II. DESCRIPTION DU PROTOCOLE
2. Protocole de rééducation
Listenius (1541), em seu tratado Musica, discorre sobre a definição da Ligadura:
Ligatura, est debita simplicium figurarum per uirgulam in dextra uel sinistra parte copulatio. Et est duplex, recta uel obliqua. Recta, cuius notae quadrato pinguntur corpore. Obliqua, cuius notae obliquo et transuerso corpore scribuntur. [...]. (LISTENIUS, 1541, liv. 2, cap. 3, f D2v).
Ligadura é o encadeamento adequado de figuras simples através da haste na parte direita ou esquerda, e é de dois tipos: reta ou oblíqua. Reta é representada no corpo quadrado da nota. Oblíqua é escrita no corpo oblíquo e transverso da nota.
Nas Ligaduras as notas podem ser quadradas ou oblíquas. Quadrada porque tem o formato quadrado, como aqui , e oblíqua pelo fato de ser inclinada, assim .
Nas regras gerais sobre Ligaduras, Ornithoparcus (1535) esclarece que
Prima, Quattuor sunt note ligabiles scilicet maxima, longa, breuis, et semibreuis.
Secunda, Omnis nota ligabilis: preter maximam: duplici corpore: quadrato scilicet et obliquo figurari potest.
Tertia, Omnis nota ligabilis, secundum ascensum et descensum vel suijpsius, vel proxime sequentis, venit iudicanda.
Quarta, Omnis nota ligabilis aut erit initialis, aut media, aut finalis.
Quinta, simplicium notarum accidentia puta alteratio, imperfectio, et huiusmodi (Franchino teste) ipsis quoque ligatis solent accidere. (ORNITHOPARCUS, 1535, E6v).
Primeiro: Quatro são as notas ligadas: Máxima, Longa, Breve e Semibreve.
Segundo: toda nota ligada, exceto a Máxima, tem duas formas: pode ser quadrada ou oblíqua.
Terceiro: toda nota ligada é julgada de acordo com a subida ou descida dela própria ou da nota seguinte.
Quarto: toda nota ligada será inicial, intermediária ou final.
Quinto: acidentes das notas simples, por exemplo, Alteração, Imperfeição e outros também costumam acontecer nas ligaduras, como testemunha Franchinus.
A Ligadura serve, portanto, para agrupar duas ou mais notas. Seus valores são definidos de acordo com sua disposição: uma nota localizada no começo da Ligadura adquire, dependendo de alguns fatores, um determinado valor, se estiver localizada no meio da Ligadura, recebe outro valor e o mesmo ocorre se estiver disposta no final da Ligadura.
De acordo com Wright (2001, p. 689), o sistema de Ligadura foi descrito pela primeira vez por Franco de Colônia em seu Ars cantus mensurabilis (entre 1260 e 1280). Apel (2010, p. 88-89) elucida que, para expressar as combinações de Breves (B) e Longas (L), os termos
proprietas e perfectio eram utilizados. O termo proprietas se referia especificamente à
primeira nota (initialis), enquanto o termo perfectio, à última nota (finalis) da Ligadura. Logo, se uma Ligadura é descrita cum proprietate, a primeira nota é uma B, se é sine proprietate, uma L. Por outro lado, se a Ligadura é representada cum perfectione, a última nota é uma L, se é sine perfectione, uma B. Além destas possibilidades, acrescenta-se outra modificação, denominada ligatura cum opposita proprietate – indicada pela haste para cima no lado
esquerdo – e que, neste caso, faz com que cada uma das duas notas valha uma Semibreve (S)25:
Designação Valor
cum propriete et cum perfectione B L
sine propriete et cum perfectione L L
cum propriete et sine perfectione B B
sine propriete et sine perfectione L B
cum opposite proprietate S S
Figura 66. Sistema de Ligadura.
Este sistema é idêntico àquele descrito por Thomas Morley na primeira parte do seu tratado.
Segundo Mead (2007, p. 368), na Renascença, a Ligadura era um resquício da notação da música mais antiga e era encontrada durante o século XVI naquelas passagens com notas de valores longos.
Em seu tratado, Morley discursa sobre os valores das primeiras notas, das notas intermediárias e também finais de uma Ligadura. A seguir, um resumo elucidativo do que é discutido entre os diálogos 135 e 160:
Primeiras notas
Sem haste
- se a segunda nota for descendente, seja nota quadrada ou oblíqua, será Longa (4 Semibreves):
- se a segunda nota for ascendente, seja nota quadrada ou oblíqua, será Breve (2 Semibreves):
Com haste para baixo no lado esquerdo
- se a segunda nota for ascendente ou descendente, seja nota quadrada ou oblíqua, será Breve:
25 Para um estudo mais detalhado, ver: APEL, W. The Notation of Polyphonic Music 900-1600. Oxford: Oxford
Haste para cima
- a primeira e segunda notas serão Semibreves:
Notas intermediárias
Serão sempre Breves, exceto se estiverem logo após uma nota com haste para cima porque, desta forma, como visto anteriormente, serão Semibreves:
Últimas notas
Descendente e, sendo nota quadrada, será Longa:
Descendente e, sendo nota oblíqua, será Breve:
Ascendente, seja nota quadrada ou oblíqua, será Breve:
Notas com haste do lado direito
Para Morley, não estão em Ligadura e serão Longas, não importando sua localização:
Segundo Apel (2010, p. 93), qualquer nota de uma Ligadura pode ser pontuada: se a nota inicial ou intermediária é pontuada, o ponto é escrito acima daquela nota.
Morley apresenta Ligaduras com pontos desta forma: . Logo, o ponto
localizado na parte superior refere-se à primeira nota, enquanto o ponto localizado na lateral, à última nota.
De acordo com Morley, a primeira nota dura três Mínimas e a última também. Se os pontos fossem ignorados, a primeira e a segunda notas teriam o valor de uma Semibreve cada, já que a haste está grafada para cima. A metade da Semibreve é a Mínima, assim sendo, a primeira nota vale uma Semibreve (duas Mínimas) mais o valor do ponto, que neste caso acrescenta a metade do valor da nota anterior (uma Mínima), pois há outros pontos na música que serão posteriormente detalhados26.
Outra figura pontuada é exibida assim:
Aqui Morley argumenta que a primeira nota dura três Semibreves, enquanto a última, duas. Novamente, se o ponto fosse ignorado, a primeira nota, que possui haste para baixo no lado esquerdo, valeria uma Breve (ou duas Semibreves). Portanto, a primeira nota vale duas Semibreves mais uma Semibreve referente ao ponto, enquanto a última nota, uma Breve (duas Semibreves), já que se trata da última nota em movimento descendente e em forma oblíqua.
Zacconi (1596, f 31a) comenta sobre a dificuldade do ponto de Aumentação na Ligadura: primeiro, porque se pode passar pelo ponto e não vê-lo e, mesmo vendo-o, pode-se não atribuí-lo à figura a qual deveria ser atribuído. Para ilustrar esta dificuldade, Zacconi apresenta alguns exemplos de Ligaduras com ponto de Aumentação desta forma:
Figura 67. Exemplo de notas pontuadas em Ligadura (ZACCONI, 1596, f 31a).
É possível observar nestes exemplos que o ponto de Aumentação está indicado ao lado da nota. Por exemplo, o primeiro ponto localiza-se no lado direito na parte inferior, pois a nota seguinte é ascendente. O mesmo ocorre com o segundo ponto. O terceiro ponto, no entanto, apresenta outra disposição, já que a figura seguinte está em movimento descendente. O ponto de Aumentação em Ligadura, portanto, sempre é colocado logo após a figura: se a figura seguinte for ascendente, ele se encontra na parte inferior, se for descendente, na parte superior, e se estiver no final da Ligadura, na lateral da figura (última nota da Figura 67).
Outras Ligaduras são expostas por Morley, mas não são explicadas. É o caso, por exemplo, destas que ele dispõe indicando apenas os valores em Semibreves:
Figura 68. Notas em Ligaduras com os valores das Semibreves indicados.
Segundo Apel (2010, p. 90), estas formas de Ligaduras eram encontradas nos ensinamentos de Franco, mas sofreram alterações pela dificuldade de escrevê-las nas formas ascendentes, devido à proximidade das duas notas, principalmente se o intervalo fosse uma segunda. Deste modo, a Ligadura cum proprietate et cum perfectione (B L) foi substituída
por esta , enquanto a Ligadura sine proprietate et cum perfectione (L L), por .
Morley esclarece que, se uma nota é desenhada acima da outra (Figura 68), a mais grave é cantada primeiro. Pode-se observar que, no primeiro conjunto destacado , ou seja, , a primeira nota está em c sol fá ut e a segunda em f fá ut. Considerando a haste do lado direito, cada uma vale uma Longa, portanto quatro Semibreves.
No segundo conjunto , isto é, , a primeira nota, que está em t fá e mi, não possui
haste e a segunda nota ascendente está em e lá mi, logo corresponde à Breve. A última nota possui haste do lado direito, por isso é como se não estivesse ligada, e adquire o valor da Longa.
Estes mesmos exemplos são apresentados por The Pathway... (1596) e Bathe (1596?) da seguinte maneira, sem muitos esclarecimentos:
Figura 69. Ligaduras (THE PATHWAY..., 1596, f C2v).
A seguir, um resumo das notas em Ligadura e seus respectivos valores, conforme sua posição. Pode-se observar o valor das primeiras e últimas notas de uma Ligadura, já que as notas intermediárias têm sempre o valor de uma Breve, exceto se a nota anterior possuir uma haste para cima no lado esquerdo:
Notas em Ligadura
Descendente Ascendente VALOR
B L L L B B L B S S B L L L