3.1 - Introdução
Na Ciência, um conjunto particular de elementos e temáticas intervem na produção e desenvolvimento do conhecimento científico, o qual poderíamos chamar contexto, de acordo com a definição de REICHENBACH (1938). Um contexto é aquele em que o cientista encontra-se na busca da solução do seu problema, produzindo hipóteses e modelos, formulando idéias ou inventando conceitos; mas sujeito às circunstâncias pessoais, psicológicas, afetivas, econômicas e tecnológicas intervenientes na gestação ou descoberta dessas produções. Tal contexto trata do enfrentamento do problema, as idas e vindas, angústias, satisfações, abandonos e novos começos realizados na produção científica. Um outro contexto aborda questões de validação das idéias desenvolvidas no primeiro contexto, ou seja, as idéias precisam ser analisadas e julgadas, para tornarem-se consensuais requerem justificação. A atividade assistemática e informal, típica do contexto da descoberta, é substituída por um processo criterioso de avaliação lógica e empírica no contexto de justificação, principalmente através do referendo da comunidade científica especializada, quando submetida a produção à publicação. Já na forma de elaboração do texto, independentemente da qualidade dos resultados, existe um primeiro nível de racionalização. Nas palavras de REICHENBACH (1938):
A forma que os matemáticos publicam uma nova demonstração, ou um físico seus raciocínios na criação de uma nova teoria, quase poderia corresponder ao nosso conceito de reconstrução racional, o a bem conhecida diferença entre a maneira de falar um teorema e a de apresenta-lo ao público podem ilustrar a diferença em questão. Introduziremos os termos contexto da descoberta e contexto da justificação para sinalizar esta distinção (citado em SPELTINI et al., 2006).
Conforme sugerem PINHO-ALVES et al. (2001), entre os dois momentos “há um processo de reelaboração racional que elimina elementos emotivos e processuais, valorizando elementos isentos de sentimentos e encadeados logicamente” (p. 80). A prática filosófica tradicional despende grande esforço se debruçando na análise do segundo momento; apelando, em geral, a eleição de um conjunto de princípios racionais a partir dos quais uma teoria possa ser dita mais “verdadeira” que a outra. A noção de falsificacionismo, proposta por KARL POPPER, é um exemplo clássico. POPPER (1985) argumenta que uma teoria quando posta a prova empírica, vai ao campo de batalha não para verificação, mas para falsificação. Toda tentativa de testar uma teoria é uma tentativa de falsificá-la. Deste ponto de vista paradoxal, o cientista converge esforços para derrubar a teoria defendida. Um caminho fácil é a busca por previsões testáveis que não possam ser derivadas das teorias existentes, e se ocorrer delas estarem em contradição com a teoria rival, mais significativo ainda é o teste. A possibilidade de a hipótese estar equivocada é a potencialidade do sucesso da teoria. Caso a teoria sobreviva a estes auto-ataques, pode-se dizer que é maior o seu conteúdo de verdade. Assim, a teoria de Einstein tem maior conteúdo de verdade que a teoria de Newton, porque ela prevê todos os fatos previstos pela teoria de Newton e prevê alguns mais corretamente. Além disso, a teoria de Einstein prevê com êxito fatos que não foram previstos por Newton, como o deslocamento da luz, quando emitida num forte campo gravitacional, para extremidade vermelha do espectro.
A despeito da elegância do modelo de POPPER e do fato que outros exemplos poderiam ser arrolados aqui, esta não parece à descrição mais realista para tomada de decisão do cientista. É pouco confortante imaginar que o cientista ao avaliar uma teoria ou confrontá-la com uma concorrente, disponha de um manual previamente formulado determinado quais diretrizes seguir. Uma postura um tanto conveniente levaria em consideração que teorias são aceitas (ou não) por um processo que envolve julgamento individual e interação social. Isto significa que, embora os cientistas façam parte de uma
comunidade, e tal comunidade valorize alguns critérios científicos, estes fatores sociais são filtrados através do indivíduo.
Interessante é notar um ponto frágil dessa tradição, pois logo recaímos em um paradoxo, ainda sem uma resposta definitiva, ao aceitarmos as relações entre teoria e dados como contidas no âmbito restrito da racionalidade. GIERE (1988) considera insuficiente considerarmos o julgamento científico apenas em termos de princípios racionais, pois se apenas isto ocorresse deveríamos esperar mais concordância entre os cientistas que de fato existe. Obviamente, o comentário aqui incide menos sobre os conhecimentos consensuais já submetidos aos critérios de aceitação da comunidade científica do que sobre os atuais trabalhos experimentais ou teóricos, nos quais a divergência é manifesta. Nas palavras de GIERE:
Se existe alguma coisa tal como princípios da racionalidade científica, a comum existência de grupos discordantes dentro da ciência deve ser resultado de forças irracionais ou interesses (1988, p.3).
Esta é uma questão crucial, como mostraremos mais adiante, porque ela faz refletir, apesar de conduzir a considerações distintas do propósito do autor citado, a respeito das crenças, emoções e sentimentos dos cientistas e como eles influem na validação de explicações sobre o mundo natural, o que serviria de um bom apoio para pensar os critérios utilizados pelos alunos na construção de explicações, e a quais condicionantes eles estão sujeitos. NUSSBAUM (1989), por exemplo, sugere que “Lakatos, Toulmim e Kuhn não abordam a mudança conceitual com um processo lógico necessário, portanto devemos nos apoiar em algo mais do que a lógica” (p.537). Nós argumentamos que o debate científico não é racional (às vezes), não porque não há provas racionais; mas, o debate científico não é racional (às vezes), porque as pessoas em geral carregam condicionantes não-racionais. A luta pela racionalidade científica defendida por muitos filósofos é necessária, até em benefício da manutenção da instituição científica, porém tende, a nosso ver, a obliterar as noções mais primitivas do intelecto, e da ação humana. Concretamente, o pesquisador é um sujeito tão condicionado por crenças e emoções quanto qualquer ser humano, freqüentemente forçado a seguir seus próprios instintos e correr o risco de amargar demasiadas decepções. A audácia inerente à imaginação humana parece não sucumbir ao julgo do método racionalista. A racionalidade científica e seu triunfo contam uma história parcial de emancipação sem fornecer os créditos a um conjunto de ferramentas intelectuais
esquecidas no campo de batalha. Sempre se acaba por concluir: o homem de ciência se comporta com se não tivesse um “perfil psicológico singular, como se não tivesse afetividade, paixões, cultura, convicções pessoais herdadas de seu meio e sua educação, como se não tivesse história nem, é claro, inconsciente” (THUILLIER, 1994, p. 17). Ao sabor de uma nova faceta do legado exorcista baconiano, deveria se entronizar com o mundo através do canal propício e imaculado da racionalidade pura.
Einstein, uma das figuras mais badaladas da Ciência, declaradamente contesta o caminho puramente lógico na apreensão da realidade. Para ele, não existe um caminho lógico entre a experiência que se apresenta e os princípios destinados a explicá-la. Contudo, as teorias de Einstein não são elucubrações do seu espírito privilegiado. Então, como isto funciona? THUILLIER (1994) refere, e nós concordamos, não a uma racionalidade absoluta, mas ao simples produto da atividade humana, ou seja, uma atividade intelectual, porém, psicológica e sócio-culturalmente condicionada. Em outras palavras, a origem das teorias científicas não é propriedade exclusiva da lógica e do respaldo empírico. Einstein formulou sua teoria da relatividade, na opinião de THUILLIER, não como resposta teórica ao fracasso da experiência de Michelson-Morley, mas na busca de uma representação de mundo mais ou menos peculiar a sua concepção de natureza. Além disso, ao aceitarmos a racionalidade científica incondicionalmente, fazemos um corte drástico nos meios através dos quais se torna possível à apreensão da realidade. Portanto, é necessário apontar sua falsa hegemonia e trazer à tona mais do substrato que lança luz nesta racionalidade, qual seja, a imaginação científica no seu sentido mais amplo.
A primeira impressão, aceitando-se pelo menos em parte a asserção acima, é que algo está errado ou pelo merece ser esclarecido, porque muito do espetáculo apresentado no círculo científico se passa como se a ciência fosse somente pautada nas asserções racionais acerca do mundo e em relação às motivações dos cientistas ao se apegarem à determinada representação dele, de modo que “no debate científico, a razão vem sendo comumente considerada uma faculdade intelectual de coordenação, cuja eficiência pode ser aumentada pelo uso metódico e pela remoção de quaisquer fatores não intelectuais, tais como as emoções conscientes ou inconscientes” (HORKHEIMER, 2000, p.18). A imagem da ciência referida passa por alto de qualquer descrição em nível das atividades humana mais comuns; como se fosse lícito e exclusivo ao homem de ciência, separar seu
universo intelectual em duas partes: aquela da pureza racional e outra viciosa da afetividade.
Podemos usar a metáfora do espetáculo: ao apreciarmos um espetáculo pronto, raramente alguém se questiona sobre a produção, o momento da criação, o ensaio geral; a beleza do produto final tende a encobrir o infatigável processo de gestação das idéias e preparação do palco em que se materializa o conteúdo da ciência. É mister, então, a compreensão da produção científica do conhecimento nos próprios bastidores da empresa científica, quer dizer, o “making of” da produção científica, não somente aumentaria nossa compreensão da imaginação dos cientistas envolvidos neste ato, mas também restituiria a idéia de ciência como atividade humana e sujeita aos diversos percalços do enfrentamento de situações comum aos humanos. Todavia, seria tolice manchar a distinção entre conteúdo racional e afetivo (crenças, emoções, estética, loucura, dentre outros). É válido para os nossos objetivos apontar a existência de algumas áreas de instabilidade nas quais a força da razão cai impotente diante do não-racional. O conceito de Tema desenvolvido por HOLTON (1979) será útil, ao lado das propostas mais contemporâneas de PAUL THAGARD (2001) e BAS VAN FRAASSEN (2002). Na parte final do capítulo, propomos algumas aproximações entre os argumentos levantados e a noção de sentimento de entendimento. Antes, convém uma breve análise do que se chama racionalidade científica.