Souza e Lamounier (2010) ressaltam as dificuldades em estabelecer se uma família integra as classes médias tomando como critério-objetivo apenas a sua renda mensal. Para os autores, uma possibilidade de superar tal impasse seria associar a renda mensal ao potencial de consumo das famílias. A partir de tal critério, é possível estratificá-las (as famílias) em classes de consumo (econômicas) A, B, C, D e E, de acordo com pontuação que elas obtêm em função da posse de bens duráveis, quantidade de empregados domésticos e grau de instrução do chefe de família53.
No caso dos jovens pesquisados, segundo a divisão das classes econômicas da ABEP (Associação Brasileira de Estudos Populacionais), foi possível levantar os dados apresentados na Tabela 14, a seguir.
Tabela 14 – Posição de classe econômica das famílias dos estudantes do ensino médio do colégio Cecília Meireles, segundo
critérios da ABEP, 2012 Classe Econômica Pontos Frequência A1 42 -46 2 A2 35-41 19
53 Trata-se do Critério de Classificação Econômica Brasil, da ABEP. Disponível em:
112 B1 29-34 22 B2 23-28 17 C1 18-22 3 C2 14-17 0 D 08-13 0 E 0-7 0 Total 63
Fonte: ABEP, 2012 em associação com os dados obtidos no questionário.
Nota-se a predominância do estrato B1, seguido por A2 e B2. Tais estratos mostram que os jovens do colégio Cecília Meireles têm considerável poder econômico de consumo. Por tais elementos, reafirmamos que os estudantes que interagiram com a pesquisa pertencem a classes médias, que gozam de um padrão de vida confortável. Todas as famílias têm, pelo menos, um automóvel, e apenas dois domicílios não possuem máquina de lavar roupas.
Quando comparamos os dados das classes econômicas de forma separada (por salas – 1º, 2º e 3º ano do ensino médio), a classe do 3º ano é a mais homogênea. Ela compõe-se de 14 alunos, dos quais 12 participaram da pesquisa. Do total de participantes, nove jovens correspondem ao estrato B1; dois, ao estrato B2; e apenas um, ao C1. A sala de aula do 1º ano é a mais abastada economicamente, com muitos sujeitos incluídos nas classes A2 e B1. O 2º ano, por sua vez, apresenta porcentagens muito semelhantes entre os grupos A2, B1 e B2.
Por fim, outra possibilidade de mensurar as classes sociais e determinar a sua abrangência é o critério utilizado pelo IBGE, que se apoia no número de salários mínimos, cuja divisão é mais simples. Tendo por base o salário mínimo de 2012, que é de R$622,00, teríamos a configuração disposta na Tabela 15.
Tabela 15 – Classificação das classes econômicas no Brasil, por montante de salários mínimos auferidos, segundo critérios do IBGE, 2012
113 Classe Salários Mínimos
(SM) Renda Familiar (R$) A Acima de 20 sm R$12.440,00 ou mais B 10 a 20 sm De R$6.220 a R$12.440,00 C 4 a 10 sm De R$2.488,00 a R$6.220,00 D 2 a 4 sm De R$1.244,00 a R$2.488,00 E Até 2 sm Até R$1.244,00
Fonte: IBGE, 2012, asociados aos dados fornecidos pelos jovens ao questionário. Nesta pesquisa, uma das perguntas do questionário era acerca da renda – o valor total mensal recebido pela família. Entretanto, muitos dos jovens mostraram-se receosos e não declararam a renda familiar. Alguns afirmaram desconhecê-la, e outros declararam que não gostariam de informar- nos a respeito de tal assunto. A postura mais aberta foi exceção, com a turma de jovens do 3º ano: todos responderam a esta questão. A reserva maior ocorreu no 1º ano e, depois, no 2º. Do total dos 63 participantes, 18 não responderam à questão, o que inviabiliza, de certo modo, o uso do critério do IBGE para a nossa pesquisa. Dentre os 45 participantes que responderam a esta questão, temos os resultados arrolados na Tabela 16, abaixo.
Tabela 16 – Classificação das classes econômicas dos jovens pesquisados, por montante de salários mínimos auferidos, segundo
critérios do IBGE, 2012 Classe Econômica Renda Frequência A Acima de 20 SM 3 B 10 a 20 SM 13
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Fonte: IBGE, 2012 associados às respostas dos jovens ao questionário.
A partir do conjunto dos dados sociais e econômicos, podemos inferir que essa parcela da população pertence às camadas médias, tem um potencial elevado de consumo, se comparado ao rendimento médio do município, e combinou estratégias para conquistar – ou manter-se – na sua situação de classe. Percebemos que a escolarização é uma das vias para a conquista de espaço profissional, mais marcada no universo feminino. Outra via para isso é o empreendedorismo, como afirmam Souza e Lamounier, que destacam que “Ter um negócio próprio afigura-se tão importante como para inclusão na classe média quanto o diploma universitário, a casa própria ou um padrão de vida estável” (2010, p. 75). Dada a quantidade de pais que são empresários/ empregadores, temos um grupo de pessoas com capital para investir em pequenas empresas ou em outras esferas da iniciativa privada.
Os jovens, por sua vez, desfrutam deste padrão de vida confortável, e estudar em um colégio privado parece compor o repertório que os distingue de outras parcelas da população juvenil. Frequentar uma escola particular, poder consumir as novas TIC, não se preocupar com o trabalho, são maneiras de garantir o status de grupo economicamente privilegiado e afirmar os próprios interesses, realizar as próprias escolhas num feixe maior de possibilidades.
Uma das formas de consumo que caracteriza as classes médias do Cecília Meireles diz respeito às viagens de lazer. Do total de 62 jovens (um dos jovens não respondeu à pergunta), 44 disseram que costumam viajar. A maioria dos entrevistados (28) informou que viaja frequentemente para ranchos, casas à beira do rio Grande, na fronteira do estado de São Paulo com o de Minas Gerais, em condomínios destinados a este tipo de moradia, e, pelo menos uma vez ao ano, para destinos conhecidos nacionalmente. As viagens
C 4 a 10 SM 21
D 2 a 4 SM 10
E Até 2 SM 0
115
internacionais são realizadas com menor frequência e por uma porcentagem bem menor de estudantes (apenas 8 deles declararam que saem do país anualmente). As viagens para a praia são feitas pela maior parte dos sujeitos da pesquisa (um total de 42 jovens), no mínimo, uma vez ao ano.
Os dados encontrados confirmam a pesquisa e a constatação de Guerra et al (2006). Segundo os autores, para entendermos a classe média, não podemos deixar de lado os seus padrões de consumo – que a identificam e diferenciam como grupo. A partir dessa perspectiva, eles destacam que o gasto das famílias das classes médias é maior do que o das camadas mais pobres no que se refere às “(...) viagens, gasolina, álcool, aquisição e manutenção do veículo próprio (representando respectivamente 1,2%, 3,4%, 0,3%, 6,3%, 1,7% da totalidade de suas despesas” (GUERRA et al, 2006, p. 91).
Sabemos que alguns itens de consumo acabam por engendrar e constituir novos hábitos de comportamento. Isto ocorre com as chamadas novas TIC (tecnologias da informação e comunicação), que também ganham espaço e vêm se afirmando, cada vez mais, como objetos de desejo indispensáveis para os grupos juvenis pesquisados. Elas são compostas por objetos e serviços como computadores e internet, telefones móveis e/ou com acesso à internet. Pereira (2010), em uma pesquisa realizada em diversas escolas das periferias da cidade de São Paulo, afirma o seguinte:
As novas tecnologias não invadiram a instituição escolar apenas fisicamente pela inserção dos equipamentos, pois se as tecnologias são, como afirma Mcluhan, extensões do humano e, dessa forma, continuidade do corpo humano, pode- se dizer incorporadas, ainda que não portassem nenhum equipamento, na medida em que essas podem transformar não apenas seus comportamentos e percepções do mundo, como também suas capacidades cognitivas (PEREIRA, 2010, p. 204).
No colégio Cecília Meireles, o cotidiano dos alunos é, constantemente, atravessado pelas novas TIC que, além de serem usadas para os estudantes ouvirem músicas, são utilizadas para acessar a internet e tirar fotos que, eventualmente, caem nas chamadas redes sociais, registrando momentos vividos durante as aulas. Os alunos do 1º ano do ensino médio também
116
criaram um grupo virtual na rede social chamada Facebook, para compartilhar tarefas e atividades escolares, como já foi mencionado aqui. Por enquanto, vamos ver alguns dados com relação ao tempo de uso e de aquisição destes bens.
3.9. O uso das novas TIC (tecnologias da informação e comunicação)