Chapitre II. La promotion du site web
Section 1. La publicité en ligne
A abordagem dos processos de midiatização consiste em discutir o contexto comunicacional em que se configura o acontecimento Tragédia Kiss. Diante disto, considera- se que a midiatização é condicionante da constituição e dinâmica de atuação das Redes de Comunicação Pública e que, neste cenário, as mídias alternativas e radicais são técnicas apropriadas especialmente pelo sistema de redes de comunicação social, quando definidas e estimuladas pelos grupos sociais organizados após a tragédia.
A conjunção entre a técnica e o social, conforme destaca Miége (2009), indica um caminho mais ponderado à reflexão sobre as potencialidades comunicativas das tecnologias digitais, bem como é alternativa à reflexão sobre o impacto da organização corporativa das mídias, estas que são duas searas discursivas que buscamos tangenciar. Contudo, não são negadas as incidências cognitivas da mediação tecnológica e midiática, nas formas de relacionamento e de mobilização social, ocasionadas pela introdução e institucionalização de
A midiatização31 aparece como um processo que constitui uma ambiência (SODRÉ,
2002), cuja lógica transcende as organizações midiáticas e passa a afetar outros campos sociais. O reconhecimento deste cenário organizado em torno dos media constitui uma matriz para a análise dos processos comunicacionais contemporâneos. Nesta direção, o progresso das tecnologias de conexão, produção e circulação de informações transformou o estatuto dos meios de comunicação. Da “simples” mediação aos condicionamentos trazidos às formas tradicionais de sociabilidade e da organização da vida social ocasionados pelo processo de midiatização, são instigantes os questionamentos sobre o impacto do conjunto de transformações mobilizadas pelo avanço dos suportes tecnológicos de mídia na política, na economia, na produção e consumo de bens culturais, nas formas de cognição e de inteligibilidade.
As respostas oscilam desde posições radicalmente cépticas a efusivamente otimistas, transitando entre abordagens mais complexas, com fundamentos antropológicos e societais, a perspectivas tecnodeterministas, as quais atribuem às tecnologias um poder excessivo.
Entre os autores que refutam a onipotência tecnológica, está Verón (2014), que aborda os fenômenos midiáticos a partir dos efeitos a longo prazo, perspectiva que classifica como semioantropológica. Segundo ele, “os fenômenos midiáticos são uma característica universal de todas as sociedades humanas, desde um primeiro estágio de semiose humana, iniciado a cerca de dois e meio milhões de anos atrás, com a produção de ferramentas de pedra” (VERÓN, 2014, p. 13). Assim, não são processos universais característicos de todas as sociedades, nem um fenômeno exclusivo das sociedades industriais desde o século XIX.
Estão ligados a uma dimensão nuclear da espécie humana, precisamente, à capacidade de semiose (VERÓN, 2014), que é ativada de modo diverso e progressivo em contextos históricos distintos. Segundo ele, algumas consequências se fizeram presentes ao longo da história evolucionária, muito antes da modernidade, e foram decisivas na organização daquelas sociedades.
Nesta perspectiva, seu ponto de partida é o que Peruzzolo (2006) tipifica como o limiar do pensamento simbólico humano, demarcado pelo desenvolvimento de artefatos de pedra, há mais de dois milhões de anos. A ativação de um processo semiótico ocorre quando, por exemplo, alguém antevê a ponta de uma flecha para capturar a caça. A partir de um modelo triádico de signo, Verón (2014) enumera três etapas que definem as condições para a sequência de fenômenos midiáticos, que podem ser entendidos como a exteriorização dos
31 Midiatização e mediatização serão tratadas como sinônimas, respeitando-se as formas de emprego nos textos consultados.
processos mentais. São eles: projeção (devir), a materialização e as consequências (mudanças) ocasionadas pelos dispositivos midiáticos na relação com o tempo e com o espaço, e, por fim, as normas sociais estabelecidas para acesso aos signos já materializados. Destarte, segundo ele, estão satisfeitas para “a história da midiatização começar” (VERÓN, 2014, p. 15).
Midiatização seria apenas o nome que se dá à “sequência histórica de fenômenos midiáticos sendo institucionalizados em sociedade humanas e suas múltiplas consequências” (VERÓN, 2014, p. 15). Seria mais adequado falar em diferentes estágios de midiatização, pois precedidos historicamente por outros e que antecedem os que ainda virão, datados a partir da institucionalização de um dispositivo técnico-comunicacional. Ou seja, quando ele é adotado pela comunidade e se aplicou, como o que ocorrera com a imprensa, o rádio e a televisão, por exemplo.
As consequências desta novidade também estão observadas na ordem de três. Em primeiro, elas são radiais, ou seja, materializam-se em todas as direções, afetando as sociedades de diferentes formas e em diferentes níveis funcionais. Em segundo, os efeitos radiais resultam da natureza sistêmica dos fenômenos midiáticos, que não são lineares e que implicam na rede de relações de retroalimentação. Por fim, os dois anteriores explicam a principal consequência dos processos de midiatização, que é a aceleração do tempo histórico. Nesta direção, “a internet alterou a condição de acesso ao conhecimento científico mais do que essa condição mudou desde o surto moderno de instituições científicas durante o século XVII” (VERÓN, 2014, p. 17).
Para Fausto Neto (2006) e Muniz Sodré (2002) o processo organiza-se em outra perspectiva, centrado na análise econômica e ligada aos efeitos da mercantilização da comunicação. Nesta direção, a conjunção mercado e tecnologias viabiliza o processo de midiatização e a atenção está voltada às transformações ocorridas nas últimas décadas, sobretudo com a institucionalização dos dispositivos de comunicação digital em rede.
Sobre isto, Miège (2009, p. 135) sinaliza para a observação dos efeitos benéficos deste processo, como na disseminação de telecursos realizados à distância, por exemplo. Ademais, argumenta que a moldura da produção publicitária a que estão sujeitos os veículos de mídia não tira dos produtos informativos a função e o potencial de incitar o debate no espaço público, na mesma linha de Martin-Barbero (2006), que diz que o Fórum Social Mundial – que teve a primeira edição em 2001, em Porto Alegre – provoca a reflexão sobre o viés estratégico que a comunicação assume em relação à cidadania e à política. Enquanto elemento de disputas e de negociações, ante a hegemonia e exclusões do mundo financeiro, ela está ao centro de um novo espaço público, que inclui movimentos sociais e grupos comunitários,
ainda que em estágio embrionário de desenvolvimento. Trata-se de um espaço público plural, em que a diversidade de atores “e de leituras críticas que convergem para um compromisso emancipador e uma cultura política em que a resistência é ao mesmo tempo formadora de alternativas” (MARTIN-BARBERO, 2006, p. 53).
Segundo Miége (2009), há a tendência das perguntas derivadas do processo de midiatização conduzirem a oposições como antes e depois, tradicional e moderno, real e virtual, mantendo-se mesmo depois que as observações passaram a indicar que elas são insustentáveis. São exemplos dessas oposições, a referência de Orozco Gómez (2006) ao “desordenamento” das mediações tradicionais, como Estado e escola, instituições típicas da modernidade, que perdem força diante da importância da mediação tecnológica nestes dias; e à substituição dos encontros presenciais pelos contatos virtuais e experiências vicárias através das telas de computador. Também, ao questionar se, de fato, serão diluídas as fronteiras entre produtores e emissores de conhecimento, ao que manifesta cepticismo ao contrapor virtual\passional versus presencial\racional.
Talvez, sugere Miège (2009), para a análise dos processos de mediatização, a alternativa recaia em tangenciar essas relações quase dicotômicas, que levam a substituições e a rupturas entre o novo e seus antecedentes, presente e passado, e reenquadrar a lente para a análise das continuidades, complementações e mestiçagens, “a um modo de comunicação que se mantém, o essencial, além das formas nas quais ele se revela para nós, de um lado a outro do planeta” (p. 82). Com isto, assim como Verón (2014), rejeita posições que tendem a exaltar as potencialidades transformadoras das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC’s).
Diz Miége (2009, p. 87), “antes, nos interessamos pela hipótese de um individualismo conectado à técnica, esta suscetível a se referir\afetar aos indivíduos transversalmente aos diversos campos sociais e aos espaços privativos, públicos e de trabalho”. Com isso, evitam- se determinismos tecnológicos e sociais, pois sugere a “existência de mediações múltiplas na interação entre o social e o técnico” (MIÉGE, 2009, p. 89), colocando a problemática no contexto da dupla mediação: é, ao mesmo tempo, técnica e social, porque “os motivos, as formas de uso e o sentido atribuído à prática se alimentam no corpo social”.
Neste sentido, Verón (2014, p. 17) afirma que a invenção da prensa hidráulica democratizou a descontextualização, ligada à permanência dos registros impressos e a circulação de notícias para além do seu local de origem. Descontextualizar, segundo Wolf (1985), é retirar o acontecimento de seu contexto e inseri-lo nas dimensões e normas editoriais do noticiário. E, deste ponto, poder-se-ia dizer que “a história da midiatização pode ser
contada como a interminável disputa entre grupos sociais confrontados, tentando estabilizar sentidos; disputa que se torna, no decorrer da história da nossa espécie, cada vez mais complexa e condenada ao fracasso” (VERÓN, 2014, p. 17).
Assim, as novas formas de comunicação, mediadas pelos dispositivos tecnológicos digitais, complementam as já conhecidas, ao invés de eliminá-las. Em cada época ou estágio tecnológico, há dispositivos midiáticos hegemônicos, que coexistem com os demais, mas para os quais os diversos campos sociais convergem. Assumem, nesta direção, um papel organizativo (FAUSTO NETO, 2006), quando adquirem esta centralidade. Logicamente, enquanto “palco” central de visibilidade ou “espelho” do real (SODRÉ, 2002), passam a ser disputados por atores da política, das organizações mercantis e da sociedade civil, para as mais diversas finalidades, desde a venda de produtos e a disputa de versões sobre temas de interesse público. No cenário das Redes de Comunicação Pública (WEBER, 2007), eles estão ao centro.
A evolução tecnológica, que não se confunde com evolução humana ou social, é vista aqui numa dimensão processual, sem rupturas na introdução e na institucionalização de novos dispositivos comunicacionais, e os seus usos são definidos no corpo social. Diante dessas redefinições, a relação entre comunicadores dos meios massivos e consumidores de informação também é modificada, pois estes estão, em tese, mais exigentes e mais “poderosos” ao terem a possibilidade de expor as suas opiniões, de acessar diferentes fontes de informação e de conhecimento, inclusive científico, de produzir e de compartilhar informações e conteúdos midiáticos.
Como assinala Miége (2009), são necessárias competências comunicacionais para a realização de práticas comunicacionais mediatizadas, seja para a comunicação pública, para efetuar compras, para estabelecer relações sociais. Os grupos midiáticos (formam novos sistemas de comunicação), os construtores de materiais tecnológicos (dispositivos e tecnologias cada vez mais interconectadas), o Estado (informatização dos serviços, agilidade na informação, constituição de redes), as corporações (informatização dos serviços, interação via sites de redes sociais e gestão da imagem) e os usos cotidianos denotam que a comunicação mediatizada se ampliou.
Experimentam-se os novos suportes tecnológicos de visibilidade, produção e circulação de informações, de comunicação e de mobilização social, que não excluem os anteriores, nem as demais formas de relacionamento. Na análise dos fenômenos comunicacionais contemporâneos, deve-se, então, considerar a complementaridade das mídias digitais à rede de comunicação midiática.