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A interdisciplinaridade emerge como uma nova possibilidade em pesquisa, portanto, como um desafio. A disciplinaridade vem sendo questionada nos últimos anos, uma vez que não tem conseguido responder aos problemas atuais de forma efetiva, contribuindo mais para o desenvolvimento das disciplinas do que para a solução de problemas complexos que perpassam hoje a sociedade. As disciplinas, para Foucault (1996), são sistemas de exclusão de outros discursos possíveis, pois se fixam no interior de seus limites, repelindo outros saberes que fujam às suas regras anteriormente definidas. O diálogo interdisciplinar torna-se fundamental ao dar destaque à pluralidade dos discursos, possibilitando que outros sentidos possam ser estabelecidos no campo científico.

De acordo com Raynaut (2011), o mundo contemporâneo apela para novos paradigmas e, consequentemente, para novas perspectivas em pesquisa. Os problemas que o cientista se confronta na atualidade exigem uma nova postura intelectual, uma abertura para a interdisciplinaridade, não apenas de natureza teórica, mas um pensamento teórico que se prolongue em uma práxis científica. A interdisciplinaridade é sempre um processo de diálogo entre disciplinas já estabelecidas teórica e metodologicamente, porém, conscientes de suas limitações e de seu caráter parcial no entendimento da realidade.

Atualmente, atravessamos um momento crítico, de rupturas com pensamentos petrificados, de busca por outros sentidos, uma vez que as explicações e teorias sobre o mundo já não são suficientes para conter a avalanche de problemas que se amplificam cada dia mais, sejam eles ambientais, sociais, econômicos, éticos, políticos. Romper com os caminhos já traçados da disciplinaridade não é tarefa das mais fáceis, constitui-se um desafio à própria ciência, que exige a cada dia novas formas de se produzir conhecimento.

Com a evolução das técnicas e do pensamento científico, o mundo se transforma constantemente, transformam-se as pessoas, as culturas, o meio ambiente. As relações que se estabelecem entre os seres humanos, a natureza e as coisas também se modificam, exigindo outros olhares e outros instrumentos para compreendê-las. Assim, abre-se espaço para outras formas de se fazer ciência, surgem novas disciplinas, novos territórios de saber (RAYNAUT, 2011).

Durante muito tempo, houve um modo único de se pensar o mundo. A razão esteve na base do conhecimento científico e ainda predomina até os dias de hoje na sociedade ocidental. A questão que se coloca hoje é que existem outras formas de se conhecer e de se pensar o mundo que não necessariamente atribuem um domínio do humano sobre todas as coisas, mas

incluem o não humano – a natureza e as coisas – no centro da questão, como outras formas de representação do mundo, coexistindo com o pensamento científico (RAYNAUT, 2011).

A cultura ocidental vê o homem separado da natureza, numa relação de superioridade em relação aos outros seres vivos. Sob esta base, a sociedade ocidental se consolidou, definindo valores, normas e procedimentos que imprimem aos seres humanos um estatuto de sacralização, seja de seu corpo ou de sua mente (RAYNAUT, 2011).

Com o avanço das ciências e das técnicas essa relação se modifica. Para Raynout (2011), num mundo em que se torna possível clonar vidas e que células-tronco podem ser cultivadas para substituir órgãos deficientes, nota-se uma necessidade de se rever as representações e os princípios sob os quais a sociedade ocidental se efetivou. O ser humano ocupa hoje um outro patamar: não se distingue do restante da matéria, está se ―naturalizando‖: ―Doravante, do ponto de vista material, não há mais argumento científico que permita sustentar a pretensão do ser humano de ser único, diferente por essência do restante da natureza‖ (RAYNAUT, 2011, p. 79). Assim, o desenvolvimento da ciência e da técnica tem permitido retomar a antiga discussão sobre a dualidade ―homem x natureza‖, evidenciando uma realidade distinta do pensamento hegemônico até então sustentado pela ciência: a realidade é híbrida, o ser humano constrói seu mundo e é construído por ele, numa relação dialética, onde não há separação entre humanos e não humanos.

Apesar disto, conforme o pensamento de Raynaut (2011), o ser humano se destaca em relação ao resto do mundo, pois só a ele é permitido pensar sobre si mesmo e sobre sua realidade. Sua consciência, sua capacidade de elaborar ideias e de dar sentido às suas vivências são faculdades da espécie humana, não encontradas em nenhum outro ser vivo.

Essa característica possibilita aos indivíduos serem sujeitos de sua história e pensarem o mundo em que vivem, como parte constitutiva deste mundo. Apenas os seres humanos - individual ou coletivamente - são capazes de decidir entre o que é ético ou não ético; escolher os critérios que fundamentam sua ação. A ciência pode auxiliar, clarificando as conseqüências das escolhas possíveis aos sujeitos, mas ela não é capaz de fundamentar a ética (RAYNAUT, 2011).

Outrossim, a ciência tem responsabilidades e um papel fundamental na definição de conceitos e na orientação de pesquisas no mundo contemporâneo. Essa nova visão sobre o homem, a natureza e as coisas exige do pensamento científico ultrapassar os limites da disciplinaridade. Cabe à ciência possibilitar outras formas de conhecimento do mundo, renovar-se, construir outros instrumentos e outras metodologias, dado o caráter híbrido da realidade que se impõe cada vez mais como algo complexo e multifacetado (RAYNAUT,

2011). A interdisciplinaridade aparece aqui como possibilidade ao entendimento desta realidade.

Para Raynout (2011), não se pode dizer que há uma definição da interdisciplinaridade que seja consensual, muito menos uma doutrina que possa ser aplicada em um trabalho de campo. O desafio interdisciplinar é tentar restituir, ainda que parcialmente, o caráter de totalidade, complexidade e hibridação do mundo real. Dentro desta concepção, torna-se necessária a análise de dois campos: o campo material e o campo imaterial. A pesquisa interdisciplinar busca construir um modelo analítico onde estes campos se interliguem, descrevendo e analisando como esses campos se entrelaçam.

Pensando nestes dois campos, podemos visualizar em nossa pesquisa a materialidade – as políticas públicas, a instituição escola e o corpo dos sujeitos, entendidos também como tecnologia (FOUCAULT, 2014); - e o imaterial – os sentidos e as ideologias que circulam nestes contextos. Conforme nos explica Raynout (2011), os fatos materiais são sempre interpretados em função de categorias de pensamento e/ou relações de poder. É o que nos propomos a fazer neste trabalho.

1.2 - O lugar de onde falo - A Psicologia Escolar e Educacional

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