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Como surgiu o significante “Olinda”, nome da cidade, como foi escolhido e por quem. Vamos destacar os aspectos históricos e mitológicos desta nomeação e como isso foi veiculado imaginariamente entre seus filhos, através das gerações, constituindo os mitos fundadores da cidade de Olinda, com os quais os olindenses se identificam.

Antes da chegada do português colonizador, a região do atual Estado de Pernambuco era habitada por uma população indígena que tinha o domínio do território, no qual existiam as primitivas aldeias dos Tabajaras e dos Caetés. Sua antiga denominação mostrava esta particularidade. Chamava-se Marim, palavra supostamente de origem indígena, corruptela de

66

“Mirim”, que segundo o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre,67 pode estar ligada à idéia de

pequeno ou pequena, ou derivada de “Barim”, que significa coxo, numa referência a Duarte Coelho, donatário da Capitania de Pernambuco, que em luta com os indígenas teria sido ferido numa perna e mancava. “Marim seria a vila do coxo”.68 Há ainda uma outra versão para o nome

Marim, ligada a Mayr, que seria a expressão usada pelos indígenas para denominar os franceses.

Vejamos o que indica Vanildo Cavalcanti,69 apoiado em Adolfo de Varnhagem, em seu estudo

sobre Olinda: “[...] o nome Marim ou Mar-y, que primitivamente tinha a aldeia que depois cedeu a Olinda o posto, queria com o dizer ‘Água ou Rio dos Franceses’; e denuncia-nos que foram os mesmos franceses os primeiros que aí se estabeleceram.”

Gilberto Freyre70 destaca que o historiador Adolfo de Varnhagen havia questionado

esta origem mítica do nome Olinda, porque ele “[...] limpa de toda imaginação poética e de toda tradição popular sugerir que o nome de Olinda venha de alguma quinta, casa ou burgo de Portugal”. O autor assinala assim em seu texto:

Qualquer das origens sugeridas para o nome de Olinda me parece que tem seu quê de poético – mesmo a que oferece o prosaico Varnhagen. Afinal dar-se ao lugar onde se vai levantar uma vila no Brasil de 1500 o velho nome de uma freguesia, de uma casa ou de uma quinta de Portugal é prova de muito bom sentimento e de apego saudoso à casa antiga ou ao sítio pequeno que se deixou em busca de fortuna ou glória nos ermos da América [...] Se o nome de Olinda tiver sido expressão de lirismo não de um galego qualquer vagando entre os cajueiros da praia, mas do próprio patriarca da colonização portuguêsa desta parte da América, o qual tendo lido a novela famosa se apaixonara pela figura e pelo nome da heroína? Olinda talvez seja isso um nome de mulher.71

O fato é que Marim, primeira nomeação dada à região, seria uma palavra antiga, vinda dos árabes e tem o sentido de fortificação à beira do mar. Não há entre os estudiosos um consenso em relação à origem da nomeação Marim dada à antiga vila, nem à origem do nome Olinda. Para Gilberto Freyre,72 a versão do frei Vicente do Salvador,73 que escreveu sua

História do Brasil em 1627, não concorda com a de Adolfo de Varnhagen, autor da História das Lutas com os Holandeses no Brasil, desde 1624 a 1654, que defende a idéia de que a

denominação Olinda teria origem em Portugal, associando o nome ao de alguma quinta ou

67

FREYRE, Gilberto. Olinda: 2º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

68

Ibidem, p. 4.

69

CAVALCANTI, Vanildo. Olinda do Salvador do mundo. Recife: ASA Pernambuco, 1986. p. 13.

70

FREYRE, op. cit., p. 3.

71

Ibidem, p. 4.

72

Ibidem.

73

SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). São Paulo: Melhoramentos, 1954. Apud FREYRE, Gilberto. Olinda: 2º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

mesmo a um burgo português. O nome Olinda também estaria ligado ao de uma personagem de uma novela do autor português Amadis de Gaula, muito popular na época.

Há uma longa tradição romântica de se atribuir o nome de Olinda a Duarte Coelho, seu fundador, ou a um seu criado próximo, posição defendida pelo frei Vicente do Salvador e aceita pela população, pois está impregnada em seu imaginário e em sua memória, sendo motivo de orgulho e traço identitário dos olindenses. Conta a lenda que este caminhava no meio do mato à procura de uma localização para se estabelecer, e encontrou, no alto de uma colina, um sítio privilegiado para erigir sua vila e assim nomeou Olinda, em função da beleza do lugar, de onde se descortina uma linda paisagem dos arredores, com uma visão privilegiada do mar e da vegetação. Eis como reza a tradição:

Diz-se que foi assim: eu “hum Gallego criado de Duarte Coelho [...] andando com outros por entre o matto buscando o sitio em que se edificasse [a vila], achando este que he em hum monte alto, disse com exclamação de alegria: Olinda!” Foi esta a tradição que frei Vicente do Salvador recolheu nas notas de História do Brasil que acabou de escrever em 1627 [...] o beneditino Dom Domingos de Loreto Couto e, depois dele, o inglês Southey, afirmam, em seus escritos, que foi o próprio Duarte Coelho, primeiro donatário de Pernambuco, que exclamou diante do monte: “Olinda situaçam para se fundar huma villa” Oh linda teria se aquietado em Olinda.74

Seu nome, na memória popular, está ligado a uma exclamação, referida à localização para se fundar uma vila: Oh! Linda. Teria sido esta a origem de seu nome. Olinda, de fato, tem uma situação geográfica privilegiada e foi construída inicialmente em cima das sete colinas, debruçando-se na beira do mar, rodeada por uma vegetação tropical que descortina uma linda paisagem de seu entorno.

É importante perceber que está em jogo aqui a memória social dos moradores de Olinda em relação à origem do nome da cidade, como nos aponta a filósofa brasileira Marilena Chauí,75 em relação a esta questão: “[...] o nome da cidade é fixado pela população

através da memória social ou histórica através dos mitos fundadores, passados através de relatos, registros, depoimentos, testemunhos, através das gerações.” Para os olindenses não há dúvida de que Olinda vem da beleza do lugar, e isto é repetido como uma cantilena pelos guias-de-turismo mirins, ao relatar a história de Olinda para os turistas que visitam a cidade, como apresentamos no texto transcrito no Capítulo 1.

74

FREYRE, 1968, p. 3.

75

Como muito bem observa Leonardo Dantas Silva,76 o ditado popular resume o

sentimento dos olindenses por sua cidade: “[...] tudo serve para explicar o que há no nome: Olinda. Os olindenses, porém, a exemplo dos seus avós, têm uma explicação própria para todo esse feitiço que toma conta de quem a conhece: Quem não viu Olinda, não amou ainda!” Assim está situada a cidade de Olinda: é um município do Estado de Pernambuco, região nordeste brasileira, localizado a seis quilômetros da cidade de Recife, atualmente capital do estado. Possui área total de 40,83 km2, da qual 34,54 urbana e 6,29 rural. O Sítio

Histórico compreende uma área de 10,04 km². Limita-se ao Norte com o município de Paulista, ao Sul com o município de Recife, a Leste com o Oceano Atlântico e a Oeste com os municípios de Paulista e de Recife.

Está situada a 8º0´35´´ (oito graus, zero minuto e trinta e cinco segundos) de latitude sul e 34º5´4´´ (trinta e quatro graus, cinco minutos e quatro segundos) de longitude oeste de Greenwich, coordenadas de seu observatório no alto da Sé. Suas colinas têm apenas algumas dezenas de metros de altitude: 56 metros no alto da Misericórdia, 54 metros na base da caixa d´água (alto da Sé), 58 metros no pátio da igreja N. Sa. do Monte. O ponto culminante do município está afastado da cidade, no Monte Berenguer, com 72 metros de altitude, no vértice.77

Sua situação possibilitava um acesso fácil da população, uma vez que as colinas são suaves, e isto facilitou o início de seu povoamento nesta parte alta da cidade. Percebemos no nome Olinda os tons poéticos, líricos e românticos sobre sua nomeação e é esta origem fortemente cultivada pela população olindense em relação à origem do nome com que a cidade foi batizada e com a qual se identificam. Mas esta localização estava muito exposta ao olhar de cobiça dos estrangeiros, principalmente os europeus que nos séculos XVI e XVII investiam nesta região em busca de suas riquezas naturais.

A cidade em que se viveu está também nos registros das lembranças, pelas rememorações das passagens nela vividas, quer no âmbito individual, quer no âmbito das relações sociais, possibilitando a construção de uma identidade que faz parte da subjetividade de cada um que constrói esta cidade, com base nos vínculos com ela desenvolvidos. Conforme destaca Catarina Oliveira,78 em seus textos sobre a cidade:

Compreendemos como as pessoas conferem memória aos lugares do território que habitam, constroem representações do tempo e do passado e definem a sua identidade [...] A forma como o homem no decurso do tempo encarou os vestígios

76

SILVA, Leonardo Dantas. Olinda o que há no nome. Revista Continente - Documento, Recife, Ano, IV, n. 42, p. 4-7, 2006a. p. 7, grifo do autor.

77

NOVAES, 1990, p. 9.

78

OLIVEIRA, Catarina. Lugar e memória: testemunhos megalíticos e leituras do passado. Lisboa: Colibri, 2001. p. 110.

materiais de tempos longínquos e os articulou na sua memória coletiva, imaginário, tradição oral e necessidades cotidianas e a sua significância no quadro de uma interpretação histórica e antropológica.

Quais são então as representações que os olindenses constroem de sua cidade, lembradas nos processos de rememoração, que nos revelam os laços afetivos e identificatórios com a cidade? Isso nos leva a seguinte questão: como os olindenses hoje vêem sua cidade e como se sentem os que lá vivem? Vejamos como os olindenses foram formando sua visão e sua realidade da história social, cultural e dos aspectos psicológicos em relação à cidade em que viveram, quais os aspectos subjetivos e emocionais mais marcantes na construção de sua identidade e em sua relação com a cidade de Olinda.