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Québec, avril 1962

Dans le document CANADIEN NATURALISTE (Page 113-149)

A intensificação dos sentimentos de medo e insegurança nas relações sociais em relação ao desconhecido é gerada pelas mudanças de nossa modernidade, pois não temos o controle de seus elementos. A reflexividade proporciona a reflexão sobre a implicação mútua de nossas ações e de outros agentes, afetando a vida pessoal e a constituição do “eu”, assim como da estrutura social.

O monitoramento reflexivo da atividade é uma característica da ação cotidiana e envolve a conduta não apenas do indivíduo, mas também de outros. Quer dizer, os atores não só controlam e regulam continuamente o fluxo de suas atividades e esperam que os outros façam o mesmo por sua própria conta, mas também monitoram rotineiramente aspectos, sociais e físicos, dos contextos em que se movem. Por racionalização da ação entendo que os atores – também rotineiramente e, na maioria dos casos, sem qualquer alarde – mantêm um contínuo ‘entendimento teórico’ das bases de sua atividade.

A ação é um processo contínuo, um fluxo, em que a monitoração reflexiva que o individuo mantém é fundamental para o controle do corpo que os atores mantém até o fim de suas vidas diariamente. “Sou o ator de muitas coisas que não tenho a intenção de fazer e que posso não querer realizar, mas que, não obstante,

faço” (GIDDENS, 2013, p. 11). As ações cotidianas influenciam o meio, e este,

influencia a vida pessoal dos indivíduos e suas ações, o que Giddens caracteriza de dualidade da estrutura.

Segundo a teoria da estruturação de Giddens, a ação executada por um indivíduo é um processo contínuo de estruturação e reestruturação. Diferentemente da sociologia estrutural (da estrutura), a qual entende que as propriedades estruturais da sociedade formam influências coercitivas sob a ação, a teoria da estruturação postula que a estrutura é também coercitiva, mas, além disso, é facilitadora da ação, visto que corresponderia ao conjunto das regras e dos recursos recursivamente utilizados na reprodução de sistemas sociais. As regras são consideradas como elementos normativos e códigos de significação. Já os recursos, podem ser impositivos, derivados ou alocativos da ação dos agentes, procedentes de aspectos materiais do mundo. Assim, pode-se concluir que a estrutura se relaciona às ações desenvolvidas pelos indivíduos no tempo e espaço, de forma padronizada e recorrente, e a estruturação se refere à reprodução dessas ações.

A estrutura tem de ser pensada em termos da recursividade da vida social. Não é algo que esteja lá simplesmente, ela passa pela ação dos indivíduos, e nesse sentido há semelhanças interessantes entre as estruturas de sistemas e a estrutura da linguagem, pois esta só existe na medida em que as pessoas falam, mas tem continuidade dentro de comunidades, através do tempo e do espaço. E as pessoas falam uma determinada língua enquanto sabem as formas e regras para faze-lo. (...) A estrutura tem dois sentidos: é tanto habilitadora como coercitiva (GIDDENS, 2013, pp. 15-16).

Deste modo, o autor ratifica:

A estrutura, como conjunto de regras e recursos recursivamente organizados, está fora do tempo e do espaço, exceto em suas exemplificações e coordenação como traços mnêmicos, e é marcada por uma “ausência do sujeito”. Os sistemas sociais em que a estrutura está recursivamente implicada, pelo contrário, compreendem as atividades localizadas de agentes humanos, reproduzidas através do tempo e do espaço. Analisar a estruturação de sistemas sociais significa estudar os modos como tais sistemas, fundamentados nas atividades cognoscitivas de atores localizados que se apoiam em regras e recursos na diversidade de contextos de ação, são produzidos em interação (GIDDENS, 2012, p. 30).

As motivações e razões para as ações individuais se desenvolverem de uma determinada maneira estão relacionadas com as características da ação social (racionalidade, reflexividade e intenção) e com os elementos da estrutura (instituições práticas no tempo e no espaço, sendo a agência e contingência). Na ação social os indivíduos possuem o poder de agir de uma maneira ou de outra, através da racionalidade, na qual o agir social é contrário a um hábito mecânico, da reflexividade, em que os agentes são construtores e produtos de sua própria ação ou mediante a sua própria intenção, o que corresponde ao elemento não premeditado da ação, mas que possibilita o alcance do objetivo desejado. Já em relação à estrutura, o elemento da agência significa a ação humana que faz a diferença, a não contingência, que se refere às consequências não premeditadas da ação. A materialização da estrutura decorre dos elementos descritos, padronizando as relações sociais pelas práticas reproduzidas.

A estrutura está vinculada à ação dos indivíduos, pois no momento que o individuo age, é também um momento em que são reproduzidos os diversos contextos do cotidiano da vida social. Segundo Giddens (2012), é na conduta cotidiana dos indivíduos que a sociedade, a identidade e a intimidade são moldadas e transformadas.

A dualidade da estrutura é sempre a base principal das continuidades na reprodução social através do espaço-tempo. Por sua vez, pressupõe a monitoração reflexiva (e a integração) de agentes na durée da atividade social cotidiana. Mas a cognoscitividade humana é sempre limitada. O fluxo da ação produz continuamente consequências que não estavam nas intenções dos atores, e estas também podem formar condições não reconhecidas de ação, nos moldes de um feedback. A história humana é criada por atividades intencionais, mas não constitui um projeto deliberado; ela se esquiva persistentemente dos esforços para colocá-la sob direção consciente. Contudo, essas tentativas são continuamente feitas por seres humanos, que agem sob ameaça e a promessa da circunstância de serem únicas criaturas que fazem sua “história” no conhecimento desse fato (GIDDENS, 2013, p. 32).

Tomemos como exemplo, para efeito de ilustração, às transformações ocorridas na situação das mulheres na modernização reflexiva. A partir delas podemos observar que a estrutura precede a existência dos indivíduos, porém, esta estrutura de regras e recursos é modificada reflexivamente do mesmo modo que também o modifica. A instituição do casamento de uma mulher inserida na modernidade tradicional, como citado anteriormente, era relacionado ao interesse financeiro ou pelo parentesco familiar, sendo modificado pela influência romancista que, por conseguinte, alterou-se ainda mais no século XX. No discurso atual, fala-se sobre envolvimentos emocionais como relacionamentos e não mais como casamento. Assim como a identidade da mulher, a tradição institucional do casamento é, portanto, reflexivamente alterada e ressignificada durante o processo de modernização, ao passo que para indivíduos situados em nossa modernidade, são imorais situações que antes eram comuns, como a constituição de casamentos através de laços sanguíneos, por exemplo.

Dans le document CANADIEN NATURALISTE (Page 113-149)

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