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Public/stakeholder involvement

3. BEST PRACTICE APPLICATION

3.2. Public/stakeholder involvement

Durante os séculos que compreendem o período escravista brasileiro a medicina interessou-se pelos escravizados no sentido de preservar o patrimônio dos grandes senhores escravistas. Desta forma a maternidade das mulheres escravizadas tornou-se uma preocupação para a manutenção do sistema escravista. Em A maternidade da Mulher negra no Período

Colonial Brasileiro, Del Priore (1989) indica que a maior preocupação da medicina brasileira,

principalmente a ginecologia que começava a tomar forma por aqui no séc. XVII como uma prática urbana e elitista, era afastar as crenças na cura pelas curandeiras e o tradição no uso de parteiras das diversas camadas sociais, assim como a medicina europeia já estava fazendo desde

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o século anterior. O parto representava uma questão um tanto mais delicado que o campo das doenças, pois já havia se consolidado como um ritual tradicional feminino, um saber transmitido de mãe para filha de forma que a solidariedade de gênero ultrapassava as diferenças sociais, tendo muitas senhoras partejado suas escravas.

Para entrar na história da maternidade, vale lembrar que é a partir do séc. XVII que o olhar do médico começa a devassar um ritual vivenciado até então por uma comunidade exclusivamente feminina: o momento do parto. Este constituía-se num saber transmitido de mães para filhas, que somava parturiente, parteira, comadres e vizinhas, numa calorosa reunião entre o público e o privado. [...] Pioneiros, alguns tratados da obstetrícia surgem na metrópole a partir do séc. XVIII na esteira dos progressos da Medicina Ilimunista, pretendendo-se irradiadores de um saber sobre o corpo feminino que ora pertencia às parteiras. [...] (DEL PRIORE, 1989, p.10)

A autora aponta que os sinais do corpo que antecediam o parto bem como gestos e práticas auxiliares acabam por ser incorporada pelo discurso médico de tal forma que toda a prática tradicional em torno do parto estava mascarada de tecnologia introduzida pelos médicos. Percebe-se que no Brasil a medicina ginecológica e obstétrica tomou o mesmo direcionamento que a Europa, como mencionado em tópico anterior.

Para as mulheres negras, escravizadas e forras, o ritual do parto configurava-se como um traço de sua cultura, mas agora era forçada a abandonar suas práticas em por procedimentos científicos europeus. O famoso médico francês Jean-Baptiste Alban Imbert, que predominava no discurso médico brasileiro voltado para escravos, após sua chegada em 1831, demonizava as práticas tradicionais das escravizadas, nas senzalas recomendava que no parto houvesse apenas uma parteira que estivesse mais identificada com a ciência do que com as práticas tradicionais e no parto difícil que essa fosse acompanhada de um médico. (DEL PRIORE, 1989, p.20)

O aborto segundo Del Priore (1989, 1994, 2004, 2010) podia configurar-se como uma forma de resistência à escravidão, assim as mulheres escravizadas não condenariam sua descendência à exploração e violência que sofriam. Contudo Imbert em seu Manual do

Fazendeiro ou Tratado Doméstico sobre as enfermidades dos negros, de 1939, insere um

debate estético sobre as consequências do aborto, afirmando que “este acto imprudente a expõem com muito maior certeza a perder o viço da mocidade” (IMBER apud DEL PRIORE, 1989, p.21). Por outro lado, havia um estímulo à natalidade por parte dos jesuítas ao longo do séc. XVII e XVIII, levando a um interdito legal e comunitário por quem abandonasse quaisquer mulheres grávidas ou indicasse que o faria, como abordado anteriormente.

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Barbieri e Couto (2012) registram que o declínio do uso de amas no Brasil data do fim do séc. XIX, por conta das práticas higienistas adotadas aqui. O higienismo, segundo as autoras, “condenavam a prática das amas de leite, denominando-a ‘aleitamento mercenário’; desaprovavam a Roda dos Expostos e passaram a estimular o aleitamento materno” (p.68) é neste momento que o Brasil experimenta o mito do amor materno nos mesmos moldes da Europa, anteriormente mencionado.

O ataque a este costume tem várias vertentes. Uma que mostra a escrava como portadora de doenças, principalmente venéreas; condição que faz do leite um agente transmissor. Esta frente e propriamente física, apesar de apontar para uma crítica a moralidade da escrava: "sórdidas escravas, devassas, de organizações contaminadas pelos vícios sifilíticos, bobático, etc., são as encarregadas da saúde e futuro das infelizes crianças, que com o leite bebem a peçonha que há de envenenar a vida, augurando-lhes um futuro de moléstias e dores. Ninguém se importa que a ama de seu filho tenha tido enfermidades contagiosas, contanto que a aparência seja de saúde, seja aparentemente boa, embora os filhos desta assassina ama, inocentes vítimas, definhem miseravelmente sofrendo o resultado dos vícios de seus asquerosos pais. (MACHADO et al., 1978, p.355)

A citação acima extraída do capitulo “O Negro do Pensamento Médico” do livro Danação da Norma (MACHADO et al., 1978) retrata sobre as publicações da medicina brasileira do referido período contra o costume de usar mulheres escravizadas como amas, publicações como essas colaboraram diretamente para o higienismo, além da a difamação e a repulsa pela amamentação cruzada das amas-de-leite, majoritariamente mulheres negras.

As práticas médicas em relação ao parto de mulheres negras, bem como procedimentos ginecológicos diversos, tem sido palco de debates e grandes produções acadêmicas na área da violência obstétrica16 e da ginecologia. Dados apresentados por Alvarenga e Souzas (2017) demonstram que as práticas médicas deste ramo ainda têm sistematicamente violentado os corpos das mulheres negras, sendo elas o maior quantitativo de vítimas de práticas de violência obstétrica e ginecológica. Tal fenômeno indica que a visão da medicina sobre os corpos negros permanece pouco alterada.

Desta forma a valorização do parto natural, da contratação de doulas, do parto em casa e outras práticas valorizadas principalmente pelo ecofemininismo17, ganharam força nas

16 No Brasil, em 2019, na tentativa de apagamento e negação da prática de “violência obstétrica”, o governo atual

demarcado pelo fascismo, machismo, racismo, homofobia e diversos preconceitos, afirmou que o termo é inadequado, desta forma remove a expressão de todos os documentos oficiais e recomenda a abolição do uso do termo. (DOMINGUES, 2019)

17 O ecofeminismo é uma corrente que liga o feminismo à ecologia que se preocupa com a relação entre ciência,

mulher e natureza (FLORES; TREVIZAN, 2015). Embora tenha trazido grandes reflexões sobre o uso do parto cirúrgico em todos os tipos de gestação, mesmo para aqueles em que a cirurgia não se faz necessária, o movimento também tem flertado com o discurso naturalista que vinculou a mulher com a natureza com as consequências inúmeras que já pontuei neste trabalho.

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primeiras décadas do séc. XX como uma forma de valorizar o momento do parto, mas também de fugir do risco de violência obstétrica e do parto cirúrgico, que tem sido usado em larga escala no Sistema de Saúde.

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3. CONQUISTA DE DIREITOS VERSUS ACÚMULO DE JORNADAS: Ser mãe,

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