Fig. 6 – Georeferenciação do sítio e vectorização em ArcGIS 9.2. do excerto da Carta Militar 321 (1981)
Em trabalhos de prospecção, levados a cabo por Álvaro Batista, foram identificados cerca de 20 mamoas-tumuli, numa área de cerca de doze quilómetros, bordejando a margem esquerda do Rio Zêzere, através das suas várias linhas de cumeeira. Em função das recentes descobertas de campo importava pois testar algumas destas mamoa-tumuli, a fim de os compreender e interpretar, enquanto elementos representativos da ocupação humana na paisagem.
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 189 À partida, ao observar o cariz arquitectónico marcadamente monumental dos MEDÁLITOS, previamente sondados e escavados – Antas de Vale Chãos, Jogada e
Pedra da Encavalada, em contraposição com estes monumentos-tumuli verificamos já
um indício de descontinuidade face à dissimulação na paisagem destes montículos de seixos organizados em mamoa, denunciando uma nova forma de gerir o território funerário e uma ruptura ideológica com os processos rituais megalíticos.
Contudo, e considerando que estávamos perante um novo tipo de sítio no Baixo Zêzere, surgiu como necessário averiguar as consonâncias ou discordâncias daí resultantes, tendo em particular atenção o facto de a mamoa-tumuli de Porto Escuro se ter revelado absolutamente estéril em termos de cultura material.
Estabelecido como princípio primário a divergência comportamental do ponto de vista arquitectónico havia que estabelecer correlações ou dissemelhanças ao nível da cultura material.
Neste sentido, levou-se a cabo uma campanha de escavação na mamoa-tumulus de Porto Escuro. Porém, ainda que tivesse sido possível abarcar a fórmula arquitectónica de construção da mamoa, este sítio surgiu como estéril, em termos de documentação da sua cultura material, uma vez que, pensamos, foi alvo de pilhagem sensivelmente simultânea à sua construção.
A fim de esclarecer a presença, ou a ausência, de conteúdo material das mamoas-
tumuli, decidimo-nos pela intervenção neste novo sítio de Bioucas-Souto, com o
objectivo de testar semelhanças ou divergências no processo arquitectónico, mas também com o intuito de verificar da existência de achados votivos, potencialmente alvo de ritualização.
A metodologia adoptada nesta intervenção não diferiu da que utilizámos no
tumulus de Porto Escuro.
Assim, após a limpeza da vegetação (murta, rosmaninho, estevas, fetos e tojo) em toda a área abrangida pelos blocos de quartzito e de quartzo, montaram-se os dois eixos principais do sítio; o primeiro orientado pelo Norte magnético da bússola - eixo Norte-Sul correspondendo ao eixo Y, o segundo orientado a Este-Oeste da bússola - eixo Este- Oeste, correspondendo ao eixo X.
A partir destes dois eixos o tumuli foi dividido em quadrantes, estipulando-se o reconhecimento de cada um com numeração romana, no sentido dos ponteiros do relógio, sendo que o quadrante I corresponde ao sector nordeste, o quadrante II tem correspondência com o sector sudeste, o quadrante III corresponde ao sector sudoeste e o quadrante IV tem correspondência ao sector noroeste.
Finalmente, a partir dos dois eixos principais, foi implantada uma rede quadriculada de um metro de lado. Quanto à identificação dos quadrados optou-se por utilizar as letras no eixo dos Y’s, organizando o abecedário por ordem crescente de Norte para Sul, e os números, no eixo dos X’s, organizados de Este para Oeste; foi ainda fixado um ponto 0, a partir do qual se obtiveram os valores em profundidade.
A decapagem dos sedimentos foi realizada por níveis artificiais sendo os mesmos crivados em malha fina de 2 milímetros.
Aos níveis artificiais sucedeu a camada arqueológica, cuja única alteração se limitava a possuir, no topo, uma fina espessura de sedimento queimado.
Procedeu-se ainda ao registo fotográfico, sempre que se entendeu necessário. O tumulus 1 do Souto está implantado em substrato, atribuído pela Carta Geológica de Portugal (escala 1:500.000) ao Pliocénico (PA1 - conglomerados de Almeirim), podendo ocorrer esporadicamente sedimentos de cobertura do Miocénio (MT - argilas de Tomar).
É sobre este substrato que foi construída a couraça pétrea que nos proporcionou, em termos de microestratigrafia, uma camada antropizada única, a camada A.
É constituída por sedimento arenoso e pulverulento - possuindo no seu topo uma crosta concrecionada e queimada – com alguma tendência para o concrecionamento, produzido mais pela completa imbricação dos seixos entre si do que pela própria textura do sedimento, plena de pequenas e finas raízes. A classificação da cor do solo pelo código Cailleux corresponde ao P30, cor amarelada-alaranjada, a olho nu.
A mamoa-tumulus 1 do Souto é um monumento de planta circular, com sensivelmente seis metros de diâmetro.
É constituída por uma couraça pétrea (mamoa), de seixos de variadas dimensões, onde predominam, enquanto matéria-prima, o quartzito e o quartzo e, ainda, alguns pequenos fragmentos de granito, com dimensões aproximadas entre os 10 a 15
A Pré-História recenteno Vale do Baixo Zêzere - Um Olhar Diacrónico 191 centímetros de diâmetro, podendo atingir em alguns casos os 40cm e, em outros, escassos cinco centímetros.
A arquitectura de construção mostrou-se semelhante à do mamoa-tumulus de Porto Escuro, muito embora não se tenha verificado a existência de anel lítico descontínuo, constituído por blocos lamelares de xisto, que demarcavam o terminus da mamoa.
A partir dos registos de exumação da estrutura tumular funerária, pensamos ser possível reconstituir uma proposta de cadeia operatória de construção ritualizante deste monumento.
Num primeiro momento, é-nos sugerida, apenas por uma questão pragmática, já que nada existe no registo arqueológico que o comprove, a reserva duma pequena área adjacente à mamoa, onde teria sido colocada uma selecção de seixos que mais tarde passariam a compor a mesma, à qual, à falta de melhor designação, chamaremos “jazida”. Ainda neste primeiro momento, pensamos, são transportados pela comunidade, ou por indivíduos que procederam à construção da mamoa, a urna funerária, já contendo os restos incinerados e as ofertas votivas.
Num segundo momento, far-se-ia a limpeza e alisamento do solo correspondente a uma área com cerca de seis metros de diâmetro.
Num terceiro momento, proceder-se-ia à eleição da zona central desta área previamente preparada assente directamente no substrato arenoso geológico, seria aberta uma pequena fossa ou covacho.
Num quarto momento, este covacho é completamente preenchido pela urna funerária, contendo já as cinzas do indivíduo, e ainda pela deposição (dentro da urna) de outros artefactos votivos: o elemento em bronze, a púcara (também ela previamente preenchida com cinzas e restos osteológicos) e vários elementos orgânicos (dos quais apenas sobreviveram as sementes incarbonizadas). Como complemento, é colocada “à
cabeceira” da urna uma pequena laje de xisto, cuja orientação se ordena sensivelmente a
nordeste. Neste quarto momento, poderemos ainda ressalvar o facto de a urna funerária ter sido transportada para este local, contendo já as cinzas do indivíduo, isto, partindo do princípio que outro ritual funerário teve lugar no local (talvez perto do povoado) onde o indivíduo foi cremado e onde as suas cinzas foram recolhidas. Uma outra possibilidade
seria induzirmos que a cremação teria tido lugar no próprio sítio onde a mamoa é construída; contudo, o facto de não termos observado, em estratigrafia, qualquer vestígio de carvão ou de sedimento queimado leva-nos a supor que a cremação não teve lugar neste mesmo local.
Num quinto momento, é colocado um anel lítico de seixos, com dimensões variáveis entre os 20 e os 30 cm de diâmetro, em redor do colo da urna funerária.
Num sexto momento, procede-se então à construção da mamoa ou couraça lítica, tapando e dissimulando completamente a urna, num total de cinco níveis de deposição de seixos, quer de quartzo quer de quartzito, obtendo-se uma espessura máxima, na sua zona central, de cerca de 50cm. Neste sexto momento, foi ainda possível detectar a deposição ritual de vários recipientes, em todo o raio da mamoa (não podemos ainda afirmar que essa deposição tenha sido lugar por todo o diâmetro da mesma, uma vez que, apenas escavámos um quadrante), colocados entre os vários níveis de seixos. Assim, podemos concluir que a deposição de achados cerâmicos não é exclusiva da zona central da mamoa. Foram também recolhidos fragmentos identificáveis, que compõem vários recipientes, na área envolvente da couraça pétrea e que pertencem a deposições rituais simultâneas à sua construção.
Num sétimo e último momento, após o terminus do ritual, a mamoa é deixada sem cobertura final, enquanto ponto de referência para as populações, fazendo coincidir em simultâneo o tempo dos ritos com o tempo arqueológico.
A cadeia operatória do ritual de construção do monumento, e de eventuais gestos simbólicos, da Bioucas-Souto seria então ordenada da seguinte forma:
* Momento 1 - constituição prévia da “jazida” de seixos e transporte dos elementos votivos (urna);
* Momento 2 - limpeza e alisamento do solo correspondente à área da mamoa;
* Momento 3 - eleição da zona central da mamoa e abertura do covacho no substrato arenoso;
* Momento 4 - colocação da urna funerária e da pequena laje em xisto;
* Momento 5 - colocação de um anel lítico de seixos ao redor do colo da urna funerária; * Momento 6 - colocação dos cinco níveis de seixos e deposição dos 15 recipientes cerâmicos;
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* Momento 7 - mamoa deixada com os seus seixos à vista, enquanto referência funerária. Após tratamento em laboratório (limpos e marcados), foi possível passar à fase de tentativa de reconstituição e reintegração de recipientes tendo sido possível identificar 15 recipientes para além da urna.
Abordando especificamente a questão das cadeias operatórias de produção, estes recipientes são, no seu conjunto, manufacturados manualmente. Após uma análise macroscópica, estamos perante uma amostra onde os elementos de moscovite se apresentam em grande abundância, a sua espessura variando entre os muito finos, finos e médios, organizados de uma forma heterogénea. O grau de cozedura irregular oscila entre o oxidante e o redutor, com maior preponderância para o oxidante. Os bordos que existem alternam entre o apontado-recto e o redondo-recto. As paredes dos recipientes são finas com dimensões que não ultrapassam um centímetro. As bases são planas ou ligeiramente côncavas.
O conteúdo da urna revelou pequenos fragmentos que pertenciam ao elemento de bronze, talvez uma “pulseira”, mas o seu elevado grau de fragmentação proíbe-nos de avançar com uma classificação tipológica deste metal.
Os sedimentos contidos na urna foram recolhidos em campo e trazidos para laboratório, onde se peneiraram em crivo de malha de 1 mm, sendo assim triadas as várias categorias: cinzas, restos ósseos carbonizados, fragmentos do ornamento e sementes incarbonizadas. Uma datação absoluta por A.M.S. de fragmentos ósseos carbonizados, proporcionou o seguinte resultado: 2840±40 BP, calibração a 2 sigma 1120-910 cal BC.