• Aucun résultat trouvé

PUBLICATIONS

Dans le document ORGANISATION DU SECTEUR... (Page 7-18)

Quando o gênero atribuído no nascimento não corres- ponde ao gênero que a pessoa se reconhece no decorrer da vida, ocorre um movimento de rejeição e de transição da sua própria identidade de gênero. Erwing Goffman (1988) cunhou o conceito de estigma para caracterizar as discrepâncias ocorridas entre a identidade virtual e a identidade real de um indivíduo. Para o autor, a identidade virtual corresponde às expectativas normativas que um indivíduo deve ter para ser caracterizado e reconhecido como membro coerente à ordem social. Já, a identidade real refere-se às características verdadei- ramente encontradas nos indivíduos83. Quando são observadas

diferenças entre essas duas identidades é que é formado o estigma. Porém, manteremos o olhar analítico por enquanto apenas nessa noção preliminar para se entender o conceito de estigma, ou seja, a discrepância entre a identidade virtual e a real, para problematizar a lembrança mais valiosa de Angel:

Angel: Eu acho que a minha lembrança mais valiosa foi quando eu me vesti de menina pela primeira vez, foi a mais valiosa da minha vida. Foi quando eu ‘tava’ num carnaval, faz uns quatro, cinco anos... Porque no carnaval todo mundo pode se vestir de mulher, né? Os homens podem, né? E eu lembro que eu botei um vestido que a minha sobrinha me deu e eu fiquei produzida, foi tão bom

83 Em seu estudo sobre os desviantes, Goffman não chegou a analisar espe- cificamente as pessoas trans, mas podemos fazer uso de suas reflexões para ponderar como o estigma é formado em relação às travestis e transexuais e como a identidade social pode ser problematizada de um ponto de vista moral.

RELAÇÕES FAMILIARES DAS PESSOAS TRANS: PROBLEMATIZANDO QUESTÕES MORAIS A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO

Marcos Mariano Viana da Silva

164

aquela sensação porque eu me olhava no espelho e eu me reconhecia, era uma sensação assim tão de paz e tranquilidade consigo mesma porque ali era aceitável, ali eu podia, ali eu não seria sancionada e eu lembro que as pessoas, assim...Às vezes eu cheguei e falei: “meu deus, o pessoal vestido, como as mulheres aguentam usar isso?” e as pessoas ficavam assim: “mas, você não é mulher, não?”. Era incrível o reconhecimento social e eu ‘tava’ nesse carnaval e eu me senti muito bem porque eu passei o dia... Eu lembro que eu não queria mais tirar a roupa, eu queria passar os quatro dias que eu ‘tava’ em Pirangi do Sul assim, querendo ficar assim, isso pra mim foi a coisa mais linda porque é uma libertação, né? Você poder ser quem você é. Eu me lembro a roupa. Um vestido floridinho com flores laranjas que amarrava na cintura, uma sandália com uma pedrinha bem aqui assim no meio, uma pedrinha dourada, um batom vermelho, um ‘cilhão’ que minha amiga fez, um cabelo pra trás, uma tiara e uma bolsinha e estavam me chamando de prostituta de luxo porque eu ‘tava’ muito bonita, né? Inclusive, eu participei do concurso que elegia a melhor drag... Não era drag, o melhor cara que estava vestido de mulher e aí não queriam me deixar, quando eu subi no palco, veio gente e falou assim: “não, mulher não pode participar”, e aí teve gente que ficou assim: “não, tire ela daí, mulher não pode participar” e foi muito interessante aquilo, foi muito gostoso, acho que foi assim, a lembrança mais gostosa da minha vida porque era eu, de verdade, eu tinha uma aceitação naquele dia (Entrevista realizada no dia 29/06/2015).

Evidentemente, é preciso esclarecer que quando Goffman enxergava que a diferença entre a identidade virtual e a real tinha um caráter negativo, essa diferença produzia um estigma. Para o autor, essa carga negativa poderia ser determinada por três tipos:

RELAÇÕES FAMILIARES DAS PESSOAS TRANS: PROBLEMATIZANDO QUESTÕES MORAIS A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO

Marcos Mariano Viana da Silva

Podem-se mencionar três tipos de estigma nitidamente diferentes. Em primeiro lugar, há as abominações do corpo – as várias deformidades físicas. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desones- tidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo84, desemprego, tentativas de suicídio

e comportamento político radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmi- tidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família (GOFFMAN, 1988, p. 7).

Entretanto, a discrepância entre a identidade virtual e a real percebida por Angel frente ao espelho inverte as pola- ridades das forças descritas por Goffman – quando pensamos em um sentido referente às pessoas trans – pois, enquanto no âmbito social essa diferença entre as identidades virtual e real é vista a partir de um olhar moral que estigmatiza os dife- rentes, mas que no caso de Angel, foi graças à percepção dessa diferença que ela pode reconhecer o seu gênero real frente ao espelho e se libertar da sua identidade virtual, ou seja, daquilo que era esperado para a sua vivência de gênero conforme a matriz heterossexual.

84 Goffman (1998) não apresenta nessa obra uma visão crítica sobre o conceito de homossexualismo. É importante ressaltar que o sufixo “ismo” refere-se à patologização das identidades das pessoas homossexuais e não é o conceito adotado nessa pesquisa. Consideramos mais apropriado a adoção do termo homossexualidade para falar sobre o desejo das pessoas que se reconhecem como homossexuais de maneira não patologizada.

RELAÇÕES FAMILIARES DAS PESSOAS TRANS: PROBLEMATIZANDO QUESTÕES MORAIS A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO

Marcos Mariano Viana da Silva

166

Dans le document ORGANISATION DU SECTEUR... (Page 7-18)

Documents relatifs