Os actos de violência física causam a dor física, aquela que o leitor pode imaginar sem nenhum exercício de introspecção, porém essa é apenas uma das suas formas. Outras se lhe associam e não menos devastadoras. A agressão psicológica desliza em silêncio junto da vítima, e rasga feridas submersas impossíveis de observar a olho nu.
Segundo François Stirn, «a violência parece inseparável não da estrutura do universo (do caos original), mas da condição humana ou do desejo de liberdade» (Stirn, 1978: 26). Assim sendo, onde houver um ser humano sedento de liberdade e/ou de poder, encontramos violência. Hebe Signorini Gonçalves acentua o carácter universal e angustiante da violência:
Trata-se de um fenômeno tão complexo quanto incômodo e preocupante, que vem minando o tecido social e infiltrando-se em todos os sectores da vida contemporânea. É um fenômeno diante do qual não há qualquer possibilidade de neutralidade, ainda que a solução não possa ser reduzida a uma questão de mera aceitação ou rejeição. Afinal, não há como ignorá-la nem como fugir dela, a violência se faz presente a qualquer hora em toda a parte, seja nos espaços públicos ou privados, podendo mesmo arriscar dizer que já se encontra infiltrada nas mais recônditas frestas da subjetividade do homem contemporâneo. (Gonçalves, 2003: 11)
Esta faceta da violência, que parece inerente à própria condição humana, está presente na história da literatura, portuguesa e mundial, actual e antiga, e mancha de dor e de sangue os mais sacralizados textos. A violência e a destruição são os catalisadores dos homéricos escritos e povoam a Odisseia e a Ilíada desde as primeiras linhas: «Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada» (Homero, 2005b: 25). «Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades, ficando seus corpos como presas para cães e aves de rapina». (Homero, 2005a: 29). A violência, a destruição, a luta pelo poder, a morte de culpados e inocentes e as mais ignóbeis traições impulsionam cada capítulo e movem os instintos dos heróis. A violenta destruição provocada, quer pela ira dos deuses desencadeada contra mortais criaturas, numa desigualdade de forças, quer pelas lutas entre mortais, ou entre deuses, enche as páginas dos clássicos poemas épicos e dos relatos bíblicos. A Bíblia sacralizou a violência
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nas suas páginas onde, sob diversas formas, origina trágicos desfechos, genocídios, parricídios, infanticídios, fratricídios. Movido pela humilhação e pela inveja, Caim assassinou o seu irmão, Abel, e foi amaldiçoado por Deus: «O sangue do teu irmão, que tu derramaste, levanta-se da terra a pedir-me vingança. Por isso, amaldiçoado sejas tu pela terra que bebeu o sangue do teu irmão, que tu mataste» (Génesis, 4: 10,11).
A literatura está repleta de narrativas onde a violência espreita até dos mais inocentes enredos das histórias infantis. Assistimos às lutas entre o bem o mal, pela detenção do poder, em que um vencedor terá lugar, aquele que chamam herói, e que raramente se destaca sem o recurso a uma qualquer forma de violência. Salvaguardando as respectivas diferenças culturais e epocais, contos da literatura tradicional como O Capuchinho Vermelho, A Bela Adormecida, A Branca de Neve e os sete anões (registados ou recolhidos por Charles Perrault) padronizam, ainda que simbolicamente, a violência contada às crianças, na perspectiva do herói vitorioso ou na de um narrador que estrategicamente defende o seu ponto de vista.
O leitor descuidado é guiado pelos labirintos da violência e do crime, perspectivando-os internamente desde verosímeis sentimentos de justiça, ou de justiceiros em que se diluem as fronteiras ente o certo e o errado, entre a justiça e a vingança. A realidade e as múltiplas facetas da violência são transpostas para a literatura por inúmeros escritores que, ultrapassando a linha que separa a realidade da ficção, se socorrem das temáticas da primeira para afrontar ou enfrentar a segunda.
Alguns escritores brasileiros contemporâneos, embora de modos diversos, conferem, através dos seus escritos, a palavra aos abandonados pela fortuna e pela vida. Idealizam uma realidade que subjaz palpitante nas ruas e nos bairros da periferia urbana brasileira. Entre outros, destacamos aqui alguns autores que, além de universalmente consagrados, são referenciados por Marçal Aquino em diversas entrevistas. Todavia temos consciência de que existem outros cuja pós-modernidade e actualidade lhes permitiriam pertencer ao rol dos que tentam arrancar da trágica realidade a essência literária que conferirá à sua escrita a fecundidade que lhes permitirá suplantar a própria realidade.
Jorge Amado, «fecundo contador de histórias regionais» (Bosi, 1986: 457) e urbanas, conta as desventuras dos meninos abandonados pela vida, cuja inocência precocemente roubada deambula pelas ruas de São Salvador da Bahia, em Capitães da Areia.
Rubem Fonseca, «numa linha de neo-realismo violento, (explorador) do nosso universo urbano ou marginal» (ibid.: 478, nota 338), considerado por Marçal Aquino «o grande escritor brasileiro de hoje» (Aquino, 2009c), abre O buraco na parede que
nos mergulha impiedosamente no universo urbano brasileiro, no que ele tem de mais sórdido, violento e perturbador. Uma viagem guiada por personagens quase sempre desamparadas: polícias e marginais, escritores fracassados, novos-ricos frustrados, mulheres e homens desesperadamente sós. (s.a., in Fonseca, 1996)6
Numa referência directa aos escritores que influenciaram a sua escrita, Marçal Aquino afirmou:
Rubem Fonseca é referência. Suas cinco primeiras coletâneas de contos, na minha opinião, já o colocam na galeria dos escritores que "permanecerão". Serão lidos, sempre. Escrevem bem, souberam captar a essência de um momento e criaram uma linguagem para expressar isso. O cobrador, seu livro de 79, é uma coletânea perfeita. É seu auge. (Aquino: email [para mim] de 18 de Abril de 2011, 18:39)
Graciliano Ramos «via em cada personagem a face angulosa da opressão e da dor» (Bosi, 1986:453). A feroz e sofrida luta pela existência que os retirantes em Vidas secas travam com a natureza hostil e com «os que podem mandar», os relatos da violenta destituição da liberdade, em tom autobiográfico, na obra Memórias do Cárcere, para citar apenas dois exemplos fugazes, conferem aos seus romances um notável lugar na modernidade brasileira, embora Bosi frise «que a modernidade de Graciliano Ramos tem pouco a ver com o Modernismo e nada a ver com modas literárias» (ibid.: 457). No romance São Bernardo, outro tipo de luta trava a «duras penas» a personagem Paulo Honório, a luta por um lugar ao sol, a luta pela propriedade (ibid.: 454). Desta obra de Graciliano Ramos, o próprio Marçal Aquino destaca a pós-modernidade: «Releio S. Bernardo e acho incrível a pós-modernidade do Graciliano. Parece ter sido escrito ontem» (Aquino, 2009c).
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