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Para uma melhor exposição do que se pretende analisar nesta parte deste último capítulo, faz- se necessária uma definição mais pontual também retirada de Edgar Morin (1989 p.74):

A estrela de cinema é uma deusa. O público a torna assim, mas quem a prepara é o star system. A estrela responde a uma necessidade afetiva ou mítica que não é criada pelo star system; no entanto, sem ele, essa necessidade não encontraria as suas formas, seus suportes e seus afrodisíacos.

A cantora Maria Bethânia surgiu no cenário artístico brasileiro, ao meio de muita turbulência política e cultural nos anos 60. Ela saiu da cidade do Salvador, chegando ao Rio de Janeiro, aos 18 anos, para cantar no engajado e badalado Show Opinião, no lugar da já estrelar Nara Leão. A sua “presença morena”, agreste para muitos, o drama extraído do seu estar no palco, a figura magra de mulher nordestina, longe dos padrões de beleza idealizados no “Sul maravilha”, a localizaram num lugar de diferença, que contribuiu para chamar a atenção do público e dos meios de comunicação do Rio de Janeiro, na época.

Ela saiu do Opinião, como a grande cantora de protesto do Brasil. Uma espécie de heroína naqueles tempos de dureza. Sua interpretação do “Carcará” virou emblema contra os descasos dos políticos em relação ao Nordeste, a Reforma Agrária e, de certa forma, era uma voz contra a Ditadura Militar. Mas, Maria Bethânia não queria nada disso. Queria cantar, e cantar livremente, sem modelos e nem movimentos a serem seguidos. E ela conseguiu se impor ao mercado, e realçando suas diferenças, pautadas em possibilidades e limitações: foi “agendada”64 pelo “sistema de estrela” brasileiro, tornando-se mais que uma cantora, foi

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Aqui temos a noção de agendamento promovida pelos meios de comunicação, quando estes elegem “nomes” a serem divulgados com muita freqüência, criando as chamadas “celebridades instantâneas”.

consolidada como um testemunho exemplar, singular diante tantas outras estrelas musicais presentes na MPB.

Para uma melhor compreensão do que Morin chama de “star system” em relação ao mundo do cinema, é importante ressaltar:

A constituição progressiva do star system é mais um elemento desses desenvolvimentos que uma conseqüência deles. Suas características internas são idênticas à do capitalismo industrial, comercial e financeiro. Em primeiro lugar, o

star system é fabricação - termo espontaneamente utilizado por Carl Laemmle, o

inventor das estrelas de cinema: ‘a fabricação das estrelas é um fator primordial na indústria do filme’. Indicamos acima que uma autêntica produção em série absorve belas moças descobertas pelo talent scout, racionaliza, uniformiza, seleciona, se descarta das peças defeituosas, burila, monta, dá forma, lustra e enfeita - isto é, faz estrelas. (1989, p.75).

Esse sistema de estrela não deve ser transporto integralmente para analisar um “caso estrelar” no Brasil. É notório que a mitificação de humanos na contemporaneidade se dá, fundamentalmente, pela interferência e ação do mass media e qualquer artista, de qualquer dimensão e estilo, no mercado, é construído de modo idêntico pelo “star system”.

Não são todos, em evidência no mercado, que galgam o estrelato e, assim, elevados à categoria de ídolos ou mitos contemporâneos. Marcas como talento, singularidade, carisma, beleza e magnetismo, muito contribuem para a efetivação de um nome no rol das estrelas de um País.

O talento de Maria Bethânia, somado à sua dramaticidade, à voz grave e afinada, à figura andrógina, à beleza exótica, aos traços identitários expostos em sua “baianidade”65, à sua personalidade forte e marcante, à capacidade de negociação com os meios comunicacionais, o lado esquivo, a preservação da vida privada, o distanciamento das redes televisivas, o ar de mistério e reserva, entre outros, colaboraram muito para a consolidação do seu estrelato, já ratificado no início dos anos 70, e que se estende por mais de 42 anos na “crista da onda” da canção popular brasileira.

Em 16 de maio de 1986, a revista Panorama da Bahia66publicou uma matéria especial sobre os 20 anos de carreira de Maria Bethânia com o título, “Maria Bethânia: a paixão de cantar”.

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A idéia de baianidade perfilada por Bethânia restringe-se às matrizes culturais desenvolvidas entre Salvador e o Recôncavo baiano.

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O subtítulo da matéria dizia, “Em vinte anos conheceu o sucesso e lutou para chegar a ser

mito”. Já se fazia evidente, aos olhos da mídia brasileira, que Bethânia ao longo de uma

carreira de 20 anos na época, tornara-se mito midiático, arregimentando um séquito significativo de fãs que a adoravam e respeitavam-na, tal como a uma entidade. O editorial da mesma revista traz o seguinte texto:

Maria Bethânia resiste ao tempo, sem acompanhar os modismos, nem abraçar os ritmos da época, entremeando composições de contemporâneos com velhas canções que ouvia pelo rádio quando era ainda criança que caminhava pelas provincianas ruas de Santo Amaro. É uma cantora diferente, esta filha de Iansã, da época que subiu ao Palco do Teatro Opinião, Rio de Janeiro, para substituir Nara Leão, ao que faz hoje nos Vinte anos de paixão.

A esta mesma revista a cantora declara uma das lendas da sua vida: diz que a força de Iansã a acompanha desde sempre, e isso fica claro, com a sua chegada ao Rio de Janeiro, em Copacabana, em 1965 quando, na forma de chuva, raios e trovões, Iansã a recebia e prenunciava o deslanche da sua carreira artística.

Em 1996, na onda do sucesso do disco e da turnê Âmbar (o disco ao vivo e o show foram chamados de Imitação da Vida), Bethânia concedeu uma entrevista histórica à revista Playboy. E acabou por ter várias declarações distorcidas, segundo ela mesma diz, o que a fez se indispor com a revista masculina e com a jornalista Norma Couri. Mas, o importante ali registrado, para o estudo aqui desenvolvido, reside no perfil feito sobre a cantora com o seguinte texto:

Bethânia carrega uma personalidade mística que não escapa às pessoas mais íntimas. É uma ‘sacerdotisa’ para Caetano Veloso, o mais ilustre dos seus sete irmãos. ‘Iansã viva’ no palpite do jornalista e produtor cultural Nelson Mota. ‘Esfinge baiana’ para outro jornalista, o já falecido Ronaldo Bôscoli. ‘Um orixá’ na opinião do escritor Jorge Amado, ele próprio cada vez mais próximo de se parecer com uma nova entidade nagô. Nem a nova amiga Adriana Calcanhoto, deixa de fazer um comentário esotérico: ‘Ela tem o fogo sagrado’67.

Durante quase todos os anos 90, os principais jornais e revistas brasileiros trataram Maria Bethânia com os seguintes adjetivos: “o máximo”, “diva”, “musa do amor”, “maravilhosa”, “sublime”, “rainha dos palcos”, “maior intérprete brasileira”. Qualidades endossadas pelos gritos do fidelíssimo público que acompanha de perto a sua carreira, lotando as salas de espetáculos das principais cidades brasileiras. A matéria de Celso Massom, publicada em

Veja, em 14 de maio de 1997, “Ela está o máximo”, é bem representativa para ilustrar a

leitura que a mídia do nosso País, principalmente no eixo São Paulo – Rio de Janeiro –

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Salvador, imprimiu sobre a carreira de Bethânia na época do lançamento do CD Imitação da Vida. Segundo Massom, com este disco Bethânia “confirma o quanto cresceu como cantora nos últimos tempos, lançando um dos melhores discos do ano e talvez o grande trabalho de sua carreira”68.

É importante se ressaltar que a aura mística de Maria Bethânia começou a se publicizar no Brasil desde os anos 70. Em 03 de setembro de 1973, a Veja estampou em sua capa uma foto da cantora com a seguinte chamada: Maria Bethânia de Iansã.

Ilustração 15 - Revista VEJA

Segundo um depoimento de Maria Bethânia para a revista Bravo (agosto 2006)69, isso de chamá-la de “orixá vivo” partiu, carinhosamente, do escritor baiano Jorge Amado, a cantora declarou o seguinte:

Jorge, particularmente, sempre teve por mim um carinho nítido, sempre me falou da admiração pelo meu trabalho. E ele brincava muito comigo. Dizia, por exemplo, que a palavra medo eu jamais poderia dizer, ou tampouco sentir qualquer medo. Dizia: ‘Você é um orixá vivo”. Ele inventou essa história que, na minha opinião, só um escritor, um homem ligado à literatura poderia criar, dada a beleza e sensibilidade de suas palavras.(...) Ele a vida inteira cismou que eu era de Iemanjá, e eu dizia ‘Jorge, sou de Iansã’, e ele respondia ‘É de Iemanjá’. Então, para ele ficou assim (p.37).

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Veja, 14 de maio de 1997. 69

A recorrência em chamá-la de “orixá vivo”, “deusa dos palcos”, “sacerdotisa” ou até, como Elis Regina70, em ira, se referia a ela às vezes, “feiticeira” ou “macumbeira baiana”, sempre apontou para o reforço da sua imagem associada a aspectos do sobrenatural. Bethânia traduziu-se e traduz-se nessa sua condição de devota de santos e orixás e muito mais do que um recurso estético para qualificar o seu trabalho como artista, ela se entrega ao palco, à música, aos textos, às fotos que fazem dela, como se estivesse cumprindo uma missão dada pelos “Céus”. Portanto, a tônica do seu trabalho é espelhar em si e para os outros a importância que o sagrado ocupa em sua existência.

A temática do candomblé centraliza-se em grande parte dos trabalhos de Bethânia. Desde 1970 ela já tinha cantado um ponto para Iansã, revelando-a como seu orixá de cabeça. A capa dos antigos LP’s (hoje transformados em Cd’s), Pássaro Proibido (1976), Álibi (1978), Mel (1979), Talismã (1980) Alteza (1981), Olho d’água (1992); e dos nascidos como CD’s Âmbar (1996), A força que nunca seca (1999), Brasileirinho (2003), podem ser exemplificados como acoplagens da imagem da cantora a símbolos sagrados da religiosidade afro-brasileira.

Ilustração 16 - Pássaro Proibido Ilustração 17 - Talismã

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Este episódio é relatado por Regina Echeverria, na biografia que a jornalista escreveu sobre a cantora gaúcha, e se chama Furacão Elis.

Ilustração 18 - Alteza Ilustração 19 - A força que nunca seca

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