sobre homens por mulheres deve ser formado por uma política que resiste à do- minação, que é humanizadora e libertadora. Este estudo femi- nista é formado pelo desejo de um encontro de sujeito a sujeito, pelo anseio por um local de encontro, um lugar de solidariedade onde as mulheres podem falar com e sobre os homens numa voz feminista, onde as nossas palavras podem ser ouvidas e com- preendidas, onde podemos falar a verdade que cura, transforma – que faz a revolução feminista.
Referências bibliográficas
Freire, Paulo, Pedagogy of the Oppressed, New York: Herder and Herden, 1970. Lorde, Audre, Sister Outsider, Trumansburg, New York: Crossing Press, 1984. BELLHOOKS
1
Connell, Raewyn. (2005). “Masculinity Politics”. In Raewyn Connell, Masculinities (2º Ed.). Polity Press: Great Britain, pp.204-224.