Chapitre 4 - Les impacts du projet
4.2 La qualité de vie
Perceber o real em sua dinâmica é entender o conhecimento como um processo, uma construção que se faz na presença constitutiva da consciência que visa o mundo. Nesse sentido, a Fenomenologia parece, em suas matrizes, estabelecer um confronto com esses primados e normas da racionalidade moderna ao se constituir como uma crítica à dicotomia sujeito-objeto apresentada nas concepções do realismo, espiritualismo, idealismos e mesmo na gnosiologia de Kant. Contudo, as concepções de ensino-aprendizagem que balizam nossos parâmetros e diretrizes para a educação, conservam superadas dicotomias como teoria-prática, sujeito-objeto, sentido-razão, que representam, em grande parte,
resistências à concepção de uma educação filosófica polilógica, que passa necessariamente pela exigência de radicais transformações da relação consciência- mundo reivindicando para tanto a construção de uma práxis educativa do mesmo modo transgressora.
O que se propõe como enfrentamento a esses dispositivos de normatização e controle do pensamento, significativo apanágio da racionalidade moderna, é a multiplicidade de razões que somente do pensar dialético pode emergir. Para isso, é necessário superar a hierarquia dos saberes por meio da interface rizomática da filosofia com a arte, a ciência, a política, a religião e todas as manifestações possíveis da experiência sensitiva e cognitiva. Superando dicotomias, a razão polilógica, não por um projeto de dominação da natureza, mas por um desejo de renovação permanente do olhar inaugural, restitui o maravilhamento ao pensar. As forças que provêm da razão polilógica se constituem como determinações capazes de constituir vínculos transformadores do real à medida que desautorizam concepções de verdade e de normas. Essa atividade racional polilógica deve agir como ação não-disciplinada, não-comprometida com a ordem de produção de conhecimento que termina por estabelecer limitações e parâmetros à razão, mas deve se constituir como potência ativa, atual, salvaguardando o direito à contradição e, antes de tudo, o direito à loucura fundamental que o desacordo manifesta.
O que fica evidente é a necessária ativação política de um campo de força que se opõe ao outro. Ou seja, não sendo possível a neutralidade, ou atuamos em favor de uma libertação do pensar, em defesa da conquista de uma educação filosófica verdadeiramente emancipadora ou nos sujeitamos à lógica dos primados da verdade, à lei das sínteses finalizadoras, ao poder normativo que, por esses mesmos mecanismos, conservam ordinariamente em suas cartilhas e programas institucionais o embrutecimento dos homens do nosso tempo.
Assumir a práxis pedagógica do ensino de filosofia como uma trincheira política na defesa de uma educação emancipadora é sobretudo produzir, no exercício da função ensinante, conceitos, ideias, razões que se coloquem como críticas à permanência dos primados da racionalidade monológica. A transposição desse status faz-se mediante a problematização da vida por uma investigação dialógica; por práticas que se consolidem como resistências a toda espécie de crença na hierarquia dos saberes e em níveis de inteligências. Desse modo, a
filosofia oferece inegável contribuição se vista não como uma disciplina que impõe seus métodos e conteúdos, mas como uma atividade criadora de conceitos, um exercício de investigação, desvelamento, descobertas e problematizações.
O professor de filosofia que verdadeiramente emancipa em sua práxis deve abandonar propósitos de transmissão de saber, abdicar do interesse de capacitar e habilitar alguém a pensar corretamente, deve tão-somente favorecer a atualização do pensamento como condição inerente do humano e que, portanto, brota, não exclusivamente, das mentes brilhantes dos que julgam ensinar filosofia, mas do lugar da experiência cognitiva de cada ser humano capaz de elaborar suas próprias questões assim como sua forma de resolvê-las. Ou seja, não sendo possível ensinar o aluno conteúdos e, muito menos, delimitar o que este deve pensar, o professor não pode julgar-se também capaz de verificar a medida do erro ou do acerto, o que ele aprendeu ou não. É que, sendo o pensar a manifestação de uma potência autônoma criativa, ele formula, sempre do lugar da experiência de cada um, suas perguntas e hipóteses e busca, no interior dessa aventura cognitiva, medir, valorizar, avaliar e, por fim, extrair desse exercício permanente suas concepções. O professor deve, portanto, contribuir, possibilitando essa experiência da razão filosófica que tem na produção do conceito sua máxima expressão. Realizar uma educação filosófica e, portanto, “crítica” é considerar primordialmente a capacidade da inteligência de cada pessoa em elaborar do lugar próprio de sua experiência o itinerário lógico que pretende seguir. Sobre esse aspecto compreende- se que a “consciência da emancipação é, antes de tudo, o inventário das competências intelectuais” (RANCIÈRE, 2007. p. 61), ou seja, sendo as inteligências distintas, é possível acreditar que o caminho do pensamento varia conforme a sensibilização de cada indivíduo. Com isso afirma-se também que não há pensamento que não seja motivado por um próprio interesse, um modo subjetivo de cada pessoa envolver-se com o mundo e, a partir disso, colocar suas próprias questões. Dessa forma, a emancipação da consciência é uma conquista dessa racionalidade crítica que, por algum interesse de superação, compromete-se com o processo de autoconhecimento, de autorreflexão.
Quando se fala na crítica emancipatória, é preciso antes entender a necessária politização do pensamento, pois enquanto sujeitos sociais nosso pensar manifesta valores, práticas e relações. Em outros termos, a politização do pensamento afirma que isso que compreendemos como realidade só se dá a partir
de um plano de imanência que, por sua vez, exprime a historicidade da consciência. Da mesma forma, essa historicidade explica também nossa consciência de sujeito a partir dos nossos vínculos afetivos, emocionais, cognitivos que nos inscrevem num determinado contexto de relações com o mundo e com outras consciências:
A reflexão é historicidade; e a posse de mim mesmo, por um lado, e a inserção numa história, por outro, não estão em concorrência entre si, mas na medida em que amadurecem o pensamento, tornam-se elementos correlativos. Faz parte da minha natureza refletir, tentar apossar-me de mim mesmo, subtraindo-me portanto à determinação advinda das condições exteriores. Porém, refletindo assim, e justamente porque o faço, pretendo escapar a uma temporalidade exterior e fortuita, descubro que sou uma temporalidade e uma historicidade (MERLEAU-PONTY, 1973. p. 73-74)
Portanto, não havendo pensamento que não seja resultado de uma afecção, ou melhor, que não reflita afecções do homem na sua ordem existencial, não é do mesmo modo possível admitir uma autêntica práxis filosófica que não seja uma atividade política e que, sendo dialeticamente construída, não favoreça a emancipação de outros atores sociais.
O fazer filosófico é, antes de tudo, um trabalho que comporta no seu bojo uma crítica à filosofia especulativa. Ensinar filosofia com o interesse de emancipação é aceitar um desafio que autoriza a quem assim o faz questionar o discurso “regrado e instrutivo” que instaura certos posicionamentos à filosofia. Questionamentos esses que começam por recolocar a pergunta abissal: “o que é filosofia? “Dela não sei nada que possa expor na forma de um discurso regrado, instrutivo e edificante. Pois se eu começasse um tal discurso, ele se destruiria sob as minhas palavras” (DESANTI, 1999 apud GO, 2004, p. 190). Expressa Jean-Toussaint Desanti, com estas palavras, o desejo de entender a definição de filosofia no seu próprio exercício e não guardada em algum discurso. E, assim, o pensador francês prossegue: “desde que comecei a ensinar, guardo um bocado de tais discursos na reserva. No momento renuncio a eles” (Id., ib., p. 191). Em outras palavras, Desanti nos diz que para saber o que é filosofia, é preciso fazê-la. Logo, a questão “o que é filosofia?” só pode ser colocada no exercício da filosofia, no fazer filosofia. É que para filosofar é necessário o despojamento das ideias históricas de filosofia, que acabam por inviabilizar as descobertas filosóficas que a aventura do pensar proporciona. Por essa metodologia não-metódica, filosofar é aceitar entrar num jogo dialético e descobrir juntos o que se ganha nesse jogo e o que nele se arrisca. Por essa prática, Desanti compreende a possibilidade de preservar no trabalho com a filosofia
a “maleabilidade das conexões, a seriedade e a liberdade do jogo. Portanto, não hesitemos jamais mudar de paisagem para fazer com que nosso cérebro aprenda a arte das conexões insólitas e difíceis” (Id., ib., p. 191).
O “jogo” dialético deve ser jogado no “campo” das controvérsias, das discussões, no espaço político e social de onde emanam os problemas existenciais. Problemas postos na atividade de cada pessoa e que, efetivamente determinam, em grande parte, o nosso pensar. Entretanto, mesmo submetido a um tempo, uma cultura, a liberdade do pensamento humano é capaz da crítica emancipadora e, desse modo, projeta-se para além das determinações, configurando por essa transgressão o nascimento do filosofar. Filho desse salto, dessa aventura, o pensamento filosófico ama o espanto, o estranhamento, a admiração e o maravilhamento das suas descobertas. O ato filosófico coloca-se sempre como atividade do pensar que educa a razão nesse contato com o mundo. Educação filosófica é educação do pensamento aplicado ao real; é aprendizado das disposições críticas que toma em proveito a experiência, a vivência do homem, e, enquanto “jogo”, é um desafio, uma aposta, um risco; portanto, “não hesitemos jamais mudar de paisagem”.
Essa aderência ao real faz a educação filosófica ser uma práxis política, comprometida com a superação dos modelos institucionais, uma atividade que constrói seus caminhos a partir das exigências do real. Um labor filosófico que não se resume a interrogar os textos dos filósofos, mas interrogar a vida. Problematizar a vida é interrogar o que nos interessa de fato; interrogar nossos desejos, hesitações, nossas dores e alegrias, o amor, a morte; enfim, questões que jamais interessariam de fato senão a nós mesmos. Trata-se de, antes de tudo, um começar de nós mesmos, um pensamento que tem como fonte o eu que pensa porque goza, arde, sente, sofre, existe... O problema verdadeiro não é dado como algo que acontece fora de nós, não-imposto; o problema filosófico é uma forma de violência que nos põe a pensar. Portanto, a verdadeira filosofia é um aprender a pensar nós mesmos, aprender a viver.
Se o problema nos encontra, é possível acreditar que uma educação filosófica não pode prescindir da experiência propiciadora desse encontro. Esse “acontecimento” inaugural faz o homem pensar, interrogar sua vida e, assim, ter acesso à universalidade dos problemas filosóficos não por intermédio das grandes obras dos filósofos, mas pela via do “eu” jogado no mundo. Dessa forma, problemas
universais serão pertenças de homens comuns que, encontrando a filosofia, educam seu pensamento, educando a si mesmos. Somente por encontrar o problema inscrito no seu cotidiano o aluno é capaz de compreendê-lo por uma apropriação correspondente a sua própria inteligência. A educação filosófica deve, portanto, privilegiar a autonomia resultante dessa conquista pessoal que se manifesta em todo aquele que alcança a maioridade do pensamento, escolhendo seu próprio percurso intelectual. O papel do professor será tão-somente o de acompanhar o aluno, favorecendo as suas descobertas. Nada parece ser mais gratificante no processo pedagógico que essa pertença do sujeito, que, tomando suas disposições intelectuais, elabora e elucida seus próprios problemas. Por fim, é um processo de criação e, como tal, o conceito construído é a obra de arte do sujeito pensante.
Dentro unicamente dessa perspectiva é possível enxergar o processo de construção intelectual da educação filosófica quando apreciado no contato do aluno com os textos da história da filosofia. Julgamos que somente a partir do momento que o aluno se sensibiliza ele verdadeiramente sente-se comprometido com a questão, isto é, que ele se apropria do filosófico. Ou seja, quando se interroga, interrogando, é que definitivamente ele se insere na problemática. Logo, não há problematização filosófica que se dê à revelia de quem problematiza. Isso quer dizer que não há nenhum problema colocado por filósofos da tradição filosófica que mereça maior atenção que os nossos problemas. Dessa forma, somente se “tocado” por uma questão que verdadeiramente lhe pertence, o aluno deve querer dialogar com aquele ou aqueles renomados autores que, à sua maneira, trataram do seu problema. Assim, é na busca da resolução do seu problema que o aluno dialoga com o problema de outrem. O aprendizado virá, então, não porque uma autoridade terá ex-plicado, mas porque está im-plicado na experiência do aluno.
Sensibilizados, admirados, espantados é que nos colocamos em trabalho filosófico, voltados a uma parturição de nós mesmos, dispostos à descoberta do que somos enquanto serem pensantes existindo com outros seres. Consciência e mundo, ser e nada. Pensamos ao sentir necessidade de pensar e para tanto podemos convocar os grandes filósofos. Com eles constituímos diálogos, argumentamos, justificamos, fabricamos conceitos. Contudo, esse apoio não se faz senão por algumas exigências: o reconhecimento do direito de pensar por nós mesmos, a afirmação de “competências intelectuais” distintas, a conquista de uma maioridade racional que, no lugar de constituir-se como saber dominante e opressor,
impõe-se como educação libertária ao comprometer-se com as potências de re- invenção do mundo e do homem.
Podemos questionar em nosso tempo o valor da filosofia no propósito da emancipação do homem quando entendemos a prática da filosofia como um ritual de mera expressão acadêmica. Porém quando entendemos a filosofia como uma atividade inventiva que se aplica à identidade de cada sujeito, enraizada na multiplicidade de cada cotidiano, permitimo-nos compreender o seu porquê. A atitude filosófica não pode ser tomada como um diletantismo vazio, mas sim como uma atividade que implica responsabilidade política e, dessa forma, responde pela sua finalidade.
Essa responsabilidade política do filósofo passa por uma prática com a filosofia que se coloca, muitas vezes, como um enfrentamento às posturas de significativa parte de profissionais da filosofia que despreza a qualificação do seu ensino reagindo contra as licenciaturas. Esse comportamento termina por também fortalecer a conservação do desinteresse pela filosofia que se manifesta regularmente em nossa sociedade. Assim, o desprezo dos profissionais para com o esforço de se construir uma didática específica para o ensino de filosofia legitima, em grande parte, o descaso social que se tem com a filosofia no Brasil.
Ao perguntarmos para que filosofia no Brasil?, negligenciamos a capacidade de discutirmos nossos problemas; esses que afetam os indivíduos em suas existências singulares (angústia, medo, solidão, inveja, morte, etc.), mas, sobretudo, problemas como a fome, o preconceito, a violência urbana, a intolerância. Como se fosse unicamente papel da filosofia discutir o alheio, levantar problemas que, de um modo geral, não participam da nossa realidade, tanto enquanto indivíduos, tanto como ser social. Esse distanciamento vem provocando necessariamente a ausência de adesão do aluno e por consequência o desinteresse pela aula de filosofia.
Percebemos ainda que esta cultura comentarística que se desenvolve no ensino de filosofia, privilegiando problemas lógico-formais, não contribui também para o fortalecimento de uma filosofia genuinamente brasileira, que trate de questões que, na condição de brasileiro, o filósofo possa discutir com maior propriedade. Contudo, não queremos com isso defender uma possível ”regionalização” do pensamento filosófico, mas compreender a necessidade de elaboração de uma identidade cultural favorecida por um pensamento que expressa
contextualização, experiência, mundanidade, assim como ser ateniense foi de fundamental importância para que Platão pudesse escrever uma obra como A
República. Dessa forma, não formamos filósofos como formamos médicos na
faculdade de Medicina e engenheiros na faculdade de Engenharia, mas sim comentadores de filósofos, que recebem, muitas vezes, incentivos vultosos das agências governamentais de fomento à pesquisa para colocar suas cabeças nas nuvens, no “hiperbóreo”, negligenciando a ação político-transformadora da filosofia.
Para se tornar “aplicado”, o filosofar deve advir de um “plano de imanência” que é a “instauração da filosofia”, seu “solo absoluto”, sua “fundação”. O plano de imanência “já pressupõe a filosofia”. Assim, deve ser considerado como pré-filosófico. E o próprio Deleuze (2002) pergunta e responde: “O que é a imanência? Uma vida...”. Esse filosofar transbordante de vida requer que se tomem os problemas existenciais como aqueles que verdadeiramente interessam à filosofia. Os melhores usos da filosofia estão na contribuição do seu exercício transformador da vida, no diagnóstico dos problemas reais, na sustentação de um propósito maior que é a conquista de uma autonomia.
Quando falamos numa educação filosófica, pressupomos a formação filosófica constituída numa dimensão histórica, política, social, pois entendemos com isso que a verdadeira filosofia constrói-se no enfrentamento de problemas que, de um modo geral, perpassam os tempos particulares de homens particulares, pois, como diz Deleuze “[...] as condições do problema filosófico estão sobre o plano de imanência [...]” (DELEUZE; GUATTARI, 2005, p. 105). Desse modo, mesmo ultrapassando a história, a filosofia tem nela o seu chão, sua motivação e, desse modo, seu presente é a atualização da experiência de pensamento de sujeitos que, enquanto seres históricos, filosofam por necessidade de filosofar. Ou seja, filosofar é uma necessidade posta para todo ser que é existência. Portanto, a educação filosófica emancipadora é, sobretudo, a formação do homem constituída pelo exercício permanente de elaboração e resolução de problemas que se fazem necessários pensar e, do mesmo modo, faz-se também necessária a existência da filosofia em nosso tempo.
Julgamos que a filosofia é uma atividade educativa do pensamento, um exercício que começa no problema, no algo que esteja fora do sujeito e que o force a pensar. A filosofia, enfim, começa naquilo que torna possível a diferença e com isso o aparecimento do novo pensamento. Logo, essa sensibilização que faz gerar o
“acontecimento” expressa a atualidade do pensamento e do “algo” que o faz pensar. Parece então que os problemas verdadeiramente nos encontram. Os problemas não devem ser procurados alhures, mas naquilo que efetivamente nos afeta, nos faz pensar, existir enquanto consciência.
A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 9)
A tarefa do ensino de filosofia é privilegiar o presente, mostrar que, enquanto seres pensantes, enfrentamos os problemas com a crítica, com um pensamento próprio, fruto da nossa experiência, da nossa vivência. A tarefa da filosofia é criar o novo, nos colocar em abertura para o porvir e assim fazer surgir uma filosofia que nos recrie na recreação do pensamento. Só o novo espanta, só o novo faz admirar, e a filosofia sendo filha do thauma deve ver na sua história não a condenação à recorrência das ideias autorreferentes lá depositadas, mas o húmos de sua eterna juventude manifesta na produção de cada novo conceito, no seu fazer e desfazer que dialeticamente educa o pensamento.
Quando se reivindica uma didática criativa para o ensino de filosofia que possibilite a expressão de um ensino verdadeiramente transformador do sujeito e do mundo, é preciso primeiramente superar a cultura do divórcio entre a formação do bacharel e do licenciado. Essa separação que, de um modo geral, ocorre em nossas instituições de ensino, termina por estabelecer uma divisão entre aqueles que são preparados para a pesquisa e os que são preparados apenas para dar aula. Pressupomos que os professores que fazem pesquisa autêntica dedicam-se ao bacharelado e os que dão aula na licenciatura preparam os alunos para serem professores. Com isso, temos por parte dos bacharelados a formação de uma atitude de desprezo para com o ensino e, certamente, com as suas didáticas e, por outro lado, nas licenciaturas parece não haver real interesse pelo rigor filosófico, resultando muitas vezes num desprezo substancial pela história da filosofia. Pode- mos, portanto, configurar o seguinte quadro: o bacharel deve ter muita teoria, pois conhece enormemente a história do pensamento filosófico e nenhuma prática de ensino, pois não exercita o filosofar dialogal, e, do outro lado, temos o licenciado,
que privilegia os métodos de ensino em detrimento da articulação dessa prática com