2.2 Program Specification and Proof
2.2.2 Proving Library Functions
Não são apenas questões sociais que são percebidas pela população do Engenho Ilha. Os habitantes conseguem notar modificações na região decorrentes de ações realizadas pelos empreendimentos em Suape. Muitas dessas transformações foram realizadas para possibilitar a instalação do Complexo Industrial, da Refinaria, do Porto e de outros empreendimentos que trouxeram e ainda trazem algumas alterações na paisagem local. Algumas delas são expressas na fala de um dos entrevistados:
Essa área que a gente tá falando de Jurissaca [...] tinham levadas, tinham córregos, braços de rios. Era um lugar fértil e que não dava o que tá acontecendo hoje. O que aconteceu, as grandes empresas em torno do Complexo de Suape [...], as empreiteiras [...] saíram aterrando tudo em torno de Suape. Hoje a gente sofre com as enchentes. Qualquer chuvinha, vai chover, já fica todo mundo preocupado. Porque toda água que tinha saída, que procuravam seus canais para sair, hoje não sai mais, vem tudo pra o Ilha [para a comunidade]. Você vê que já estamos em outubro e as terras ainda não conseguiram secar. Qualquer chuvinha, hoje não é mais produtiva, hoje é pra dar cheia, é pra encher, porque não tem mais pra onde correr. O impacto ambiental foi sim grande, de área que não tinha enchente e hoje tem. Área que antes era produtiva e hoje é alagada. E eles continuam tapando tudo e fazendo o que bem entendem. Todo mundo viu isso aí [...], morros e morros foram derrubados e foram tudo aterrados, e pra onde vai correr essa água senão pra cá?! Ninguém enxerga por esse lado, só enxerga o progresso, que chegou num sei quantas empresas, num sei quantos armazém pra armazenar. Só enxergam isso! A logística hoje é só empresas! Agora o que tá por trás das empresas? (E01).
Conforme comentado pelo entrevistado, diversas áreas de Suape tiveram morros derrubados para a realização de terraplenagem da região, acarretando em uma série de transformações da paisagem natural. Entre elas, o alagamento de algumas faixas de terra, a ocorrência de enchentes nos períodos chuvosos e a improdutividade de algumas terras para o cultivo. Ademais, o suapense indaga-se sobre que tipo de "progresso" se estabelece na região, em uma evidente constatação de que as transformações que estão ocorrendo não beneficiam a realidade local das comunidades nem ao menos respeitam o ambiente natural.
O entrevistado encerra seu depoimento com uma pergunta retórica: "o que tá por trás das empresas?" Na sua perspectiva, as empresas modificam intensamente a paisagem em
busca de seus interesses e ignoram os anseios coletivos locais. Uma das respostas possíveis poderia apontar para a atuação de um Estado complacente com tais práticas e que se norteia pela força econômica.
O CIPS, por sua vez, aponta a saída das comunidades da região como alternativa para a preservação ecológica:
O reassentamento [realocação das famílias em outros territórios] de todo mundo que tava dentro do território de Suape na área que não podia, ou seja, em área de reflorestamento e a grande maioria, por incrível que pareça, não é industrial, é de zona de proteção ecológica [...], porque as comunidades elas vão se criando, elas vão se expandindo dentro dessas áreas de mata. Então é, assim, uma atividade extremamente predatória, porque não nasce nada onde o cara tá plantando, ele nunca deixa nascer nenhuma mata ali naquela região, ele vai tá sempre derrubando, sempre capinando (D1).
O representante da administração do CIPS justifica a retirada das comunidades da região de Suape como forma de preservação ecológica. Sem citar os impactos das atividades de indústrias e empreiteiras na região, alega que as atividades agrícolas das comunidades são nocivas ao ambiente e questiona a presença de moradores em áreas definidas pelo Plano Diretor do próprio Complexo como Zonas de Proteção Ecológica.
Notam-se contradições no discurso do CIPS. A primeira no fato de que não são evidenciados, na fala do dirigente, os impactos provocados por seus empreendimentos ao meio ambiente, apenas salientam-se os impactos que as comunidades provocam — aparentemente de menor dimensão que os cometidos pelas empresas. E a segunda, que o zoneamento estabelecido para a proteção ecológica foi determinado pela própria administração do Complexo, segundo os objetivos que deseja alcançar e com base em seu planejamento de futuro.
Diante de tal conjuntura, pode-se concluir que o modelo de industrialização engendrado na região não se apresenta tão sustentável quanto prega e não atenta para outro pilar defendido pelo ecodesenvolvimento, que é a eficiência econômica com justiça social (BRÜSEKE, 2003).
Algumas das áreas alagadas, comentadas no discurso do morador do Engenho Ilha, podem ser observadas nas imagens abaixo:
Figura 12 - Áreas alagadas no Engenho Ilha.
Fonte: Fotografia tirada por morador da comunidade.
O morador complementa sua fala dizendo que
esses impactos não é só com as levadas que eles fizeram, também os córregos, também as nascentes, porque aqui tinha muitas nascentes de rios, e foram tudo aterradas. Foram áreas que foram aterradas consequentemente. Então o impacto é gritante, embora ninguém enxerguem. E enxergam, né?! Embora não deem o devido valor. O que eles querem é que as empresas se instalem e quem tiver na frente que vá saindo. É isso que "Suape" tem feito (E01).
Verifica-se que diversas atividades de empreendimentos do Complexo trazem consequências ambientais para a natureza da região e, consequentemente, para as comunidades que ali residem. O entrevistado tem noção de que existem interesses de origem econômica por trás dos problemas ambientais e que esses impactos estão sendo ocasionados para que os empreendimentos do Complexo possam se instalar e expandir. Tal contexto traduz o modelo tradicional de desenvolvimento (econômico).
A maneira como as condições naturais estão sendo conduzidas não parece salvaguardar o patrimônio natural, estreitamente ligado à qualidade de vida local e necessário ao desenvolvimento da coletividade e de suas capacidades humanas (VITTE, 2002). A sustentabilidade em sua ampla compreensão não é contemplada: não há real preservação do meio ambiente nem efetivo planejamento social que contemple as necessidades presentes nas comunidades suapenses, e muito menos participação popular nas decisões. O CIPS não aparenta possuir preocupação significativa quanto à conciliação e ao respeito aos interesses sociais da região. Desse modo, torna-se evidente o foco primordial no crescimento econômico e no progresso industrial.