Chapitre 4 : Réflexion de particules chargées sur l’onde de choc d’un petit obstacle : cas du
4.3. Résultats
4.3.1. Les protons du VS : propriétés du préchoc Martien
A ideia de felicidade, tal como temos vindo a reflectir, está associada às ideias de sucesso, de acumulação de riqueza, de valorização do trabalho e do prazer do consumo enquanto recompensas pelos esforços de construção de uma vida boa. Como tal, esta ideia de felicidade constitui uma promessa da modernidade42.
Por outro lado, esta promoção de felicidade terá consequências sociais e individuais uma vez que molda não só os comportamentos, mas também as aspirações e desejos de quem a procura. É assim que, se a felicidade contém em si a ideia de fortuna, ou de sorte, encerra também uma responsabilidade individual, explica-‐nos Mcmahon (2009). No mesmo sentido, Wright-‐Mills explica que “Se os homens são responsáveis pelo seu sucesso também são pelo seu fracasso; se o êxito é uma particularização do progresso social, o fracasso é uma especificação individual do declínio de oportunidades.”(1976).
Em consonância com estas perspectivas, são vários os autores que lembram que actualmente a sociedade ocidental se caracteriza por um enfoque no crescimento e desenvolvimento do indivíduo e em todas as esferas de acção (públicas ou privadas) (Bauman, 2003; Beck & Beck-‐Gernsheim, 1995; Dubar, 2006; Giddens, 1996, 2002).
Esta concentração no indivíduo é fruto de transformações sociais, culturais e económicas que contribuíram para alterar os processos de construção identitários e os referenciais em que eles assentam. O indivíduo tornou-‐se assim agente da sua própria identidade, recorrendo a diferentes mecanismos de reflexão desenvolvidos a partir de uma diversidade de opções e possibilidades
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Não se pretende aqui discutir o conceito de modernidade, pós-‐modernidade ou modernidade tardia que têm animado as discussões teóricas sobre o tema, mas apenas centrarmo-‐nos no processo de individualização, como estrutura social decorrente de transformações ao nível das instituições sociais e da relação entre indivíduo e sociedade (Beck & Beck-‐Gernsheim, 2001).
disponíveis e socialmente desiguais (Beck & Beck-‐Gernsheim, 1995; Giddens, 2002).
De acordo com Beck and Beck-‐Gernsheim (1995), a construção biográfica tornou-‐se desprovida de preceitos tradicionais e de leis morais orientadoras. As possibilidades na vida que não envolvem tomada de decisão diminuíram e a proporção de biografias abertas à tomada de decisão e iniciativa individual aumentaram. Mas, na sociedade ocidental actual coexistem referenciais híbridos, contraditórios e ambivalentes e que estão dependentes de condições políticas, económicas, sociais e familiares. A biografia do faça você mesmo depende da situação económica, profissional, qualificações formais e situação familiar podendo, por isso, tornar-‐se uma biografia em colapso (Beck & Beck-‐Gernsheim, 1995; Beck & Beck-‐Gernsheim, 2001).
No mesmo sentido, Bauman (2003) diz-‐nos que apesar da obrigatoriedade da escolha, as condições em que esta se processa e as suas consequências não são controláveis pelo indivíduo. Como resultado destas contradições da vida social, o indivíduo não encontra suporte para as suas opções pessoais e aumenta a responsabilidade individual e as situações de permanente incerteza e insatisfação (Bauman, 2003).
Este traço do processo de individualização – a constante incerteza e insatisfação – revestem-‐se de especial importância na reflexão sobre felicidade. A este propósito lembramos Pascal Bruckner (2003) quando propõe que, na sociedade contemporânea, a felicidade se tornou um dever. Esta obrigatoriedade de ser feliz causa insatisfação, sendo o paradoxo moderno a infelicidade decorrente da obsessão com a felicidade.
Ainda assim, a maioria dos estudos tem procurado as explicações para as variações dos níveis médios da felicidade nas alterações económicas, no desemprego, nas características biográficas e psicológicas ou mesmo em questões de personalidade, não incidindo a sua análise na sociedade como um todo e nas suas repercussões sobre as formas de sentir dos actores sociais.
Da mesma forma, se os diferentes elementos e referenciais sociais a que os indivíduos se encontram expostos são incorporados ao longo das suas trajectórias, eles são também reapropriados e transformados por eles. A forma de sentir e o sentido produzido acerca dos sentimentos estão envolvidos neste processo (contínuo e inacabado) de reprodução social. Hochschild (2011) propôs que esta gestão se faz de acordo com regras socialmente determinadas acerca da expressão emocional. Outros autores defendem que a reflexividade é ainda um processo emocional, uma vez que a compreensão da emocionalização é crucial para a produção de sentido e para a forma de sentir (Holmes, 2010).
A reflexividade é assim a capacidade através da qual os indivíduos e a vida social são produzidos e alterados quando as pessoas reagem às suas circunstâncias de formas diferentes das tradicionais (Giddens, 2002). Dito por outras palavras, refere-‐se às práticas de transformação da própria vida enquanto resposta a conhecimento acerca das próprias circunstâncias: “[...] o self é hoje para todos um projecto reflexivo – uma interrogação mais ou menos contínua sobre o passado, o presente e o futuro. É um projecto levado a cabo no interior de uma profusão de recursos reflexivos: terapias e manuais de auto-‐ajuda de todos os tipos, programas de televisão e artigos de revista.”(Giddens, 1996).
Da mesma forma, Luhmann (1991) quando foca o papel da literatura – e mais especificamente dos romances – no desenvolvimento da sociedade moderna, incide sobre o seu papel disseminador de comportamento e de códigos culturais que reflectem e criam necessidades sociais. O que nos parece relevante reter é o seu papel propagador de modelos de comportamento na sociedade, veiculando códigos de conduta socialmente aceites e desejados (as feeling rules de Hochschild), criando por isso uma expressão comum do sentimento de felicidade, tal como foi identificado para o amor e as relações íntimas por este autor.
Neste sentido, a emergência de novos tipos de literatura, a que Mills chamou, umas vezes de literatura de resignação, outras de tranquilidade, e que actualmente entrariam na categoria da auto-‐ajuda, vem reforçar esta
responsabilização individual, transmitindo formas de relaxamento físico e espiritual, e estratégias de enaltecimento de virtudes interiores e individuais destinadas à conquista da felicidade.
Giddens (1996), na sua análise da intimidade, refere-‐se aos manuais de auto-‐ajuda, “[...] não por fornecerem informações precisas sobre as mudanças que afectam a vida pessoal – muitos são essencialmente livros práticos –, mas por serem expressões de processos de reflexividade que eles esboçam e ajudam a modelar.” (Giddens, 1996).
Assim, se a felicidade constitui uma das promessas da modernidade, as características sociais actuais –, através da crescente centralidade do indivíduo, do consumo enquanto factor distinção social, as incertezas e contradições dos modelos orientadores da vida em sociedade e na intimidade – têm conduzido a uma valorização deste sentimento, pois representa uma garantia (ou a esperança, a promessa) de que as opções tomadas – a nível pessoal e profissional – são as correctas. Da mesma forma, o processo de reconhecimento de felicidade pelo outro toma a forma de validação social.
Tal como Hochschild (2011) propôs, na modernidade as emoções tornaram-‐se cada vez mais bens comercializáveis, não só pela conformidade às regras do sentir (surface acting) mas também pela necessidade do indivíduo se convencer que se sente de determinada maneira (deep acting). É assim que a felicidade se torna um atributo desejado e classificatório.
Para compreender a felicidade e as suas expressões sociais temos de a situar nos processos sociais mais vastos em que esta se manifesta, centrando-‐nos não só nas variações da sua expressão, mas também nos sentidos e práticas que lhe estão associados.
A reflexão aqui desenvolvida terá em consideração a importância que as referidas transformações sociais e culturais têm para as formas de sentir e expressar felicidade. Contudo, as características dos contextos sociais e
económicos imediatos têm também implicações sobre a percepção de felicidade. É este o assunto que nos ocupará em seguida.
3.2. A felicidade em tempos de crise
“É um facto geral que as crises económicas exercem uma influência agravante sobre a tendência para o suicídio.”(Durkheim, 1982).
No ponto anterior discutimos as transformações sociais ocorridas no sentido da crescente emancipação e autonomia dos indivíduos quanto à sua capacidade de opção e decisão. Autores como Sen (2011) destacam a importância do desenvolvimento para assegurar as oportunidades de vida, no sentido de que a liberdade de acção individual está condicionada pelas condições sociais, políticas e económicas. Aqui pretendemos reflectir sobre os efeitos que a actual crise poderá ter sobre este processo e sobre a percepção de felicidade.
Actualmente, a economia portuguesa caracteriza-‐se por uma forte redução dos salários dos funcionários públicos e das pensões de reforma, o aumento do IVA, que se reflecte sobre a maioria dos bens de consumo, uma taxa de desemprego elevada e uma taxa de crescimento negativa do PIB per capita43.
Esta situação decorre do colapso dos mercados financeiros internacionais de 2008/2009 que conduziu à intervenção, em Portugal, do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e União Europeia, e à introdução de medidas de austeridade a partir de 2011.
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O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) é de 23%, a taxa desemprego em 2012 é de 15,7% e verifica-‐se um decréscimo do PIB per capita nos últimos anos (Fonte: INE e PORDATA).