3. TROISIEME CHAPITRE :
3.1. Carbonatation et gazage CO 2
3.1.3. Protocole expérimental
Edgar Morin (2005)
A procura de uma prática investigativa ética é complexa e plena de tensões e desafios. O que nos poderá em última análise permitir uma investigação ética é a per- manente reflexividade (Guillemin & Gillam, 2004). Respeitar os participantes e a sua opinião e perspetiva e solicitá-la ativamente em caso de dúvida, permitindo também que os próprios participantes protegessem os seus interesses e decidissem o que pre- tendiam manter na esfera privada ou tornar público, foi ainda uma outra maneira que encontrámos para cuidar de realizar uma investigação eticamente orientada.
No presente estudo as considerações éticas foram refletidas a vários níveis que passamos a explicitar.
O primeiro nível foi relativo ao modo como, no geral, as questões éticas são con- sideradas no âmbito de uma investigação em Psicologia. Os aspetos relativos ao con- sentimento informado, anonimato e confidencialidade (e.g. Ethical Principles of Psycho- logists and Code of Conduct, American Psychological Association, 2010) implicaram diversos cuidados.
Aos participantes, ex-pacientes e terapeutas, foi assegurada a confidencialida- de da informação prestada, tendo sido sublinhando que os terapeutas não receberiam feedback sobre a participação individual dos seus ex-clientes. Nesta decisão esteve implicada uma tensão entre o direito dos clientes à confidencialidade das informações prestadas e possível contributo do feedback dos clientes para o desenvolvimento dos terapeutas e da sua prática. Após ponderação, a opção foi a de manter a confidencia- lidade uma vez que este estudo não sendo de investigação-ação não procurou intervir sobre a prática dos profissionais.
Todas as entrevistas foram realizadas pela investigadora principal e gravadas em áudio, após aviso prévio e consentimento para tal. Posteriormente foi atribuído um código às entrevistas e retirada a informação que fosse facilmente identificadora, de modo a torná-las anónimas. Aos participantes foi pedida autorização para o uso de transcrições das suas contribuições em publicações científicas e na tese de doutora- mento da investigadora.
A informação relativa aos objetivos do estudo e aos seus direitos, enquanto parti- cipante no mesmo, foi fornecida repetidamente, nos vários contactos, pela investigado- ra, tendo sido também apresentada por escrito, antes da entrevista, num documento de consentimento informado que todos os participantes ex-clientes assinaram (Apên- dice B – Consentimento informado).
Foi reforçado, ainda, que em qualquer momento do processo, incluindo durante a entrevista, os participantes principais tinham todo o direito de não querer continuar a participar, embora a investigadora pudesse tentar clarificar a razão para tal no sentido de resolver algum problema e manter a participação.
Apesar de todos os cuidados, a questão do anonimato e da confidencialidade bem como outras questões éticas foram sendo elaboradas reflexivamente e refinadas na prática, à medida que a investigação decorreu, tendo sido fundamental a contribui- ção dos participantes no estudo. A título de exemplo, uma participante, que forneceu vários feedbacks, no seu penúltimo feedback, voltou a levantar a questão: “P.S. Como vai identificar as suas entrevistas? Não apreciava muito ser reconhecida… embora isto possa ser improvável.” (16, Feed4). A participante deu assim à investigadora uma nova oportunidade para explicitar o modo como pretendia garantir esse não reconhecimen- to público. Este facto ilustra também a não existência de um instrumento de consen- timento informado que assegure o consentimento informado. Assim, o consentimento informado vai-se assegurando ao longo de todo o processo de investigação, apontando para a importância dos comportamentos, atitudes e decisões do investigador, feitas, momento a momento, no decurso da investigação (Lobo, 2015).
Um segundo nível de reflexão esteve direcionado com as questões éticas levanta- das por se tratar especificamente de um estudo qualitativo (c.f. Wertz, Charmaz, McMul- len, Jesselson, Anderson & McSpadden, 2011). No presente estudo os participantes foram perspetivados como colaboradores do processo de investigação e foi-lhes solici- tado que comentassem e questionassem, em qualquer momento, os procedimentos da investigadora e a investigação. Dentro do possível, tentámos partilhar o poder ao longo do processo da investigação e estabelecer uma relação dialógica e colaborativa: foram os participantes que escolheram o local da entrevista; foi pedido feedback aos partici- pantes quanto ao conteúdo da sua participação tendo esta sido disponibilizada e tendo todas as contribuições ou alterações, relativamente às suas contribuições, sido integra- das; quando desejaram, os participantes, receberam cópias codificadas da informação recolhida e analisada e ainda as questões centrais da investigação. Para dar a possibi- lidade aos participantes disputarem os resultados, tentou-se manter o diálogo aberto e clarificar as fases do processo. Após a discussão pública da tese e da sua divulgação on-line, contactaremos os participantes, terapeutas e clientes, convidando-os à sua lei- tura e a questionarem a investigação, para a qual contribuíram determinantemente.
Por último, ponderámos as questões éticas que se colocam num estudo qua- litativo com a especificidade de ter como participantes ex-clientes de psicoterapia (McLeod, 2010). A provocação, que esta investigação fez aos seus participantes, apelou à sua coragem e generosidade e, também por isso, tentámos ter como princípio orien- tador o facilitar que a relação com a investigadora fosse recíproca e construtiva. Este princípio esteve presente em todos os momentos e fases do processo, nas entrevistas, nos contactos e feedback fornecidos e, ainda, na escrita da mesma. Para além de se ter garantido a possibilidade de encaminhamento, caso a investigadora se confrontasse com essa necessidade, a consciência do aspeto construtivo da entrevista e contactos posteriores foi sempre refletido de modo consciente. Tentámos, o mais possível, que a representação da relação terapêutica existente não fosse comprometida para o bene- fício do processo de investigação. Este princípio orientou as nossas práticas investiga-
tivas em vários momentos, nomeadamente, na condução das entrevistas, por exemplo, quando nas entrevistas se explorava como é que o processo terapêutico poderia ter tido um impacto negativo no Bem -Estar. É de referir ainda que uma parte do cuidado e questionamento ético da investigação foi partilhada com os terapeutas participantes, já que uma parte muito importante da seleção dos participantes foi feita com a ajuda dos terapeutas.
Terminamos as considerações éticas com uma questão final e que deixamos em aberto, ilustrando uma das possíveis tensões e complexidades de que se reveste a in- vestigação qualitativa em Psicoterapia.
Uma das questões mais cuidadas durante todo o processo da investigação foi o da proteção da identidade dos participantes, terapeutas e ex-pacientes, numa comu- nidade pequena e em que todos se conhecem ou se podem conhecer e localizar. Nesse sentido, foi também seguida a orientação e desejo dos participantes. No entanto, du- rante o processo de escrita desta investigação, não podemos deixar de nos questionar, em sentido inverso, na questão da autoria.
Qual a importância que atribuímos à autoria? Qual a importância que atribuímos à autoria versus confidencialidade? Será que as nossas práticas e métodos de inves- tigação, em si mesmos, não influenciam e induzem os participantes mais no sentido da confidencialidade do que da autoria? Quando começamos por falar da confiden- cialidade ou fornecer um consentimento informado que a apresenta, não estaremos a condicionar de modo implícito o desejo de autoria dos participantes? Será justo que os participantes cujas vozes aqui são ouvidas, a profundidade da sua reflexão e o seu contributo generoso sejam tornados anónimos? Não são os participantes os coautores desta investigação? Será que os consentimentos informados que lhes apresentámos como garantia da sua proteção e até a garantia de confidencialidade, não servem como instrumentos de ocultação da autoria ou, pior ainda, de não autorização implícita do desejo de autoria?
O projeto desta investigação foi aprovado pela Comissão Científica e Coordena- dora do Programa de Doutoramento em Psicologia Clínica da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, tendo sido considerado adequado em termos deontológicos.