Aulo Gabínio continua a ser uma personagem obscura de cuja vida desconhecemos muitos factos e a sua motivação política. Nas fontes antigas aparece sempre associado a personagens importantes do final da República romana, não sendo estudado pelos seus feitos mas pelo serviço que prestou sob outros. Mesmo os cargos que desempenhou são mencionados muitas vezes apenas por terem sido exercidos sob as ordens de uma personagem com maior relevância para a história da República. Por isso, temos pouca informação sobre todas as áreas da sua vida que não estivessem relacionadas com as ações políticas em que participou e com as personagens ou grupos que apoiou.
Outro problema em estudar esta personagem deve-se à sua imagem negativa nas fontes antigas. O primeiro autor que escreveu sobre Aulo Gabínio foi Cícero, nos seus diversos discursos e cartas pessoais (In Pisonem, Epistulae ad Q. fratrem; Epistulae Ad
Familiares; De Provinciis Consularibus; Epistulae Ad Atticum; De Domo sua). O ódio
do orador em relação a Gabínio era provocado pela forma como foi maltratado por este em várias situações da vida política do grupo a que pertenciam: os pompeianos173. Por causa do papel relevante de Cícero na história da República e da importância da sua obra, todos os autores da Antiguidade foram basear-se nos seus escritos para narrarem a vida de Gabínio e construírem a sua imagem. Consequentemente, as fontes antigas abordaram sempre a personagem de Aulo Gabínio de forma negativa. Este fator tem de
173
Jane W. Crawford, The Lost and Unpublished Orations. Göttingen, Vandenhoek&Ruprecht, 1984, p. 190.
54
ser particularmente considerado quando abordamos as referências à sua personagem nas obras dos autores clássicos.
Pelas razões mencionadas, a origem e a estrutura da família Gabínia (Gabinii) continua a ser motivo de discussão entre os estudiosos e permanece relativamente obscura. A estrutura da família Gabínia foi sendo reinterpretada à medida que foi sendo objeto de estudo ao longo dos anos, apesar de a sua origem não levantar grandes dúvidas. A gens era originária da Campânia, região do Sul da Itália. A primeira referência é do século III a.C., na cidade de Cales. Os Gabinii eram oleiros e de condição servil174, mas E. Badian defende que são a origem da família senatorial que encontramos em Cápua no século II a.C.175 Proveniente desta localidade é o primeiro indivíduo de que temos referências, que possuía o praenomen Aulus associado ao
nomen Gabinius. A família terá subido rapidamente através da via militar, porque Aulo
Gabínio foi prefeito na cidade de Escodra176, em 167 a.C.177. Aliás, tal como o primeiro Aulo Gabínio, os seus descendentes irão subir na carreira política através de campanhas militares no Oriente.
Na geração seguinte, os estudiosos divergem nas interpretações da árvore genealógica. A ligação à família de vários indivíduos com o cognome Capito precedido do praenomen Aulus e do nomen Gabinii tem sido questionada, assim como a geração a que pertence cada um dos indivíduos. Para Eva Mathews Sanford, Aulo Gabínio Capitão que está referido numa inscrição em Delos de 58 a.C. é o mesmo indivíduo que estudamos neste capítulo178, mas E. Badian afirma que devemos ser cautelosos, porque ainda não existem provas suficientes para ligar os Capitones à família Gabínia, não se devendo, por isso, assumir que Aulo Gabínio teria o cognome Capito. Assim, apenas apresenta uma genealogia da família Gabínia179:
174
Cic. Leg. man. 3. 35
175
E. Badian, “The Early Career of A. Gabinius (Cos. 58 B.C.)”, Philologus, vol. 103, Issue 1-2, 1959, p. 87.
176
Situada na atual Albânia.
177
E. Badian, Op. Cit., p. 87.
178
Eva Mathews Sanford, “The Career of Aulus Gabinius”, Transactions and Proceedings of the American Philological Association, Vol. 70, 1939, p.66.
179
55
Figura 5. Árvore genealógica dos Gabinii segundo E. Badian [E. Badian, “The Early Career of A. Gabinius
(Cos. 58 B.C.)”, Philologus, vol. 103, Issue 1-2, 1959, p. 97.]
O estudo mais recente de Christoph F. Konrad levanta uma hipótese para a genealogia desta família. A principal mudança apresenta-se logo na segunda geração. Segundo este autor, Aulo Gabínio, prefeito em 167 a.C., tem dois filhos: Aulo Gabínio e Públio Gabínio Capitão. Cada um dos dois irmãos cria uma linha familiar, estando a de Aulo Gabínio completamente atestada, enquanto a de Públio Gabínio Capitão ainda levanta muitas questões. Assim, as duas linhas vão-se afastando, sendo que, na geração da personagem que aqui abordamos, a linha dos Capitones era apenas de primos afastados180. Por isso, não iremos aprofundar muito a história da linha familiar dos
Capitones.
Figura 6. Árvore genealógica dos Gabinii segundo Christoph F. Konrad. [Christoph F. Konrad, “A Note on the
Stemma of the Gabinii Capitones”, Klio, nº 66, 1984, p. 152.]
180
56
Não existem dúvidas de que o prefeito de 167 a.C. é pai de um indivíduo, também de seu nome Aulo Gabínio, que foi oficial sob Quinto Cecílio Metelo Macedónico (210-115 a.C.) contra o pretendente ao trono macedónico, Andrisco, entre 150 e 148 a.C., e desempenhou o cargo de tribuno da plebe em 139 a.C.181, sendo, assim, avô da personagem em estudo neste capítulo. Os cargos desempenhados por esta figura apontam para uma ligação entre a família Gabínia e a família Cecília Metela, que os seus descendentes continuam. Desconhecemos completamente a identidade das mulheres da família, mas sabemos que Aulo Gabínio teve dois filhos: Aulo Gabínio (140/135-89 a.C.) e Públio Gabínio (pretor em 88 a.C.).
O terceiro Aulo Gabínio na linhagem, provavelmente o irmão mais velho, foi questor do orador Marco António (143-87 a.C.) no Oriente e pai da personagem central deste capítulo. Marco António apoiava Sula e acabou por ser morto, por Mário, na altura da guerra civil entre este e Sula182. O seu irmão mais novo também terá estado sob o comando de Sula e os dois terão sido os primeiros da família a chegar ao cargo de pretor. Apesar de não termos nenhum registo da carreira política do terceiro Aulo Gabínio, sabemos que terá chegado a pretor, porque existe registo de ter lutado na região da Lucânia durante a Guerra Social e de ter morrido em combate183. Públio Gabínio conseguiu ir mais longe, continuando a servir sob Sula como governador da Macedónia-Acaia, sendo mais tarde nomeado quindecimvir numa comissão a Éritras184. Mais uma vez, o Oriente desempenha um papel muito importante na carreira política dos vários membros desta família.