A ortografia das línguas germânicas é caracterizada como transparente. Embora haja uma tendência a representar a língua em um nível que inclui aspectos morfológicos, essa representação é muito mais consistente que a do inglês. Ao passo que, para o inglês, por exemplo, a pronúncia da vogal “a” difere em palavras como “hand”, “ball” e “garden”, no alemão, a pronúncia da vogal “a”, nesses contextos, é sempre a mesma. Além disso, as complexidades ortográficas no alemão, freqüentemente relacionadas à representação da vogal, afetam mais a escrita do que a leitura (WIMMER; LANDERL; FRITH, 1999).
Wimmer et al. (1991) avaliaram a consciência fonêmica em crianças austríacas antes da alfabetização e a relação posterior dessa habilidade com a leitura. Tais crianças eram, em sua maioria, incapazes de ler quando iniciaram a 1a série, fato decorrente da conduta escolar daquele país, que não prevê qualquer tipo de instrução precoce de alfabetização. Um teste de substituição de vogal foi usado para avaliar a consciência fonêmica das crianças, assim como um teste para verificar a habilidade de leitura antes do início da 1a série. Antes de iniciar a alfabetização, muitas crianças de 6 e 7 anos, como esperado, apresentavam grande dificuldade ou fracasso total na tarefa de substituição de vogal. As crianças que apresentavam bons resultados nessa tarefa apresentavam, também, alguma habilidade de leitura, comprovando a estreita relação entre consciência fonêmica e aprendizagem da leitura.
Após poucos meses do início da instrução alfabética, no entanto, expostas a um método fônico, grande parte das crianças tinha adquirido as habilidades de leitura e mostrava, compativelmente, bons níveis de consciência fonêmica. Todas as crianças que apresentavam bom nível de consciência fonêmica, no início da 1a série, apresentavam também exatidão e destreza na leitura ao final da 1a série. Muitas das crianças que tinham apresentado ausência de consciência fonêmica no início da 1a série puderam aprender a ler com sucesso, e seus níveis de consciência fonêmica, ao final da 1ª série, eram igualmente bons. Algumas crianças, entretanto, que apresentaram ausência de habilidades fonêmicas no início da 1a série, apresentaram grande dificuldade na aprendizagem da leitura e, ao final da 1a série, mostravam, ainda, dificuldades no teste de substituição da vogal, corroborando a idéia de que a consciência fonêmica está estreitamente correlacionada aos desempenhos em leitura e que um déficit em consciência fonêmica é a principal causa das dificuldades nessa aprendizagem. Além disso, nesse estudo a força preditiva da consciência fonêmica para os desempenhos futuros em leitura foram confirmados, mesmo após terem sido controlados os efeitos do
coeficiente de inteligência, vocabulário, conhecimento de letras e pré-conhecimento de leitura. Com relação à consciência fonêmica, os autores concluíram que um nível baixo ou a ausência total de consciência fonêmica, antes da instrução de leitura, não pode distinguir as crianças que terão ou não dificuldades para aprender a ler num sistema alfabético, pois essa habilidade se desenvolve simultaneamente à aprendizagem. As diferenças individuais, entretanto, quanto à facilidade, ou dificuldade, das crianças em adquirir consciência fonêmica em contato com o ensino alfabético pode ser determinante nesse processo.
O estudo de Wimmer et al. (1991) trouxe uma nova questão sobre a relação entre consciência fonêmica e leitura em ortografias transparentes: a consciência fonêmica não é um pré-requisito para a aprendizagem, e o fator crítico, nessa aprendizagem, seria a facilidade ou não em adquirir as habilidades fonêmicas logo ao início do processo de alfabetização.
O estudo longitudinal de Jong e van der Leij (1999) avaliou as habilidades fonológicas de pré-escolares holandeses e sua relação subseqüente com a aquisição da leitura até o final da 2ª série escolar. Seus resultados demonstraram que as habilidades fonológicas dos pré- escolares não contribuíam para a subseqüente aquisição da leitura, ao final da 1ª série, após terem sido controladas variáveis como as habilidades cognitivas gerais e o conhecimento de letras. Por outro lado, a consciência fonológica, medida nos primeiros meses do início da 1ª série, esteve relacionada à aquisição da leitura no final da 1ª série, mas o mesmo não foi observado ao final da 2ª série. A importância da consciência fonológica para a aprendizagem da leitura, em holândes, parece estar limitada ao primeiro ano de alfabetização. Os autores atribuíram esses resultados à consistência ortográfica do holândes que, em combinação com o método fônico aplicado nas escolas, possibilitou a aprendizagem, com sucesso, da ortografia. Suas conclusões reafirmam a posição de Wimmer et al. (1991), de que o fator crítico para a aprendizagem da leitura, em uma ortografia transparente, é a facilidade ou a dificuldade com que as crianças adquirem as habilidades fonológicas logo nos primeiros meses de alfabetização.
Jong (2003) descreve o resultado de outro estudo que acompanhou essas mesmas crianças até o final da 3ª série (JONG; van der LEIJ, 2002). Os resultados mostraram que, após terem sido controlados os efeitos das habilidades cognitivas gerais e o conhecimento de letras ou de leitura de palavras, as habilidades fonológicas dos pré-escolares não explicaram a variância em leitura no final da 1ª série. As habilidades fonológicas, medidas ao início da 1ª série, explicaram 4,1% da variância em leitura ao final da 2ª série. As habilidades fonológicas, medidas ao final da 2ª série, não explicaram a variância em leitura na 3ª série. Esses resultados demonstraram que a consciência fonológica contribui durante um curto período de
tempo para a aprendizagem da leitura em holandês. Jong considerou que a relação interativa entre consciência fonológica e leitura possibilitou um rápido desenvolvimento das habilidades fonológicas ao ser iniciada a instrução alfabética, mas tão logo as crianças se tornaram eficientes decodificadoras, sua influência desapareceu, e o fator mais importante foi a velocidade de processamento em leitura. Nesse sentido, as variações individuais em consciência fonológica foram importantes enquanto não se alcançou a decodificação precisa.
Os resultados oferecidos pelas pesquisas em línguas germânicas corroboram a facilidade e a rapidez com que se aprende a atividade de leitura, especialmente a decodificação, em ortografias transparentes. Os resultados indicam, também, que a consciência fonológica se desenvolve rapidamente, e sua contribuição com relação aos processos de aprendizagem da leitura parece restrita às fases mais iniciais de alfabetização. A consciência fonêmica, nos estudos germânicos, aparece, ainda, como o mais forte fator preditivo de sucesso em leitura.
Vale a pena ressaltar que, segundo Jong e van der Leij (1999), a relação interativa entre consciência fonológica e leitura pode ter sido potencializada pelo ensino fônico, que, conjugado às características de uma ortografia transparente, levam as crianças a adquirirem rapidamente a destreza em leitura.