Julgamos necessário, por fim, apresentar os dois jornais populares que serão utilizados para a pesquisa, numa primeira e sucinta apresentação dos objetos empíricos.
O jornal carioca Meia Hora é publicado pelo grupo “O Dia” e foi lançado em setembro de 2005. Nos últimos anos, figurou na lista dos 10 mais vendidos
divulgadas pelo Instituto Verificador de Circulação. As principais editorias do jornal são “Geral”, “Polícia” e “Esportes”. O mundo das celebridades também tem espaço significativo, seja na capa, já que sempre há uma foto de algum olimpiano, ou dentro dos jornais, com duas colunas sobre o assunto. Um dos traços principais do jornal é a irreverência e o humor presente, sobretudo, nas manchetes e títulos. Nasceu com o slogan “Nunca foi tão fácil ler jornal”.
O periódico carioca apresenta as principais características do que se convencionou como jornalismo sensacionalista. Suas manchetes são provocantes, as imagens são abundantes e os assuntos, comoventes. Juntamente com outros jornais populares, é apontado como um dos responsáveis pelo crescimento da circulação de jornais impressos no Brasil8. Isso porque uma parcela considerável da população que não consumia esse tipo de veículo informativo se tornou leitora de jornais. Esse fenômeno se deve, segundo Henrique Freitas – editor executivo do MH e do O DIA – ao descobrimento de um filão que não estava sendo bem explorado pelos jornais existentes. Em entrevista o jornalista Anderson Dezan, Freitas afirmou que
Havia o jornal 'O Globo' navegando sozinho para a classe A, os jornais 'O Dia' e 'Extra' lutando pelas classes B e C e não tinha mais ninguém. Todos custando mais ou menos a mesma coisa e não havia jornal gratuito. Se eu faço um jornal relevante, interessante, cobro barato por ele e o distribuo nos lugares certos, eu vou atingir o público que está necessitando dessa publicação. Não deu outra. Em dois meses, chegamos a uma média diária de 100 mil jornais vendidos. (DEZAN, 2009)
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Não acreditamos numa migração de leitores, ou seja, que os leitores da Folha de S. Paulo passaram a ler jornais populares. Esse periódicos são, preferencialmente, para os públicos das classes B, C e D (AMARAL, 2006, p. 09). À medida que essa classe C “incha”, como demonstraram as pesquisas sobre as classes sociais do país desde 2008, aumenta o nicho de atuação desses jornais.
Assim nascia o Meia Hora, intencionando suprir a necessidade de informação de uma parcela considerável da população cuja televisão é a principal forma de acesso e apreensão do mundo ao redor e entretenimento, e não possuía o hábito da leitura diária. Entre os assuntos de maior relevância para esse público, segundo o jornal, estão as ações policiais, com prisões, mortes e apreensões, as notícias de esporte, principalmente do futebol carioca, e a vida das celebridades. Ainda segundo Freitas, o jornal agrada aos leitores por não ser do tipo "que espreme e sai sangue" e ter manchetes bem humoradas. Como forma de impulsionar as vendas, o jornal lança mão de um artifício que já estava presente na fase popular do O Dia e em outros jornais populares, como apresentados na seção anterior: a realização de promoções, nas quais os leitores ganham brindes.
Entre as editorias do jornal estão: Serviços, Geral, Polícia, Voz do Povo, Esportes, Saúde, De Tudo Um Pouco e Mundo e Tecnologia. As editorias de polícia e esporte ocupam o maior espaço do jornal, que tem entre 36 e 48 páginas. As seções Televisão e Babado (essa com notícias da vida das celebridades) também recebem destaque no jornal, principalmente se comparadas às editorias de Saúde e Geral, que na maioria das edições não ocupam mais que meia página.
A rádio FM O Dia, do mesmo grupo que edita o jornal, mantém a coluna “Jornal da FM O Dia”, na qual traz um jogo de perguntas sobre a vida dos famosos e o universo da televisão, além das “Piadas do Cabeção” e promoções para distribuição de ingressos para eventos da rádio. Já na coluna “Alto Astral”, o leitor encontra palavras cruzadas, histórias de santos, significado de sonhos, simpatias, frases de motivação, horóscopo e curiosidades do tipo “acredite se quiser...”.
Entre as editorias e colunas itinerantes estão: “Vida e Meio Ambiente” e “Conta Social” e “Negócios”, publicadas na segunda-feira; a coluna “Pá e Bola” do
Caderno de Esportes de domingo. No domingo, o caderno de Televisão é maior. A coluna “Balanço Geral, de Wagner Montes, sai as segundas, quartas e sextas-feiras. Na sexta, uma coluna especial traz os shows do final de semana. Alguns cadernos especiais circulam somente na chamada Grande Rio: Empregos (domingo), “Negócios” (segunda- feira), “Autopeças” (terça-feira), “Motor” (quarta-feira), “Imóveis” (quinta-feira), “Motos” (sexta-feira) e “Casa e Reforma” (sábado).
Uma das colunas de maior sucesso do impresso é “A Gata da Hora”, na qual são publicadas fotos de mulheres vestidas com biquínis e lingeries e fazendo poses sensuais. Publicada no caderno de esportes, a única exigência é que a mulher informe para qual time torce. De preferência, os quatro times grandes do Rio de Janeiro. Freitas, na mesma entrevista a Dezan, aponta como faz a seleção das fotos que entrarão nessa coluna:
Eu recebo fotos de muitas barangas, mas estou sempre peneirando. Não posso ter preconceito. Aqui é um jornal democrático. A gente pede no jornal para elas mandarem a foto então tem que colocar de tudo, não pode discriminar. Tem que sair de todos os times, preta, branca, amarela, empregada, da comunidade. (DEZAN, 2009)
Já o jornal da capital mineira, Super Notícia é publicado há 10 anos e, em 2010, atingiu o topo da lista de circulação de jornais no Brasil, posto ocupado pela
Folha de S. Paulo durante 23 anos. De formato standart, custa $0,25 e é vendido em
sinais de trânsito, metrô, pontos de ônibus, indo, assim, ao encontro do leitor. Em média, o jornal tem 32 páginas e suas manchetes, embora priorizem a cobertura policial, são mais próximas dos jornais tradicionais. Na capa, violência urbana, esporte e celebridades.
De tom mais sóbrio que o encontrado no Meia Hora, o jornal da capital mineira é responsável por alavancar a venda de periódicos do estado de Minas Gerais, que sempre ocupou as últimas posições entre o estados nacionais. “Antes desta publicação, o estado ocupava o 23º lugar no quesito leitura de periódicos entre os 27 estados do país. Agora, Minas está no oitavo lugar” afirma a pesquisadora Marise Baesso Tristão (TRISTÃO, 2012, p. 05). De fato, o jornal é um fenômeno de vendas e vem sendo foco de várias pesquisas recentes.
O jornal se divide nas seguintes editorias: Opinião, Cidades, Geral, Variedades, Esportes. Dentro da editoria Cidades nós encontramos as principais notícias da publicação. É nessa editoria que encontramos a “Notícia do Dia”, principal matéria, geralmente ocupando uma página inteira e trazendo elementos jornalísticos como fotografias e retrancas. Essa matéria sai do modelo central encontrado nos jornais populares, incluindo o SN, a saber, a opção por trazer, quase que exclusivamente, o lead da notícia. Em grande parte do jornal as notícias são apresentadas pelo parágrafo inicial, sem detalhamento sobre o acontecimento, nem suas possíveis causas e desdobramentos. Ainda na editoria Cidades encontramos uma seção especial sobre Betim, município da região de Belo Horizonte.
Reservando espaço considerável aos fait divers, o SN também realiza promoções, como a junção de selos em troca de brindes. Além disso, mantém o projeto “Super no seu bairro”, que acontece uma vez por mês e, segundo o jornal, “aproxima poder público de comunidade, presta serviços, promove palestras e faz a alegria da criançada” (SN, 24/07/2011, p.14). Elementos que são encontrados na maioria dos jornais de cunho popular e que aproximam o jornal de seu leitor, para além da função primeira, que é a de oferecer informação.
Em 2010, quando o jornal atingiu o topo da lista do Instituto Verificador de Circulação o editor do Super, Rogério Maurício, em entrevista ao site Comunique-se, apontou algo com o qual partilhamos e balizamos nosso trabalho. Para ele, o crescimento da classe C pode ser apontado como um dos motivos para que o jornal alcançasse a marca atual, de 300 mil jornais diários. “Nossos leitores não migraram de outro jornal para o nosso. É um novo mercado leitor. São pessoas que nunca leram jornal e encontram o Super Notícia em padarias, mercearias e bancas”, falou o editor para a jornalista Izabela Vasconcelo (Portal Comunique-se, 25/01/2011)9.
No próximo capítulo, discutiremos sobre esse suposto leitor e as marcas identitárias que acompanham as camadas populares da sociedade brasileira. Nosso objetivo é travar uma discussão sobre o que se convencionou pensar sobre os indivíduos das classes mais baixas e quais as implicações dessa convenção para a produção de produtos midiáticos destinados a esses indivíduos.
9 Disponível em <http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/3-imprensa-a-comunicacao- /66369-isuper-noticiai-passa-a-ifolhai-e-editor-acredita-que-jornal-possa-crescer-ainda-mais.html> Acesso em 27/01/2011
2 – A NOVA CLASSE MÉDIA: CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS
Não aprendia as maldades que essa vida tem Mataria a minha fome sem ter que roubar ninguém Juro que eu não conhecia a famosa Funabem Onde foi a minha morada desde os tempos de neném É ruim acordar de madrugada, pra vender bala no trem Se eu pudesse eu tocava em meu destino Hoje eu seria alguém Seria eu um intelectual Mas como não tive chance de ter estudado num colégio legal Muitos me chamam de pivete Mas poucos me deram um apoio moral Se eu pudesse eu não seria um problema social Guará e Fernandinho - “Problema Social”
No primeiro capítulo, discutimos o jornalismo popular em suas características principais. Traçamos um perfil histórico desse gênero, que não é uma invenção recente, mas está intimamente relacionado com o surgimento da imprensa moderna, voltada essencialmente para a informação e não para o doutrinamento e propagação de ideias políticas. A imprensa popular de hoje carrega os elementos da
penny press, cujo objetivo era popularizar o jornalismo, trazendo-o para o cotidiano de
uma sociedade que estava passando por profundas mudanças estruturais.
O surgimento dessa imprensa é resultado da inserção da atividade jornalística no modo de produção capitalista, mas também resulta de uma demanda social por informação cujo gatilho advém da crescente urbanização, do movimento migratório pós-navegações, da industrialização recente. Essa nova organização social, que já não tem a religião como único princípio norteador, precisa criar mecanismos para se ordenar e situar os indivíduos que a constitui.
Nesse cenário, a imprensa de cunho popular cumpre papel fundamental, a saber criar um solo comum entre os indivíduos, que precisam apreender a dinâmica