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A expansão do Islã, as ameaças sofridas pela Igreja do oriente, juntamente com o pedido de ajuda à Igreja de Roma, abriram espaços para uma nova etapa na vida da Igreja, que a partir do final do século XI agrega à sua pregação um desejo claro de reconquistar terras perdidas e expandi-las ainda mais.

Em 1095, o Papa Urbano II convocou a primeira cruzada, conforme analisa Jeusset (1995: 12) em resposta também ao anseio do povo, que gritava que a guerra era desejo de Deus. Este grito de “Deus o quer” dado pelo povo ressoou por séculos na Europa, passando por papas e pregadores entusiasmados. Em pouco tempo a Igreja reconquistou Jerusalém, e a tomou de forma violenta, provocando o massacre de muitas pessoas. Mas, na sequência das batalhas que se seguiram, a cidade santa de Jerusalém voltou para o domínio dos muçulmanos.

Logo após a retomada de Jerusalém por Saladino, em 1187, o papa Gregório VIII convoca uma nova cruzada e envia uma carta, a Audita Tremendi a todos os fiéis, declarando que a queda de Jerusalém estava ligada à justiça de Deus contra o povo, constituindo uma punição pelas divisões e dissidências que Satanás havia disseminado entre os cristãos. Portanto, a guerra que se convocava era uma cruzada contra os inimigos externos da Igreja, os muçulmanos, e os inimigos internos, pecado que fazia com que os cristãos amargassem uma derrota na Terra de Jesus. Segundo Basetti- Sani (1975: 15), nessa carta o Papa convocava ainda os fiéis para um dia de jejum universal para aplacar a justiça divina.

Malograda a terceira cruzada nos seus objetivos de retomada da Terra Santa, coube aos sucessores do papa Gregório VIII o empenho na retomada da Terra Santa por meio de uma cruzada.

O Papa Inocêncio III levou muito a sério o seu ônus de reconquistar a Terra Santa, mas a IV Cruzada convocada por ele, ao invés de reconquistar a Terra de Jesus, dirigiu-se

para Constantinopla, saqueando a cidade sem conseguir conquistar os objetivos inicialmente traçados. Em Abril de 2013, o pontífice enviou cartas a todos os príncipes, reis, bispos, arcebispos e o clero, convocando todos s se juntarem a ele no seu duplo desejo, a reconquista da Terra Santa e a reforma da Igreja. (HOEBERICHTS, 2002: 19).

Na sessão de abertura do IV Concílio de Latrão, Inocêncio tomou a palavra que segundo o Evangelho teria sido dita por Jesus na última ceia: “desejei ardentemente comer convosco esta páscoa” (Lc 22,15), e o papa dava sentidos diversos a estas palavras de Jesus e as atualizava para os tempos de reforma e de guerra da Igreja contra os inimigos.

A sagrada Escritura, dizia o papa, usa a palavra Páscoa com o sentido de ‘passagem’. O papa convidava então o Concílio e toda a cristandade a uma ‘tríplice passagem’. 1. A passagem para além mar, isto é a passagem temporal na Terra Santa para a libertação da Jerusalém terrestre; 2. ‘passagem espiritual para a reforma da Igreja’; 3. ‘Passagem à eternidade’, isto é da vida terrestre para a glória do céu, a Jerusalém celeste. (BASETTI-SANI, 1975: 90).

A ideia da guerra era tão difundida que se opor a ela poderia parecer uma heresia. Quando no IV Concílio de Latrão o papa Inocêncio III convocou a V Cruzada, ele mesmo a queria conduzir, mas morreu antes de ela acontecer. Após sua morte, o papa Honório III assume a Cátedra de Pedro, e com isso, também a empreitada da Cruzada convocada pelo antecessor.

Inocêncio tinha muito claro o seu projeto de dominar o mundo e transformar todos os reinos em uma cristandade ut unun sint. Mesmo após a sua morte, o sonho continuava, “Honório III, e depois dele Gregório IX e Alexandre IV, se esforçaram ainda para realizá-lo, reforçando para dentro e para fora a unidade e a homogeneidade da cristandade e estendendo o seu corpo até os confins da terra”. (AJELLO, 1999:11).

Dos pregadores da Igreja na questão das cruzadas, talvez o mais eminente tenha sido Bernardo de Claraval, para quem matar um muçulmano não era um homicídio, mas um malecídio, e ao fazê-lo o cristão estaria purificando a terra dos pérfidos muçulmanos. Na pregação de Bernardo, o soldado de Cristo de Paulo passa a ser o cruzado armado para matar e limpar a terra.

Com toda tranquilidade podemos dizer mal daqueles cuja maldade e sempre maior do que qualquer mal que deles se possa dizer. Filhos de Agar a escrava de Abraão; povo escravo do demônio; canalha que é preciso escorraçar a terra santa; imundície dos pagãos. Bernardo de Claraval defendeu os judeus, mas não os muçulmanos (JEUSSET, 2005: 21).

Outro pregador importante que merece destaque é Jacques de Vitry. Neste trabalho ele alcança um destaque ainda maior pelo fato de ter sido contemporâneo de Francisco de Assis, cuja visão destoava e muito no que diz respeito à pregação.

Jacques de Vitry foi teólogo, cronista e cardeal. Estudou na Universidade de Paris, pregou a Cruzada contra os Albigenses. Entre 1211 e 1213, chegou a deslocar-se por todo o seu país e pela Alemanha com a finalidade de recrutar cruzados para essa ação. Foi eleito bispo de Acre em 1216, e depois, ainda nessa condição, se envolveu na promoção da Quinta Cruzada (1218-1220), vendo-se fortemente envolvido com ela, chegando a participar no cerco de Damieta.

Em um sermão dirigido aos templários, Vitry afirmou:

Quando as pessoas falsamente afirmarem que você não pode, por qualquer motivo que seja, pegar fisicamente em uma espada ou lutar corpo a corpo contra os inimigos da Igreja, este é o demônio tentando atacar o tecido da ordem e desta forma destruí- la completamente. (MOSES, 2010: 124).

As pregações da Igreja que atrelavam a sua reforma à conquista da Terra Santa perpassaram toda a vida de Francisco. Nessas pregações estavam bem amarradas as convicções de um projeto temporal e um projeto espiritual; Francisco de Assis não estava alheio a estas questões e, embora não existam relatos de qualquer palavra dele em favor da guerra, também ele se empenhava pela reforma da Igreja, mas no sentido de um viver de acordo com o Santo Evangelho.

O projeto da missão da Igreja implicava a ideia de expansão territorial ligada à retomada das terras que o Islã havia conquistado desde o século VII, e do combate às heresias que cresciam em todo o seio da Igreja como se verá adiante.

A expansão territorial20

Para Boff (2002:30), desde o século VII, o Islã começou um processo de expansão que resultou, em pouco tempo, a sua presença em grande parte da África, na Ásia e em lugares santos, como Jerusalém, a cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Existem atlas históricos com mapas que indicam sucessivamente os principais avanços da expansão muçulmana, alguns militares, outros pacíficos, realizados pelo proselitismo de comerciantes, de professores ou de pregadores muitas vezes pertencentes a confrarias.

O primeiro, Califa Abu Bakr (632-634) conseguiu pacificar a Arábia. O segundo, Califa Omar Ibn al-Khattab (634-644) fez conquistas para além da Arábia apoderando-se da Síria e de Jerusalém, e chegando até a Armênia. Estava se formando um verdadeiro império árabe que haveria de durar dois séculos.

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O pequeno histórico do Califado foi extraído da Obra Islamismo, história e doutrina de Jaques Jomier. (JOMIER, 2001: 35-51).

O terceiro Califa, Othman Ibn Affan (644-656) continuou as conquistas em direção ao leste e ao Oeste, chegando a invadir a Tunísia, e se retirando logo em seguida. Encarregou ainda um grupo de fixar o texto oficial do Corão, enviando uma cópia para cada cidade conquistada.

O quarto Califa, Ali Ibn Abi Taleb (656-661) enfrentou muitos conflitos internos e perdeu o poder para Moawiya, governador da Síria, que procurava a expansão do Islã, embora sua maior preocupação fosse expandir seu próprio poder. Ele teve o mérito de compreender a importância do mar para ampliar o território Islã.

Em 670, a Tunísia foi finalmente tomada pelos muçulmanos, e entre 670 e 700, toda a África do Norte foi submetida ao mesmo poder; no início do século VIII houve incursões na Espanha e na França; a China Ocidental foi ocupada em 750, e ainda antes, nos anos 711-712 acontece a ocupação do Paquistão, e Kabul, capital do Afeganistão, em 800.

A dominação acontece no campo político, mas também no campo cultural e científico. Em contrapartida à expansão do Islã, ocorre o desenvolvimento da Europa impulsionado pelo incremento de novas técnicas agrícolas para atender a demanda de aumento demográfico, e a consequente necessidade de expandir territórios e rotas comerciais. Desde o século XI, quando o papa Urbano II convocou os cristãos para a primeira Cruzada, o Ocidente estava em contra ofensiva diante do Islã; esta contra ofensiva caminhava em duas direções: parar a expansão do Islã e expandir-se.

Em 1095, o imperador de Bizâncio pediu ajuda ao Ocidente, mas o papa viu neste pedido de ajuda uma oportunidade para alargar o poder da Europa e retomar os territórios antes usurpados pelos muçulmanos. Desta forma, acabariam as guerras entre senhores feudais, que destruíam a Europa e aumentavam os seus domínios. Assim, foram convocados os cristãos para a guerra, afim de que a paz de Deus reinasse na Europa e a guerra de Deus assolasse o Oriente. (Armstrong, 2000: 314).

O imperador de Bizâncio pediu ajuda a Roma e viu uma verdadeira invasão bárbara chegando aos seus territórios. Enquanto o povo lutava por uma paixão pela terra Santa no intuito de retomá-la para os cristãos, o Papa e o alto clero pensavam numa guerra santa de libertação que aumentasse o poderio e o prestígio da Igreja ocidental.

Para se chegar à vitória e tomada de Jerusalém, os cruzados passaram por muitas dificuldades, e além das intempéries da natureza, enfrentavam as táticas dos muçulmanos, grandes conhecedores da região.

Apesar de tudo obtiveram a vitória e, quando se viram diante dos muros da cidade Santa, em 1099, haviam mudado o mapa do Oriente Próximo. Destruíram a base dos

seldjúcidas na Ásia Menor e criam dois principados governados por ocidentais: um em Antioquia, sob o normando Boemundo de Tarentino, e o outro em Edessa, na Armênia, sob Balduino de Bolonha. (ARMSTRONG, 2000; 316).

Os cristãos conquistaram Nicéia, Edessa, Antioquia, e em 1110, o Ocidente já havia conquistado Anatólia, Cesaréia, Haifa, Trípoli, Sidônia e Beirute, estabelecendo um novo estado, o condado de Trípoli. Todas as conquistas foram realizadas juntamente com massacres de judeus e muçulmanos.

A segunda Cruzada, em 1145 teve o intuito de retomar o território de Edessa perdido para os muçulmanos em 1144. A queda de Edessa favoreceu a unidade dos muçulmanos, que sistematicamente foram subtraindo os territórios até a retomada de Jerusalém, em 1187, por Saladino.

Foram realizadas três cruzadas até o início do século XIII, quando a cátedra de Pedro era ocupada pelo então Papa Lotário de Seni, ou Inocêncio III, destinado a ser o mais poderoso de todos os papas medievais. (MOSES, 2011: 26). Como uma das metas de pontificado, a Reforma da Igreja dependia da reconquista da Terra Santa, o que motivou Inocêncio III a se empenhar bravamente pela Cruzada. Mantendo a ideia de expansão de seus antecessores, promulgada na ampla reforma na Igreja, o catedrático percebia nos hereges e nos muçulmanos os inimigos a serem vencidos para a conquista de seus propósitos.

Três ideais de expansão se intercruzam no início do século XIII: O Islã, que desde seu nascimento no século VII não parava de crescer; o Ocidente, procurando meios de expansão de território e poder, um projeto que estava em comunhão com o pensamento da Hierarquia da Igreja; e Francisco, que por mandato divino procurava restaurar a Igreja, desejando que o Evangelho chegasse a muitos lugares.

Para Inocêncio III a expulsão dos muçulmanos da Terra Santa constituía parte essencial da reforma, por ser algo que agradava a Deus, uma vez que a terra comprada com o sangue de Cristo havia sido tomada por infiéis.

A ideia da guerra era ponto importante na agenda de Inocêncio que queria se empenhar pessoalmente nos campos de batalha, mesmo sabendo que o Sultão Al-Adil21 estava mais preocupado em garantir o seu poder no mundo árabe, e já havia assinado um tratado de paz em 1212. O próprio Inocêncio havia mantido em segredo a informação de que talvez a guerra não fosse necessária uma vez que o patriarca de Jerusalém havia escrito ao Papa sobre a intenção de negociar com o Sultão e seus filhos sobre a posse de Jerusalém. (MOSES, 2010: 69).

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Eles estão bastante dispostos a devolver a Terra Santa, que no momento eles detêm, às mãos do senhor papa, para uso dos cristãos, contando com que, em contrapartida, eles tenham a certeza de que suas outras terras estariam a salvo das invasões cristãs. Eles estariam dispostos a pagar anualmente ao patriarca de Jerusalém um tributo acordado e, então; prometiam não infligir nenhum dano à Terra Santa, por onde caminharam os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo. (MOSES, 2010: 68).

Mas o Papa parecia mesmo disposto a fazer a guerra e a expandir seus territórios e atrelava a esta ideia a reforma da Igreja. Um dos maiores propagadores da V Cruzada, Jacques de Vitry, tinha a clara convicção de que a guerra era um desejo de Deus e que sua vocação, enquanto arauto do Santíssimo era defender o combate contra os invasores da terra santa

(HOEBERICHTS, 2002: 66), ao passo que Francisco também era arauto, mas pregava a paz e

não a guerra.

Quando chegou a Acre, Jacques de Vitry conseguiu, em pouco tempo, converter a população, batizar e marcar com a Cruz muitos homens, e prepará-los para a guerra em socorro da terra Santa. Segundo o mesmo Hoeberichts, (2002: 69) acrescenta, fazia isso como propósito e vocação divina.

A Igreja quer de volta a idade de ouro do Império, luta pela expansão e pelo poder. É possível perceber que a cruzada atendia a muitos anseios. De um lado, o Papa aumentava seu prestígio político e sua influência sobre os soberanos das nações europeias; por outro, o povo, cansado da miséria moral e religiosa, encontrava motivações para praticar o verdadeiro espírito do cristianismo, defendendo as tentativas de posse da terra do próprio Jesus, conforme analisa Radi (2006: 26). Eram os efeitos colaterais do empreendimento cruzado que, depois de várias tentativas, foi reduzido a um grande fracasso no que diz respeito aos objetivos traçados inicialmente.

O combate às chamadas heresias

Os séculos XII e XIII podem ser chamados séculos da heresia quando se observa a história com o olhar da Igreja do Ocidente. Desde o seu início, a igreja cristã mostrou dificuldade de se relacionar com os heterodoxos, buscando manter uma unidade desde o Concílio de Niceia, ainda no século IV. Muitas vezes, fez uso da força de estado para privar os sacerdotes considerados heréticos de suas imunidades e também de seus privilégios, e, desta forma, tentava manter uma coesão.

Se nos primeiros séculos as heresias, assim como consideradas pela igreja cristã, tinham um cunho mais filosófico e teológico, com o decorrer do tempo foram ganhando um aspecto mais popular, mantendo quase sempre uma postura crítica à hierarquia da Igreja e uma tentativa de voltar aos primórdios da mesma.

A pobreza, a humildade, a caridade, não eram exatamente as características da Igreja nos primeiros tempos da religião, nos séculos XII e XIII. O considerado herético recorre ao devaneio místico para fugir desta realidade e construir uma nova Jerusalém.Também não se pode desvincular o fenômeno do surgimento das chamadas heresias, que ocorre nestes séculos, de seu contexto histórico amplo, ou seja, o renascimento comercial e urbano que ocorre a partir do século XII, cada vez mais intenso, após um longo período de recesso e estagnação que se estendeu até o século XI.22

No fim do século XII e início do XIII assumiu a cátedra o Papa Inocêncio III que, como muitos outros papas, desejava uma reforma ampla na Igreja, julgando necessário combater energicamente as heresias, que em seu entender, quebravam a unidade da instituição e do Ocidente que tinha um inimigo externo a ser igualmente combatido.

É bem verdade que Inocêncio III, no seu projeto de reforma da Igreja, buscou um diálogo com alguns grupos, tendo uma postura um pouco diferente de seus antecessores. Concedeu espaço para um dos anseios principais, como a pregação, a alguns grupos, superando o ordo hierarchicus, segundo o qual, somente os seguidores dos apóstolos, bispos e dos discípulos sacerdotes tinham esse direito. Esse ponto era um dos grandes entraves no diálogo com os valdenses, os humilhados da Lombardia e outros grupos que queriam viver na pobreza evangélica e na pregação. Não havia grandes problemas com relação à tradução das Sagradas Escrituras e nem mesmo com relação à vida de pobreza. A grande questão era exatamente a pregação, e que Inocêncio III conseguiu superar com habilidade política. Regulamentou a Ordem dos Hospitalários do Espírito Santo, em 23 de abril de 1198, que embora não fosse parte dos grupos heréticos, não estava tão distante dos mesmos; o mesmo se deu com a ordem da Santíssima Trindade, em 17 de dezembro de 1198; a Ordem Hospitaleira Teutônica foi reconhecida em 19 de fevereiro de 1199; e acolheu ainda a Congregação Hospitalaria de São Marcos, de Mântua, congregação de vida comunitária integrada por homens e mulheres, em 18 de janeiro de 1207.

Com relação aos grupos dos hereges propriamente ditos, Inocêncio III, que em 1201 acolheu os Humilhados, orientando-os com disposições tiradas da regra beneditina e agostiniana, com elementos próprios do grupo, regularizou, em 1207, uma parte do grupo dos Valdenses, tornando-os Pobres Católicos. Em 1210 acolheu outro grupo proveniente também do grupo dos Valdenses, que em 1212 recebeu um especial propósito de conversão.23

22

Cf. FALBEL, Nachman, Heresias medievais. 23

Sobre o Ordo Hierarchicus e a relação de Inocêncio III com os chamados hereges conferir: Teixeira (2006: 13-17).

Inocêncio não pensava apenas na reforma política e estrutural da Igreja. Se aprovou Ordens que beiravam à heresia, e acolheu grupos de heréticos como os Humilhados e os Valdenses, por outro lado, acreditava que era necessário usar a força para combater outros grupos contrários, como foi o caso da Cruzada promovida contra albigenses e muçulmanos. Mas, além da luta armada, considerava ser necessário que tanto os clérigos quanto os leigos fossem mais devotos e tementes a Deus(MOSES, 2010: 67), e diante disso se empenhava e exigia da população um comportamento mais condizente com o modo de viver da Igreja, uma espiritualidade e disciplina que agradasse a Deus.

O Papa Inocêncio III agiu ferozmente contra todos os que se opunham aos seus projetos de reforma e expansão, e mantinha a convicção de que ele, como chefe da Igreja devia ir a campo contra todos os oponentes e inimigos da Igreja, tanto internamente (hereges), como externamente (muçulmanos). Assim, conforme observa Hoeberichts (2002: 42), ao longo de seu pontificado organizou cruzadas contra vários grupos, tais como: os mouros, os albigenses, grupos dos estados bálticos e contra todos os seus adversários políticos. Mas, ao mesmo tempo, abriu espaço para o diálogo para com os grupos que tiveram as portas fechadas pela igreja de seus antecessores; enfrentou positivamente a questão dos movimentos religiosos, mostrando uma visão progressista através da ruptura com concepções seculares, concedendo espaço na vida da Igreja e autorizando a pregação. (TEIXEIRA, 2006: 17).

O IV Concilio de Latrão, em 1215, decretou medidas contra os senhores seculares caso protegessem heresias em seus territórios, ameaçando-os até com a perda dos domínios. Já antes do Concílio e como consequência dele, as autoridades laicas decretaram a pena de morte para evitar a disseminação de heresias em seus territórios, a começar por Aragão em 1197, Lombardia 1224, França 1229, Roma 1230, Sicília 1231e Alemanha 1232 24.

A postura política de Inocêncio nos permitirá ver adiante a sua relação e o seu acolhimento ao grupo de Francisco em 1209.

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