Aquela dose de amor é outro cordel de uma linguagem simples, mas que encanta por sua capacidade de tocar o coração humano e alertar para as ações desastrosas que o ser humano tem realizado. Composto de 32 estrofes todas em forma de sextilhas. Antônio Francisca utiliza nele um vocabulário simples como: Juriti, rolinha, espingarda, velhinho, pão, formiga, pelicano, cabeça, juízo, sentimentos.
Verifica-se na obra de Antônio Francisco que seus versos partem de uma realidade comum e a partir do cotidiano ele mescla a realidade com a fantasia e cria uma história mítica ou lendária, onde o sobrenatural opera com o intuito de fazer o homem refletir e mudar de atitude em relação à preservação da fauna.
No cordel em questão o narrador se encontra na própria aldeia em que mora e está atirando em uma juriti quando surge um ancião que começa a dialogar com ele. Um certo dia eu estava/ao redor da minha aldeia/ Atirando nas rolinhas,/ caçando rastros na areia,/Atrás de me divertir/ Brincando com a vida alheia. Depois disso o narrador atira em uma juriti que cai adiante, voando. E então surge um velhinho “com um taco de pão na mão”:
O velho disse: _ “Senhor, Não quero lhe ofender, Mas se está com tanta fome
E não tem o que comer, Mate a fome com este pão,
Deixe este pássaro viver.”
No diálogo que o narrador trava com o ancião, ele (o narrador) diz caçar apenas por diversão, não para saciar a fome. O velho atribui a culpa desse orgulho e egoísmo à falta de amor no coração humano.
34 O velho disse: - “É normal
Esse orgulho do senhor E todo esse egoísmo Que tem no interior. É porque falta no peito Aquela dose de amor”.
O homem predador se sente comovido com as palavras do velho e pede que ele lhe conte a história daquela dose de amor. O ancião começa dizendo que isso ocorreu porque o pai deste pediu, ao fazer o mundo, que este lhe ajudasse com o último dos animais, ou seja, com o ser humano. E aí surge também uma explicação simbólica para a figura do velhinho. O pai seria a figura de Deus (o criador) e o velhinho poderia simbolizar seu filho Jesus Cristo.
Pai me disse: - Filho, eu fiz Da formiga ao pelicano;
Botei veneno na cobra, Bico grande no tucano, Agora estou terminando Este animal ser humano.
No entanto esse cordel não possui apenas um cunho moralista, mas há uma mescla de humor que remete o leitor à fruição, a deliciar-se com a construção de uma linguagem despojada de artifícios ao mesmo tempo em que fala ao coração da humanidade. E o aspecto mágico trazido pela arte, na qual a literatura popular se encontra inserida é justamente esse: da não intencionalidade, visto que apesar de não pretender catequisar ou ensinar, acaba por transmitir ensinamentos. E o ancião falando sobre o ser humano:
Mas ficou meio sem graça Este animal predador... O couro não deu pra nada,
A carne não tem sabor, Na cabeça tem juízo, Mas, no peito, pouco amor.
35 O pai do ancião pede que ele o ajude a consertar o ser humano ajudando esse último a amar e a tirar do peito o desejo de matar. Para conseguir tal intento pede que vá à casa dos sentimentos e pegue a dose de amor, a qual se encontra perto do pote do mal e coloque no peito do animal (homem). E a confusão da narrativa poética ocorre justamente nesse trecho, pois o velhinho deixa a dose se perder no caminho e acaba se confundindo e pegando o pote errado. Ao invés de colocar amor no peito do ser humano, o ancião, sem querer, coloca o seu inverso (ódio). O pai (criador) acaba notando a troca por meio das atitudes do homem:
Mas logo no outro dia Meu pai sem querer deu fé
Do animal ser humano Chutando um sapo com o pé
E no outro ele mangando Dos olhos do caboré.
Esse cordel é composto de uma beleza imagética, em que o ritmo, o léxico e a sonoridade contribuem para que o leitor viaje com Antônio Francisco fazendo uma retrospectiva na historia da humanidade. A partir daí, visualize então, a ausência total de amor no ser humano e através da tomada de consciência trilhe outros caminhos que não os que apontam para a total destruição. O pai do ancião fala:
Esse bicho inteligente Com esse ódio profundo Com pouco amor nesse peito
Não vai parar um segundo Enquanto não destruir A última célula do mundo.
E é por essa ausência de amor no coração dos homens que eles não sabem ser generosos, são hipócritas, traem uns aos outros, amam o poder e os bens materiais mais do que ao próximo. Sobre a falta da dose de amor:
Sem ela vocês trucidam E batizam os crimes seus.
36 Na era medieval
Queimaram bruxas e ateus E perseguiram os hereges
Usando o nome de Deus Sem ela, foram pra África E fizeram a escravidão... Com os grilhões do preconceito
Escravizaram o irmão Com a espada na cintura
E uma bíblia na mão.
A partir da contação da história pelo ancião, o narrador muda de atitude, fica comovido e não tem mais coragem de atirar na juriti que foi chumbada, joga fora a espingarda e sai procurando a dose de amor e ainda apela para outras pessoas:
Se acaso algum de vocês Tiver a felicidade De encontrar aquela dose,
Eu peço por caridade Derrame todo o sabor Daquela dose de amor No peito da humanidade.
Iremar Leite Ferreira fala sobre a obra de Antônio Francisco:
E estava ele a me fazer entender o instinto predador do ser humano, talvez colocando em si a carapuça que, também, a mim servia muito bem. Ler Antônio Francisco é caminhar nas estradas de barro no lombo de um burro choutão, é observar a enfieira de arretirantes margeando os caminhos, é se banhar nos rios e nas lagoas depois da pescaria, é abrir o borná e poder oferecer farinha com rapadura, é descobrir a magia de penetrar nos nossos sonhos, o caminhar entre reis e rainhas, é se assustar nos castelos mal- assombrados, é ver todos os tipos que compõem nossa gente, é ser mais fraterno e mais irmão, é ser o que há de melhor no mundo: ser nordestino. (FERREIRA, 2011, p.27)
Como Ferreira nos afirma, ler Antônio Francisco é nos aproximarmos mais da nossa cultura, é valorizarmos a nossa região, os nossos costumes e vivermos viagens emocionantes pelo imaginário com variadas paisagens e personagens e experimentarmos as mais diversas
37 sensações e através destas internalizarmos sentimentos altruístas como a fraternidade e o amor, e tornamo-nos assim, seres humanos melhores.
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