ABORDAGEM DA PSICODINÂMICA DO TRABALHO
A psicodinâmica do trabalho surgiu como uma nova disciplina à partir dos estudos em psicopatologia realizados pelo psiquiatra francês Christophe Dejours com marco na publicação de sua obra Travail: usure mentale (1980), publicado mais tarde no Brasil com o título de ‘A Loucura do Trabalho’ e que aborda as relações entre o trabalho e a vida psíquica de quem o executa. A obra revela o sofrimento psíquico do homem causado pelo confronto da sua subjetividade psíquica e individual com a organização do trabalho a que é submetido.
As constatações feitas por Dejours em seus estudos resultaram em novos entendimentos sobre a relação homem-trabalho, tornando necessária a criação da psicodinâmica do trabalho. A questão fundamental para a criação dessa nova disciplina circula em torno do ponto enigmático descoberto por Dejours em suas pesquisas:
Os sujeitos não se encontram na passividade diante dos conflitos ocasionados pela organização do trabalho e são capazes de se defenderem e manterem a sua saúde psíquica dentro de uma ‘normalidade’ (DEJOURS, 1949, p. 25).
A descoberta feita por Dejours revelou uma condição fundamental para compreender a relação entre sujeito-trabalho, definida por ele como normalidade, que aparece como algo contraditório diante da “loucura do trabalho”, e que desperta para a busca de respostas para a pergunta: como os trabalhadores conseguem manter-se na normalidade evitando a descompensação ou a loucura? Assim, a psicodinâmica do trabalho se põe a investigar não as doenças mentais do trabalho, mas as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para se manterem trabalhando diante das contradições impostas pela organização do trabalho e das relações vivenciadas no coletivo dos trabalhadores, fazendo emergir o tema voltado para a relação entre saúde mental e trabalho, abrindo caminho para compreender o conflito que opõe o trabalho à vida mental de quem o executa.
A psicodinâmica do trabalho preocupa-se em identificar as fontes específicas de nocividade para a vida mental do trabalhador e causadores de sofrimento, resultante da dominação da vida mental pela ocultação e coarctação de seus desejos. Busca a elucidação do trajeto que vai do comportamento livre advindo dos desejos próprios do sujeito ao comportamento estereotipado desprovido da liberdade de invenção e a perda da originalidade do trabalhador em relação à sua tarefa e da falta de reconhecimento como qualidade estética ou valor moral do trabalho.
2.1 A Definição de Trabalho Segundo a Psicodinâmica do Trabalho
Para a psicodinâmica do trabalho, a ação de trabalhar leva o trabalhador a defrontar com prescrições, procedimentos, materiais e instrumentos a serem manipulados, além de defrontar com pessoas, colaborar com uma hierarquia organizacional e com colegas (GERNET; DEJOURS, 2011, p. 62). Segundo os autores, para que o trabalho ocorra é necessária uma relação social que envolve o confronto entre subjetividade, o coletivo de trabalho e a organização do trabalho.
A organização do trabalho rígida e imposta, idealizada no modelo taylorista, pode, em certos casos, entrar em choque com a subjetividade do trabalhador, causando conflitos que podem resultar em um desequilíbrio psicossomático e levar o trabalhador ao adoecimento. Para Dejours (1999), quanto mais rígida for a organização do trabalho, menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual.
Para Dejours (1999), o trabalho é tanto mais honroso se a tarefa é complexa, tanto mais admirada pelos outros se ela exige um know-how e responsabilidade. Do choque entre um indivíduo, dotado de uma história personalizada, e a organização do trabalho, portadora de uma injunção despersonalizante, emerge uma vivência e um sofrimento que se pode tentar esclarecer. Assim, a organização do trabalho é dotada de uma injunção despersonalizante que leva ao condicionamento e a neurose.
Não somente o conteúdo significativo, mas também o conteúdo ergonômico, quer dizer, os gestos, a postura e os ambientes físicos e químicos que, de certo modo, visam à economia toda do corpo em situação de trabalho.
Para a psicodinâmica do trabalho, o trabalho se define como sendo aquilo que o sujeito deve acrescentar às prescrições para poder atingir os objetivos que lhe são designados; ou ainda aquilo que ele deve acrescentar de si mesmo para enfrentar o que não funciona, quando ele se prende escrupulosamente à execução das prescrições. O trabalho deve, portanto, possibilitar a formação da identidade do trabalhador e a descarga de suas pulsões, estabelecendo o equilíbrio e a saúde mental e assim evitando o adoecimento.
Dejours (2004) estabelece uma nova definição para o trabalho, sendo: “a atividade manifestada por homens e mulheres para realizar o que ainda não está prescrito pela organização do trabalho" e conclui que o trabalho é por definição humano e pressupõe criatividade, cooperação, confiança, mobilização subjetiva (espontânea) e reconhecimento.
2.2 Trabalho Prescrito e Real
Dejours pode constatar em suas investigações que existem distorções significativas entre a organização do trabalho imposto pela hierarquia, concebido por Dejours (1980) como “trabalho prescrito” e o trabalho realizado na prática e que envolve o saber fazer do trabalhador, concebido como o “trabalho real” de domínio do trabalhador para dar conta das diversidades advindas do trabalho. Tal constatação nos permite compreender algumas questões frequentemente encontradas nas organizações, como a dificuldade em se fazer cumprir normas de segurança do trabalho ou de cumprir as decisões tomadas pela hierarquia.
As situações comuns de trabalho são permeadas por acontecimentos inesperados, panes, incidentes, anomalias de funcionamento, incoerência organizacional, imprevistos provenientes tanto da matéria, das ferramentas e das máquinas, quanto dos outros trabalhadores, colegas, chefes, subordinados, equipe, hierarquia e clientes (DEJOURS, 2004, p. 29).
Tais situações de trabalho resultam no confronto com as dificuldades reais para a realização do trabalho e das relações entre os trabalhadores, favorecendo a ocorrência de discrepâncias entre o prescrito, constituído pelas diretrizes, normas e métodos formalizados, e o real, produto da experiência, da criatividade e do saber-fazer do trabalho, ou seja, a realidade concreta da situação de trabalho.
Dejours (2004) completa que o trabalho é posto em confronto com o real, por sua vez caracterizado como aquilo sobre o quê não exerce domínio, quando se age apenas seguindo os procedimentos padrões previstos pelos serviços de método e de concepção do trabalho, ou, de uma maneira mais geral, com conhecimentos já existentes e adquiridos. Para Dejours (2004), trabalhar é preencher a lacuna entre o prescrito e o real, ou seja, entre o maquinal e o humano. O real do trabalho, não é somente o real do mundo objetivo, ele é, também, o real do mundo social que envolve a resistência a ser dominada, sendo portanto, uma experiência da resistência do mundo social, no que se refere ao desenvolvimento da inteligência e da subjetividade.
Dejours (1993) ressalta que o trabalho é por definição, humano, uma vez que é mobilizado justamente onde a ordem tecnológica-maquinal é insuficiente. Assim, o caminho a ser percorrido entre o prescrito e o real deve ser a cada momento inventado ou descoberto pelo sujeito que trabalha.
Segundo Dejours (1999), o real do trabalho confronta o sujeito ao fracasso, de onde surge um sentimento de impotência, até mesmo de irritação, ou ainda de decepção ou de
esmorecimento. A impossibilidade de execução do trabalho real resulta em uma situação desagradável e conflituosa que mobiliza a subjetividade do trabalhador de um modo afetivo. Para a psicodinâmica do trabalho, é sempre afetivamente que o real do mundo se manifesta para o sujeito, mas, ao mesmo momento que o sujeito experimenta afetivamente a resistência do mundo, é a afetividade que se manifesta em si. Assim, é numa relação primordial de sofrimento no trabalho que o corpo faz, simultaneamente, à experiência do mundo e de si mesmo.
[...] aquele que se envolve subjetivamente com todas as responsabilidades inerentes a sua tarefa e encara honestamente as dificuldades que surgem na gestão da discrepância existente entre o trabalho prescrito e o efetivo, adquire progressivamente, uma experiência do mundo que é inicialmente uma experiência do real (DEJOURS 2008, p. 226).
2.3 O Conceito de Normalidade para a Psicodinâmica do Trabalho
No centro da investigação da psicodinâmica do trabalho estão as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para lutarem contra do adoecimento no trabalho e se manterem em uma suposta normalidade. Ao se propor a normalidade como objeto de estudo da psicodinâmica do trabalho, Dejours (1994) abre caminho para perspectivas mais amplas, não abordando apenas o sofrimento, mas, ainda, o prazer no trabalho: “não mais somente o homem, mas o trabalho; não mais apenas a organização do trabalho, mas as situações de trabalho nos detalhes de sua dinâmica interna”.
Se por um lado a doença mental é relativamente fácil de ser identificada pela análise da clínica do trabalho, por outro, torna-se mais complexo compreender como fazem os trabalhadores para manter a normalidade ou a saúde aparente que os levam a continuar trabalhando, mesmo vivenciando todo o desconforto e pressões advindas da organização do trabalho a que é submetido cotidianamente. Assim, a normalidade passa a ser um ponto enigmático e passivo de estudos mais profundos dentro da análise da psicodinâmica do trabalho.
O capítulo a seguir apresentar as categorias estudadas pela psicodinâmica do trabalho como: a organização do trabalho, a mobilização subjetiva do trabalhador, as vivências de prazer e sofrimento no trabalho, a dinâmica do reconhecimento, o processo de adoecimento do trabalhador, o sofrimento criativo, o processo de sublimação, a ressonância simbólica, o uso de estratégias defensivas e o espaço de discussão coletiva. Tais categorias contribuem para a organização e análise da pesquisa realizada neste estudo.