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Porto Alegre chegou a 1890 com mais de 54 mil habitantes, e na virada do século eram mais de 73 mil. Jean Roche comenta que a imigração para o Rio Grande do Sul entre 1890 e 1914 foi relativamente grande, com destaque para 1890 e 1891, o que pode justificar em parte esse expressivo crescimento populacional174. Nesse momento não eram só alemães que vinham

residir na região – Constantino menciona que havia em Porto Alegre “cerca de seis mil italianos, em 1893, mais de 10% da população da cidade”175.

Alguns autores, como Pesavento e Schetino, defendem que as cidades são espaços privilegiados para pensar a modernidade. Notamos que, em algumas situações, há autores que tratam a modernidade sob uma perspectiva que parece se referir apenas ao seu aspecto urbanístico. Não necessariamente isso constitui uma falha – de acordo com Machado, “uma caracterização minimamente precisa do moderno exige que se diga de qual moderno se fala, tanto histórica quanto geograficamente”, e eventualmente as abordagens colocam em foco o anseio pela materialização da cidade moderna, que aproximaria o “sonho da modernidade” do cotidiano da elite porto-alegrense176.

Aqui, contudo, se por um lado vamos olhar para a transformação urbanística da cidade,

173 CONSTANTINO, 1997b; MONTEIRO, 1995; PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Espetáculo da Rua. Porto Alegre: UFRGS, 1992; SILVA, Carolina Fernandes da. Antes do futebol... a ginástica, o remo e o ciclismo. In: GOELLNER, Silvana Vilodre; MÜLLEN, Johanna Coelho von (Org.). Memórias do esporte e do lazer no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: FUNDERGS, 2013.

174 ROCHE, Jean. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul, 2v. Tradução de Emery Ruas. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.

175 CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italianidade(s): imigrantes em Porto Alegre. In: Encontro Anual da ANPOCS, 21., 1997a, Caxambu. Anais do Encontro. ST12. Não paginado. Disponível em:

<http://www.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=5293&Itemid=360>.

Acesso em: 11 mai. 2016.

176 MACHADO, 1998, p.35; PESAVENTO, Sandra Jatahy. De como os alemães tornaram-se gaúchos pelos caminhos da modernização. In: MAUCH, Cláudia; VASCONCELOS, Naira. Os alemães no sul do Brasil: cultura, etnicidade, história. Canoas: Ed. ULBRA, 1994; SCHETINO, André Maia. Pedalando na

Modernidade: a bicicletas e o ciclismo no Rio de Janeiro e em Paris na transição dos séculos XIX-XX. 2007.119 f. Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

por outro intentamos analisar as idealizações e comportamentos implicados. Se o “anseio pela modernidade edificatória ou urbana [...] é antigo, já podendo ser identificado concretamente pelo menos no século XVI”177, na Porto Alegre da virada do século XIX para o XX assume

nuances de uma cultura híbrida, de uma busca não só pelo novo, mas pelo novo Europeu, e que em sua simbologia e seu uso se conectem às expectativas de progresso e civilização.

As elites sul-rio-grandense estavam há muito vinculadas ao latifúndio e à pecuária – desta forma, a burguesia urbana equivaleria a uma parcela não-hegemônica desse estrato social. A elite agrária foi influente na configuração da vida política, social e cultural, enquanto a elite empresarial seria portadora de uma nova ordem, relacionada à indústria, à cidade e ao progresso – seria também a propulsora das associações esportivas. Essas duas frações conflitavam em alguns aspectos, quanto à diversificação econômica proposta pelos republicanos, por exemplo, mas complementavam-se em outros, uma vez que partilhavam a posição de elite178. Essas contradições podem ser percebidas no campo simbólico por meio de um exemplo que observaremos mais de perto em seguida – o antagonismo entre o cavalo (rural, tradicional) e a bicicleta (uma máquina moderna), ao mesmo tempo que um hipódromo abrigaria um clube de ciclistas sem sede por um período razoável.

Ao clima de intensas mudanças políticas, culturais e tecnológicas que movimentaram o Ocidente na segunda metade do século XIX costuma-se atribuir o nome Belle Époque, mas as fronteiras temporais que definem essa “época” são flutuantes.

A Belle Époque se associa também ao processo de reestruturação de grandes cidades. As reformas empreendidas por Haussmann em Paris durante o Segundo Império (1852-1870), teriam tornado a cidade o “centro difusor desse processo de remodelação da fisionomia arquitetônica e urbanística das grandes cidades do mundo ocidental”179.

No Brasil, desde o período colonial, a França e a Inglaterra eram vistas como exemplos de “civilização”180. Nos primeiros anos da República, “os limites em termos da capacidade à

acumulação capitalista local e, consequentemente, de uma mais profunda renovação urbana e tecnológica não impediram que Porto Alegre, assim como o País, vivesse o sonho das civilizadas cidades europeias”181.

Ao mesmo tempo, é importante avaliar em que proporção este modelo foi aplicado,

177 MACHADO, 1998, p.35.

178 MACHADO, 1998; PESAVENTO, Sandra Jatahy. A Burguesia Gaúcha: dominação do capital e disciplina do trabalho (RS 1889-1930). Porto Alegre: Ed. Mercado Aberto, 1988.

179 DOBERSTEIN, 1999, p.12.

180 NEEDELL, Jeffrey. Belle Époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Tradução Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

sobretudo levando em consideração as matrizes culturais germânicas oriundas dos imigrantes, no caso de Porto Alegre, que era influente o bastante para que fosse chamada de “cidade dos alemães”182.

Quanto ao Rio de Janeiro, capital e principal cidade do Brasil nos anos 1890, temos as seguintes considerações – para Feijão, “não se pode precisar exatamente em que ano teria começado a Belle Époque carioca”. Já para Sevcenko “esse período abrangeria grosso modo de 1900 a 1920 e assinala a introdução no País de novos padrões de consumo”, teria como marco final a ascensão de Getúlio Vargas à presidência. Para Needell “a Belle Époque carioca inicia- se com a subida de Campos Sales ao poder em 1898”183.

Conforme Cardozo “não podemos negligenciar que houve várias Belles Époques no Brasil, em que cada estado viveu seu período auge nos aspectos políticos, econômicos e sociais”. Sobre Porto Alegre, o autor propõe a delimitação 1900-1930184.

Observando estes exemplos, notamos as flutuações das marcações de início e término da “bela época”. No caso de Porto Alegre, considerando os tópicos destacados acima, acreditamos que os primeiros movimentos deste período foram feitos em 1895, com a vitória dos apoiadores de Júlio de Castilhos. Como vimos, os castilhistas se identificavam com o ideal positivista de “progresso”, muito pertinente ao “sonho de modernidade”. A partir de então, vemos a fundação de mais associações, das primeiras faculdades e o início da industrialização. Segundo Pesavento, o primeiro intendente de Porto Alegre, Alfredo Augusto de Azevedo (1892-1896), entre 1893-1894 já trabalhava no sentido de suprir as demandas da cidade no campo da aparência e do saneamento, estabelecendo padrões para as novas construções, buscando um aspecto “civilizado” e “higiênico”, o que “empreendia um surto de construções modernas” e condenava os cortiços, “em consonância com a proposta de varrer os pobres do centro da cidade”185. Havia uma preocupação em controlar, moral e fisicamente, a

população. Era necessária uma estratégia para “domesticação” das classes populares186, além

182 SINGER, 1977.

183 FEIJÃO, 2011, p.161; NEEDELL, 1993, p.39; SEVCENKO, Nicolau. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: __________; NOVAIS, Fernando A. (Org.). História da vida privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do Rádio. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991a, p.37.

184 CARDOZO, José Carlos da Silva. A influência da Belle Époque brasileira na criança porto-alegrense por meio dos processos de tutela do Juizado de Órfãos. Revista de História (UFBA), Salvador, v.1, n.2, p. 39-52, 2009, p.43. Grifo nosso. Disponível em: <http://www.revistahistoria.ufba.br/2009_2/a03.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2015.

185 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imaginário da Cidade: representações do urbano (Paris, Rio de Janeiro e Porto Alegre). Porto Alegre: Editora da Universidade, 2002, p.267.

186 BAKOS, Margaret M. Decorando a sala de visitas: Porto Alegre na virada do século 19. In: MAUCH, Cláudia et al. Porto Alegre na virada do século 19: cultura e sociedade. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1994; CONSTANTINO, 1997b.

da já mencionada “reserva” do centro aos “civilizados”.

Após Azevedo, José Montaury assumiria o cargo – o qual ocuparia por quase três décadas (1897-1924). Durante seu longo período de governo, alguns componentes podem ter ampliado as expectativas sobre o empenho do intendente em embelezar e modernizar a cidade – São Paulo vivenciou um acelerado processo de urbanização na virada do século, e Pereira Passos empreendeu a Regeneração do Rio de Janeiro. Ambos os processos foram contemporâneos a Montaury187. Contudo, ainda que essas reformas urbanas acontecessem geralmente sob a sombra de Paris, Doberstein coloca que isso não significa que todas elas tenham copiado a capital francesa188. Como exemplo disso, Pesavento e Doberstein se contrapõem a Günter Weimer, quando este autor afirma que as obras públicas tendiam ao estilo francês e a construção civil ao germânico – para os historiadores, não havia uma divisão tão rígida189.

Outro ponto é que se as matrizes ideológicas do castilhismo estavam vinculadas ao modelo positivista francês, e se o Rio de Janeiro era um forte exemplo local, por outro lado os germânicos tinham poder econômico e representatividade social. Esses alemães nas classes altas teriam condições de influir nas questões de gosto e de visualidade.

Consideremos também que, diante da escassez de recursos públicos – ou talvez um horror a mudanças, conforme Bakos – cautelosamente Montaury aproximava ou distanciava Porto Alegre das referências externas de modernidade, assinalando que as grandes obras aconteceriam no momento oportuno e que era errôneo comparar a capital com as outras cidades que se renovavam190.

Needell comenta que no Rio de Janeiro de 1898 “as condições para uma vida urbana elegante estavam de novo ao alcance da mão”191, enquanto em Porto Alegre “na proposta de

progresso positivista, a cidade moderna configurava-se como uma das imagens simbólicas da modernidade almejada” e “a cidade colonial que se ensaiava burguesa e moderna, fornecia as condições para que se constituísse um projeto e se perseguisse um ideal192.

Se não foi na década de 1890 que as duas capitais viram se materializar no urbanismo as mudanças que idealizavam, notamos que já se articulavam social e culturalmente. Conforme referimos, no Rio de Janeiro as reformas foram empreendidas durante a administração de

187 MONTEIRO, 2004; PESAVENTO, 2002. 188 DOBERSTEIN, 1999. 189 DOBERSTEIN, 1999; PESAVENTO, 2002. 190 BAKOS, 1994; PESAVENTO, 2002. 191 NEEDELL, 1993, p.39. 192 PESAVENTO, 2002, p.268

Pereira Passos, entre 1903-1906, e o “afrancesamento” das fachadas – muitas vezes não se modificava os interiores – se tornaram sinônimos da belle époque carioca193. Na reforma de São

Paulo, embora o modelo também fosse o francês, os arquitetos eram principalmente italianos e alemães194. Em Porto Alegre, Montaury passou a atender mais sistematicamente os problemas

municipais e também a ser pressionado pelo eco destas reformas que chegavam ao sul195.

Entretanto, a alcunha de “reformador” foi atribuída a seu sucessor, Otávio Rocha (1924-1928), “considerado responsável pela mudança do perfil urbano da cidade, tirando-a do 'marasmo provincial' em que vivia”196.

Os velódromos dos clubes de ciclismo foram inaugurados entre 1898 e 1899, inseridos nesse contexto de transformações na cidade – sendo eles próprios parte disso, como estruturas completamente inéditas no local, diretamente relacionadas a uma prática considerada moderna, importada da Europa. Mais adiante nos debruçaremos sobre seus ciclos de vida e seus frequentadores.

Por enquanto, nos resta concluir algumas reflexões. Em primeiro lugar, apontar que nossa compreensão de belle époque a coloca temporalmente entre 1895, com a consolidação dos castilhistas no poder, e 1928, com o falecimento de Otávio Rocha, que empreendeu as reformas que de fato materializaram a alteração na fisionomia do centro da capital197. Ficaria

assim duplamente antecipada às delimitações apresentadas por Sevcenko e Cardoso. Acreditamos que também não seria incorreto afirmar que belle époque seria uma designação seletiva, que suprime as tensões existentes nos diversos campos a que se refere. Um exemplo que podemos citar é que, se por um lado os intendentes de Porto Alegre buscavam atender os anseios de modernização e embelezamento da cidade, por outro uma das principais críticas a Montaury, por exemplo, é que nada fazia para minorar as condições de vida dos mais pobres, enquanto um número crescente de mendigos circulava pelas ruas e praças da cidade198. Por fim,

se o ideal de modernidade era inspirado no modelo parisiense, nos parece que não foi aplicado diretamente ou em uma proporção tão ostensiva quanto no Rio de Janeiro. A alta sociedade porto-alegrense contava com numerosos indivíduos de origem teuto-brasileira. Várias dessas pessoas tinham uma ligação próxima com sua cultura ancestral, além de desempenharem papéis

193 NEEDELL, 1993. 194 DOBERSTEIN, 1999. 195 PESAVENTO, 2002.

196 MONTEIRO, Charles. Porto Alegre e suas escritas: história e memórias da cidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006, p.128.

197 Otávio Rocha foi substituído por seu vice, Alberto Bins, que na década de 1880 foi um dos precursores do remo em Porto Alegre.

de destaque nas importações e na nascente indústria local. No âmbito cultural, contribuíram não apenas na arquitetura, mas também promovendo hábitos, como o das práticas de esportes e da participação em associações.

Essa reflexão sobre a belle époque – ou talvez schöne Epoche – nos conduz a outra, sobre a hibridação cultural resultante desses processos.