Em artigo recente, McEvoy (2009a) propôs uma crítica penetrante à Pritchard, e suge- riu que o autor não conseguiu solucionar apropriadamente o problema da loteria. A seguir, irei apresentar esta crítica, e tecer alguns comentários em seu favor.
McEvoy alega que a crença de que PL em loteria2 não é segura, de acordo com S3 e
com a métrica dos mundos possíveis propostas por Pritchard. O mesmo motivo que conduz Pritchard a dizer que a crença de que PL não é segura em loteria1, também deveria levar
Pritchard a dizer que a crença de que PL em loteria2 não é segura. Afinal, para que o sujeito S
viesse a crer falsamente em loteria2, tudo o que precisaria acontecer seria que houvesse um
deslize da parte do jornal. O evento em que S crê falsamente que ganhou na loteria porque um número foi acidentalmente trocado não parece exigir uma mudança significativa em relação ao mundo em que, por hipótese, o jornal relata corretamente o resultado do sorteio.
A réplica mais natural em defesa de S3 seria dizer que, dado que o jornal é bastante confiável e possui algum tipo de mecanismo para detecção de erros, o mundo possível próxi- mo em que um erro passa despercebido pelos mecanismos de correção deve ser considerado suficientemente distante. Ele não é um mundo muito próximo.
Pritchard alega que jornais, pelo menos aqueles que merecem crédito, possuem certos mecanismos destinados a prevenção de erros deste gênero. Existem editores e revisores de texto, geralmente confiáveis, que trabalham para que tais falhas não aconteçam. Conforme coloca Pritchard:
O ponto aqui é que jornais confiáveis - o tipo de jornal que alguém pode usar para vir a saber que perdeu na loteria - possuem mecanismos de correção inter- nos que visam prevenir tais tipos de erro de digitação ou impressão de virem a ocor- rer. A equipe é altamente treinada e diligente, toda informação é corrigida duas ve- zes por eficientes revisores de texto, e, talvez mais significativamente, aqueles que conferem os resultados são provavelmente possuidores de bilhetes de loteria, e pos- suem um interesse pessoal na correção dos resultados. Em suma, eu penso que uma vez que descrevemos os detalhes do caso apropriadamente, não é muito plausível supor que os mundos possíveis onde nosso herói forma uma crença falsa na proposi- ção alvo são próximos (PRITCHARD, 2009, p.36).
O problema do argumento de Pritchard é que ele parece exigir demais do conceito de confiabilidade, e do que esperaríamos de um jornal ou de outra fonte de informação seme- lhante. De acordo com sua tese, se uma fonte é confiável no que diz respeito a transmissão de
conhecimento então não existe nenhum mundo possível muito próximo em que a mesma fonte de informação erra (supondo as circunstâncias iniciais relevantes fixas).
A objeção de McEvoy afirma que, afinal de contas, erros deste tipo ocorrem em jor- nais tipicamente confiáveis, ainda que não com grande frequência (se fossem excessivamente frequentes, então os jornais não seriam mais propriamente confiáveis). Tudo o que seria ne- cessário para que o sujeito acreditasse falsamente em loteria2 seria que o jornal cometesse um
erro ao relatar o resultado, e que o mecanismo de correção (confiável, porém falível) viesse a falhar (talvez por um lapso do corretor de texto do jornal). Conforme coloca o autor:
O ponto destes exemplos é que má impressão e outros erros podem e, de fa- to, ocorrem em jornais normalmente confiáveis. O fato de que erros de impressão ocorrem, apesar das boas qualidades dos jornalistas e revisores mostra que tais erros podem ocorrer sem exigir modificações transmundanas relativamente às qualidades dos agentes relevantes. Por que pensar que os relatos dos vencedores de sorteios de loteria seriam especialmente imunes a tais erros? A falibilidade dos funcionários dos jornais é tudo que é necessário para erros aconteçam em qualquer área - e uma vez que isto é uma constante entre o mundo atual e todos os mundos próximos, muito pouco deve ser diferente entre o mundo atual e mundos do tipo (ii) [ mundos em que o jornal comete erro ao relatar o resultado da loteria] (MCEVOY, 2009a, p.14). Erros são encontrados diariamente em jornais confiáveis no mundo atual. Se este é o caso, não deveríamos dizer que a possibilidade erro do jornal deve ser considerada muito pró- xima, uma vez que casos semelhantes sob todos os aspectos relevantes ocorrem no mundo atual? Afinal de contas, é duvidoso, para dizer o mínimo, que o mundo em que o jornal come- te um erro ao relatar o resultado da loteria não é muito similar ao mundo atual, se situações muito similares, pelo menos sob os aspectos relevantes (o jornal é confiável, existem meca- nismos para prevenção de erros, e assim por diante), já fazem parte do mundo atual. Um mundo em que um jornal muito confiável, porém falível, efetivamente falha a respeito de um certo relato, parece muito próximo do mundo atual (supondo que o mundo atual seja um mundo em que o jornal não erra ao fazer o relato).
Curiosamente, uma versão anterior da condição de segurança, o princípio S1, parece responder corretamente a loteria2. Afinal, ainda que exista algum mundo possível muito pró-
ximo em que o jornal erra ao relatar o resultado, isto não parece ocorrer na maioria deles ou com grande frequência. O problema desta alternativa é que, em razão de loteria1, Pritchard se
viu obrigado a rejeitar S1. Não penso haver uma saída viável, no quadro dos princípios suge- ridos por Pritchard.
Além da incapacidade de S3 de responder à loteria2, gostaria de apontar para outro
classificação tripartite do conjunto de mundos possíveis: mundos muito próximos, mundos próximos não muito próximos e mundos distantes. Pritchard não fornece um critério sistemá- tico a respeito de como devemos realizar tais distinções. Ao mesmo tempo, é duvidoso que tenhamos intuições estáveis a respeito de como distinguir entre mundos próximos não muito próximos e mundos muito próximos. A teoria que depende da capacidade de realizar esse tipo de discriminação fina parece assentada em uma base demasiado frágil e incerta.
A vagueza e imprecisão de uma distinção podem ser toleráveis - elas não são eliminá- veis de muitos conceitos - se tivermos alguns casos paradigmáticos em que a distinção pode ser feita com relativa segurança, e se conseguirmos sistematicamente faze-la em uma ampla gama de casos. Aqui é útil fazer uma comparação, a fim de mostrar que a vagueza e a impre- cisão não são suficientes para impugnar a utilização teórica de um conceito. Consideremos, por exemplo, a distinção entre mundos próximos e distantes. Embora a métrica da distância modal contenha alguma dose de vagueza e imprecisão, podemos, ao menos em certos casos, nos por de acordo quanto a como ela deve ser feita. Mundos em que sou o Presidente da Re- pública, ou em que todos os meus conhecidos são alienígenas disfarçados de seres humanos, ou mesmo mundos em que sou um bilionário, são certamente distantes. O mesmo podemos dizer a respeito dos mundos imaginados pelos céticos: o mundo em que todas as minhas expe- riências sensórias são causadas por algum tipo de demônio é certamente distante. Por outro lado, nos colocamos de acordo quanto a classificação de certos mundos como próximos: são próximos os mundos em que possuo um fio de cabelo a mais, ou um centímetro a mais de altura. A distinção entre mundos próximos e distantes parece pertinente, pelo menos para uma ampla gama de casos. Infelizmente, não vemos o mesmo tipo de robustez na distinção entre mundos próximos não muito próximos e mundos muito próximos.