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comentando sua Life o f Johnson (1791) afirma, “Estou absolutamente certo de que o método biográfico tal como eu o entendo — dar não somente uma história do percurso visível da vida de Johnson no mundo, mais uma visão de seu espírito, nas suas cartas e conversas — é a mais perfeita que podemos conceber, e será mais uma Vida do que nenhuma obra já aparecida.” (BOSWELL apad MADELÉNAT, Daniel. La biographie. Paris: PUF, 1984. p. 56.

narrativas resultantes não coincidiam com os imperativos morais do momento; nestas circunstâncias proliferam “[...] as ‘vidas autorizadas’, obras de amigos ou de viúvas, cuidadosamente expurgadas, sem elipses nem humor, frias por sua religiosa reverência: ‘pseudo-biografias’ ou ‘neo-hagiografias’, regressão relativa ao panegírico;[...]” . Na França, embora menos condicionada pelas circunstâncias sociais, a biografia pendia para uma função fundamentalmente educativa; sendo os trabalhos de Charles-Agustin SAINTE-BEUVE, o modelo desse momento.

Como sabemos, o espírito europeu na virada do século XX pouco coincidia com as formas dominantes nas narrativas biográficas: a complexidade do homem que se vislumbrava parecia não ter lugar nos modelos narrativos vigentes. A crise das formas de representação de uma vida, o abandono da mimese e a renovação dos limites epistêmicos contribuíram para que as formas biográficas vitorianas fossem renovadas, delineando “[...] uma ruptura freqüentemente brutal, e o estabelecimento de novas normas de objetividade, sob o sinal da ciência e da ktuição (como meio de conhecimento), da complexidade psicológica (como resultado da investigação), de uma arte composta, influenciada pelo romance e o poema (como mise-en-oeuvre e escritura).”28; trata-se de uma nova e complexa imagem do homem que demandava uma aproximação narrativa a ser descoberta entre o pólo científico e artístico.

Assim, após o período'vitoriano ocorre, principalmente na Inglaterra, uma renovação da tradição biográfica a partir dos trabalhos de Lytton STRACHEY e, a seguir, de Virgínia WOOLF, naquilo que foi chamado de New Biography. A renovação anglo-saxã de um gênero que esse país nunca deixou de cultivar é o imediato antecedente da biografia modema.

27 MADELÉNAT, op. c it, p.60. 28 Ibid., p.63.

Acreditamos que nos determos, com alguma precisão neste momento histórico do devir biográfico nos ajudará a entender o terreno sobre o qual proliferou a narrativa atual, “A história da biografia é portanto a de uma oposição dialética entre as formas estabelecidas, os

' "70 conformismos psicológicos, e as forças de virtual transgressão.” .

Dizíamos que com J. Boswell e sua Life of Johnson inaugurava-se uma nova dimensão biográfica, sobretudo através do uso de novos recursos formais. A seguir, o período da biografia vitoriana interrompeu a continuidade formal entre a fórmula de J. Boswell e a New Biography. Mas, o intervalo vitoriano, no nosso modo de ver, contribuiu em grande medida, não somente através de seu caráter negativo — no sentido de que a biografia moderna teria uma forma narrativa à qual se opor —, mas também no sentido — embora talvez periférico — positivo: data desta época o desenvolvimento do gosto popular pela leitura biográfica.

O esforço biográfico esteve orientado no sentido de se desvencilhar de uma tradição narrativa consolidada, onde o modelo representava — em relação ao referente —, uma cronologia ordenada de “[.-3 ufna personalidade coerente e estável, ações sem inércia e decisões sem incertezas.”30. Historicamente, o romance parece ter contribuído — ou melhor, antecipado — novas formas de retratar uma forma de subjetividade que pudesse conjugar e condensar conteúdos contraditórios da personagem, “Tal fragmentação se traduz pela constante variação dos tempos, pelo recurso a incessantes retornos e pelo caráter contraditório, paradoxal, dos pensamentos e da linguagem dos protagonistas.”31. Tristam Sharufy, de Laurence Steme, representa, para Giovanni LEVI, o primeiro romance moderno

29 Ibid., p.33.

30 LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: de MOREIRA FERREIRA, Maneta e AMADO, Janaína (org.) Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 19%. p. 169.

ao destacar estes aspectos, “[...] precisamente por ressaltar a extrema fragmentação de uma biografia individual.”32. Assim, no romance do século XVin, encontramos uma antecipação de recursos narrativos que se incorporariam, posteriormente, às biografias. Por isso, dizemos que a experimentação romanesca antecipa a posterior narrativa biográfica. O diálogo entre a personagem, o autor e o leitor — traço caraterístico de Trisíam Shandy — apresenta-se como o recurso que inaugura uma forma narrativa onde os opostos podem se associar. Mas, embora tenha contribuído era grande medida, ainda não seria o tempo do aparecimento da biografia moderna, já que a biografia moral, como vimos, sempre presente desde antigüidade, retoma sua força amparada no positivismo e funcionalismo. Mesmo assim, “[...] a crise ressurgiu no século XX, ligsda ao advento de novos paradigmas em todos os campos científicos: crise da concepção meeanicista na física, surgimento da psicanálise, novas tendências na literatura (basta citar os nomes de Proust, Joyce e Musil).”33. Doravante, os problemas biográficos deslocam-se da seleção dos fatos significativos de uma vida, para a provável construção da complexidade de uma personalidade, onde as contradições parecem assinalar uma dialética desvinculada áa caráter progressivo.

Lembremos que o período vitoriano não coincide com a vida da rainha Vitoria, nem sequer com seu reinado — de 1837 a 1901 — ; ele se estende, para alguns críticos, além da primeira guerra mundial; pareceria ter “[...] sido preciso o horror e o pânico para liquidar os velhos demônios do século XIX, [~.].”34 3S. Talvez possamos datar com o aparecimento de Oueen Victoria (1921), a biografia de Lytton STRACHEY, o final literário deste período,

32 Ibid, p. 170. 33 Ibid., p. 173.

34 Em referência à Primeira Guerra Mundial.

35 REVIRON, Floriane. Orlando de Virginia W oolf (1928): une reponse à Eminent Victorians? In: REGARD, Frédéric (coord.) La Biographie Uttéraire en Angleterre (XVI1-XX siècle). Configurations,

“Como se, fazendo reviver à rainha, a biografia de Strachey a tivesse sepultado definitivamente. Epitáfio último depois das parodias inumeráveis de ‘Vidas’ que lhe foram consagradas.”36. Veremos mais adiante como esta questão parece estar presente, em relação a S. Freud, quando do aparecimento do trabalho de Emest JONES no sentido de encerrar e inaugurar um período. Mas, já com Eminent Victorians (1918), de Lytton STRACHEY, havia nascido um novo período na narrativa biográfica que retoma a tradição boswelliana. No título — Eminent — deste trabalho precursor de um período, vislumbra-se o recurso à ironia; não

somente com respeito a uma época mas também aparece a distância em relação à reverência e moral vitorianas: os ‘eminentes’ de L. Strachey pouco têm de eminentes. Outro nível de inovação diz respeito à escolha do objeto. Até esse momento, a escolha biográfica parecia estar determinada pelos laços de empatia e até de amor, uma vez que o gênero estava profundamente determinado pela vontade de destacar os valores positivos do biografado. Assim, de alguma forma, graças a L. Strachey aparece uma nova forma de relação entre o biógrafo e seu objeto; mas, para Floriane REVIRON “O caráter inovador de Eminent Victorians reside [...] no fato de Strachey ter sido o primeiro a afirmar que o biógrafo tinha o direito de exprimir sea ponto de vista. E estabelecido claramente o laço entre a vida do

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biógrafo e seu objeto: ‘it is perhaps as difficult to write a good life as to live one’” .

• • • 38 Referindo-nos à New Biography, lembrávamos da presença de Virginia WOOLF Na realidade, parece haver um còntinuísmo entre a obra biográfica de L. Strachey e a de V. Woolf; não somente por esta ter publicado sua primeira obra depois da última de L.

36 Ibid., p. 123. 37 Ibid., p. 130.

38 Na verdade, Virgínia STEPHEN. O nome W oolf é de seu marido, Leonard WOOLF. Não deixa de